Governança corporativa não garante ética!

Este artigo foi publicado: no dia 15/10/2019 na minha coluna no portal R7 e no portal Inova360 e no dia 22/10/2019 no ITForum365.

 

A governança corporativa é mais do que tínhamos há 20 anos e menos do precisamos hoje

É preocupante ver como muitos executivos dormem tranquilos porque sua empresa tem uma boa governança.
Você dormiria?
Eu não e vou explicar o porquê.

Antes, porém, precisamos esclarecer o que é governança corporativa e quais seus princípios básicos.

Segundo a definição do IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa), governança corporativa é o sistema pelo qual as empresas e demais organizações são dirigidas, monitoradas e incentivadas, envolvendo os relacionamentos entre sócios, conselho de administração, diretoria, órgãos de fiscalização e controle e demais partes interessadas.

A governança corporativa possui 4 princípios básicos:

  • Transparência – transparência de informação para transmitir confiança;
  • Equidade – tratamento justo entre todos as partes interessadas (acionistas, colaboradores, parceiros e clientes);
  • Prestação de contas (accountability) – que cada colaborador atue com diligência em suas funções e preste conta, não somente de seus resultados, mas também de sua forma de atuar;
  • Responsabilidade corporativa – garantir a viabilidade econômico-financeira do negócio.

Para cumprir estes princípios, são necessários estabelecer regras claras e estritas, considerar as leis em todos os níveis, definir processos e monitorá-los constantemente, para garantir que se cumpram.
Até aqui estamos todos de acordo que a governança é  extremamente importante e necessário em nossas organizações.
Definir regras e normas internas, assim como as leis,, garantir que sejam cumpridas, transmite muita confiança ao mercado, e isso é o que precisam as empresas para manter sua estabilidade institucional.
A governança, ao lado dos resultados financeiros e projeções de crescimentos são os pontos mais valorizados pelos investidores.

Qual o papel da tecnologia na governança corporativa?

A exigência de fazer cumprir centenas de regras por milhares de pessoas (internas e externas) gerindo milhões de dados, se torna praticamente impossível faze-lo de forma manual.
Processos, dados financeiros, atividade operacionais, que os executivos tenham todas as informações em tempo e forma, de maneira confiável para a tomada de decisão, para que o acionista tenha tranquilidade, os auditores e posteriormente os analistas de mercado tenham transparência e credibilidade das informações, tudo depende de tecnologia.
Pronto, até aqui, o artigo foi um comercial de margarina, morno, porém, correto, e poderia ser enviado para qualquer mídia econômica.

Muitos executivos pensam que a governança é o teto, sua gestão e sua empresa está protegida.
Porém, o que é considerado como teto para alguns, para a Tecno-Humanização é considerado solo, uma política de mínimos.

Cumprir a lei é necessário? Claro, é o mínimo.
Cumprir as regras internas? Sim, é o mínimo.
Ser transparente é importante? Sem dúvida.

Então qual é o problema?
Talvez, por viver em um mundo onde as empresas tem governança e tudo funcione bem, vocês não consigam imaginar onde está o problema.

Porém, vamos nos transportar só por um instante ao meu mundo imaginário, assim vocês vão poder entender o me raciocínio.

Vamos viajar a mundo onde poderiam ter empresas de delivery que pressionam tanto aos entregadores, que pagam um valor extremamente ajustado que acabariam induzindo ao colaborador a correr riscos com sua moto ou bicicleta para cumprir suas metas e ter uma remuneração no limite do digno. Já sei que alguns vão dizer que é melhor isso que estar desempregado e passar fome, mas se poderia fazer melhor.

Neste meu mundo imaginário, também poderia ter empresas que mantem o preço de um produto por um período longo de tempo, faz marketing disso e vende a imagem de que é orientada ao cliente e, portanto, sensível aos seus problemas, porém reduz sistematicamente a quantidade e a qualidade do produto vendido.

Também poderíamos encontrar empresas que desenham processos de captação de clientes com um, máximo dois passos, em contrapartida desenham processos de cancelamento com mais que o triplo de exigências.

Poderia existir, neste meu mundo imaginário, inclusive empresas que criem processos específicos, contratem profissionais especializados e treinamentos de venda e persuasão, que só se preocupam em vender. Sei lá, minha imaginação é fértil, e eu poderia inventar empresas de consórcio que vendem para pessoas que não precisam adquirir aquele bem, empresas de telefonia que vendam planos muito acima da necessidade do cliente, cadeias de fast food que desenhem campanhas baseadas em neuromarketing para atrair crianças, empresas do varejo que abusem de gatilhos mentais para entubar (me desculpem a expressão) um produto que sabem perfeitamente, de antemão, que o cliente não precisa.

E como minha imaginação não tem limites, eu cheguei até pensar que poderia existir empresas de credito pessoal que incitem o consumo, que fomentem e sugiram sutilmente que se o cliente não compra um determinado bem ou não faz uma viagem, ele é inferior aos seus amigos e familiares. E claro, se o cliente, após estar convencido de que precisa daquilo e não pode compra-lo, a empresa, como é boazinha, lhe empresta o dinheiro com juros de 4 a 8% ao mês.

Ainda bem que todas estas bobagens que eu imagino em meu tempo livre, não ocorrem no mundo real.
Então podemos afirmar que estamos salvos, porque as empresas que conhecemos tem uma forte governança, não é mesmo?

Tenho que reconhecer, eu sinto inveja de vocês que vivem em um mundo protegido pela governança corporativa, porque em meu mundo imaginário…

Governança corporativa não garante ética!

Como complemento ao artigo, conversamos com um especialista em governança corporativa e gestão de riscos, diretor a IIA  (Instituto dos Auditores Internos do Brasil) para conhecer sua opinião sobre a relação entre governança corporativa e ética, vale a pena ouvir

 

 

Imagens:  Pixabay

A tecnologia matou a padronização

Este artigo foi publicado: no dia 24/09/2019 na minha coluna no R7 e nos portais Inova360 e ITForum365 .

 

A tecnologia nos permite unir dois conceitos, aparentemente, antagônicos, personalizar em grande escala

Extra! Extra! A padronização morreu!

Essa seria a grande manchete gritada pelos meninos nas esquinas para vender seus jornais.

Ao longo da história, muitos movimentos costumam ser pendulares. Na idade média os artesãos eram valorizados por dois motivos, por serem especialistas e por serem capazes de personalizar seus produtos, até o ponto de que cada reino ou feudo tinha seu próprio artesão.

Em tempos atuais, na segunda metade do século passado os produtos feitos à mão eram sinônimo de qualidade e personalização.

Os melhores ternos, os melhores sapatos, as melhores comidas, tudo era feito à mão.

Morei na Europa por 15 anos e era comum ver altos executivos com camisas feitas à mão com suas iniciais bordadas.

O problema disso é que não é possível conseguir escala, a limitação da capacidade produtiva eram as horas do dia do alfaiate, do sapateiro ou da cozinheira.

Então, com a revolução industrial, Taylor, Fayol, entre outros, iniciou-se um processo de industrialização que foi extremamente importante para o crescimento da humanidade.

Com o processo de industrialização e otimização de processo, chegou à padronização. (perfeitamente compreensível e razoável).

Sou de uma época onde o McDonald’s não aceitava mudar nada no lanche para não atrapalhar sua “linha de produção”.

Este conceito foi levado a todos os tipos de negócio e teve um enorme sucesso. Funcionou muito bem durante muitos anos, porém…

Pouco a pouco, as pessoas começaram a sentir a necessidade de customizar, desenvolveram o desejo de ter produtos e serviços customizados, mas nem sempre era possível tecnicamente.

O grande desafio da indústria era como conjugar produção em massa de forma customizada.

Então, chegaram os millennials (Y) e converteram os desejos da geração anterior em exigências, não aceitam produtos padrões.

Esta é uma característica geracional que se acentuou na próxima, os centennials (Z)

Como resolver este dilema? Com tecnologia e metodologias ágeis.

A tecnologia, se, aliada às metodologias ágeis, são capazes de viabilizar o conceito de customização em massa.

Iniciou-se uma corrida frenética para cumprir estas exigências, atender e/ou superar as expectativas dos clientes. Tudo para melhorar a experiência do cliente.

Este movimento iniciou-se fortemente no setor da moda, empresas de roupas e calçados, como Vans, Converse, Adidas, permitem você customizar seu tênis no site.

Embora tenha sido um grande passo ainda era insuficiente, então surgiu a nova geração de customização, a feita a medida literalmente.

A Feetz, startup americana que foi comprada recentemente por um grande grupo de calçado global, dono de muitas marcas, criou um app que permitia você criar o seu sapato à medida.

O funcionamento é simples, tira-se 3 fotos do pé (em diferentes ângulos guiados pelo próprio aplicativo), envia-se, e a Feetz imprimia, usando impressoras 3D o SEU sapato.

No app não era necessário informar o seu número de calçado.

Sabe por quê? Porque não somos simétricos!

Quem nunca sofreu com a seguinte situação:

Compramos um sapato, um pé fica ótimo o outro fica um pouco apertado ou um pouco folgado…

Ao usar o algoritmo da Feetz isso não acontece, o sapato é SEU.

Agora este conceito saiu do mundo da moda e chegou a outros setores. No podcast BE&SK #1, o CEO da Gaia Eletric Motors, Ivan Gorski, nos contou que será possível um cliente solicitar modificações em seu Gaia (obviamente não estruturais) e em 2 ou 3 semanas receber seu veículo customizado.

Até aqui fantástico, desde o ponto de vista da Tecno-Humanização. Aplicar tecnologia para oferecer ao cliente o melhor produto ou serviço possível, de preferência com materiais e conceitos que causem impacto positivos, tanto ambientais como sociais.

Porém… (sempre tem um porém…)

Isso também chegou aos conteúdos, todas as plataformas de streaming e redes sociais, mostram em função dos seus estilos, gostos e histórico de acesso, conteúdos similares.

Para a Tecno-Humanização, aqui começa o perigo.

É perfeito quando o cliente decide o que quer customizar, ele pode receber sugestões, mas sempre é a pessoa que decide.

Quando alguém decide pelo cliente, mostra o que quer escondendo-se atrás de “ofereço o que o cliente quer”, “eu filtro para facilitar para o cliente”, é perigoso.

Quando um corretor de imóveis oferece e diz que um determinado imóvel é ideal pra você, ele está realmente oferecendo o melhor pra você ou o melhor pra ele? O imóvel que mais demora pra vender, o que paga mais comissão…

Quando o gerente do banco te oferece um investimento, ele oferece o melhor pra você ou o melhor pra ele? O investimento que da mais comissão pra ele, o investimento que ele precisa bater a meta de vendas…

No mundo digital provavelmente seja bem pior!

Se alguém me mostra o conteúdo que eu devo consumir, a roupa que eu devo comprar, o que devo comer, está me mostrando o melhor pra mim, baseado em meu perfil, ou o melhor pra ele?

Serve como reflexão e ponto de atenção.

Voltando à customização em massa positiva e sem manipulação, as empresas realmente devem se prepararem para atender os seus clientes de forma customizada e ágil, porque…

A tecnologia matou a padronização.

Imagem: Pixabay

A tecnologia está para nos servir, não o contrário

Este artigo foi publicado: no dia 09/09/2019 no ITForum365 e no dia 11/09/2019 no portal Inova360.

 

O Japão criou possivelmente a primeira divindade androide do mundo e ela é budista

Androide Kannon Mindar, lembre-se deste nome, porque agora está sendo reverenciado e, em breve, talvez se torne um líder religioso.

A novidade foi lançada em fevereiro deste ano no Templo Kodaiji em Kyoto. O investimento de quase USD 1 milhão para a construção do androide foi uma colaboração entre o templo zen e Hiroshi Ishiguro, professor de robótica inteligente da Universidade de Osaka.

Kannon prega os ensinamentos budistas em japonês e nos telões à sua volta em inglês e chinês para os turistas.

Como entusiasta da tecnologia e especialista em transformação digital humanizada, me chamou a atenção ver um robô em um templo de mais de 400 anos, falando sobre uma filosofia de mais de 2.600 anos para uma cultura muito mais milenar ainda, então eu resolvi escrever um artigo diferente esta semana.

Não vou falar de conceitos da Tecno-Humanização de forma genérica, e sim analisar esta notícia, sem julgamentos.

Vou aplicar a mesma técnica que utilizo em meus treinamentos, vou analisar esta situação como um consultor de tecnologia e depois como um Tecno-Humanista.

Como consultor de tecnologia…

O budismo, assim como a maioria das religiões, filosofias humanistas e espiritualistas estão experimentando um envelhecimento de seus fiéis e uma dificuldade enorme em conseguir o engajamento com as novas gerações.

Diante deste fato, provavelmente um consultor de tecnologia, com a incumbência de retomar o crescimento e engajamento com os jovens, e seguindo a corrente da transformação digital provavelmente pense em aplicar tecnologia para resolver essa questão.

G13-1 v3

Criar um robô, com afeições humanoides para criar empatia, deixar as partes mecânicas expostas para mostrar que é um robô e desta forma consegue-se conectar com os jovens. Colocar uma câmera no olho do robô para “ver” onde estão as pessoas, e desta forma girar, movimentar o tronco, cabeça e as mãos. Usar Inteligência Artificial para aprender e transmitir os ensinamentos de Buda e pronto. Solucionado!

Ah! Por certo, posso traduzir os ensinamentos a qualquer idioma e atender os turistas de qualquer país e desta forma melhorar a experiência do cliente.

Será preciso armazenar os conhecimentos em cloud, melhorar a segurança cibernética para evitar que alguém invada o sistema e possa colocar qualquer tipo de mensagem inadequada nos textos de buda.

Até aqui é o que temos hoje com o androide Kannon Mindar.

Mas um bom consultor, além de criar este projeto, pode inclusive vislumbrar e “vender” a ideia de que os próximos passos seriam:

  • Criar robôs menores, que possam interagir com os leigos, falar com eles, em linguagem natural (e em vários idiomas) e utilizando os módulos de reconhecimento de voz e de imagem, é possível identificar o estado emocional e, somando a análise sintática da fala, o robô poderá escolher o melhor ensinamento para aquele momento.
  • Fazer uma varredura na internet, redes sociais e parceria com grandes bases de dados, somente utilizando os dados públicos ou autorizados, o novo líder espiritual, aplicando big data e analytics poderia ser extremamente assertivo.
  • Vamos mais longe, seguindo as tendências dos modelos de assinatura, se oferece ao cliente um serviço de assessoria espiritual. O cliente autoriza o acesso aos dados privados e paga uma mensalidade em troca de uma solução para seus problemas… o androide poderia se converter em “Buda” (ou “Deus”) na terra com tanta informação.

A nova empresa Budandroidenaterra Ltda precisaria de uma forte governança para evitar que o androide compartilhe segredos de um membro de sua comunidade com outros. E com processos, compliance e governanças fortes, já podem abrir o capital, crescer e dormir tranquilos porque cumprem todos os requisitos exigidos pelos investidores e mercado.

Um momento…

Realmente este é o caminho a seguir?

Agora vamos analisar como um Tecno-Humanista…

Quando li a reportagem pela primeira vez sobre um robô que estava pregando em um templo budista japonês, me chamou atenção

O primeiro que me veio à cabeça foi, “Para o mundo que eu quero descer…“, citando a Silvio Brito (quem tem a mesma quantidade de juventude acumulada que eu, se lembrará)

Levar os ensinamentos de Buda ao mundo, mesmo aos que não são budistas é algo bom?

Eu acredito que sim.

Transmitir ensinamentos que buscam libertar do sofrimento, em minha opinião, é sempre positivo, independente da crença de religiosa de cada um.

Usar a tecnologia para engajar o jovem, para chegar a mais pessoas, para romper a barreira dos idiomas, tudo isso é extremamente positivo.

E usar aplicativos para ajudar e ensinar a meditar?

Válido também!

Criar comunidades virtuais para compartilhar informações e ensinamentos?

Ótimo!

Divulgar os ensinamentos através de e-books, vídeos, podcasts, usar realidade virtual e realidade aumentada para aumentar o impacto de alguns ensinamentos e transportar as pessoas a locais que realmente transmitam tranquilidade e paz.

Fantástico!

Toda essa tecnologia ajuda?

Sim!

Substitui o feeling, a energia e a sabedoria de um monge?

Eu acredito que não.

Dia da apresentação do Kannon Mindar.

Imagens:  Pixabay e Kyoto News

Cuidar das pessoas aumenta a taxa de sucesso da transformação digital

Este artigo foi publicado: no dia 21/08/2019 no ITForum365 e no dia 27/08/2019 em minha coluna no portal R7 e no portal Inova360.

 

Contratar uma empresa de tecnologia para fazer sua transformação digital é tão absurdo quanto um laboratório farmacêutico cuidar da sua saúde

Sinceramente eu não entendo…

Se você não contrata um laboratório farmacêutico para cuidar da sua saúde, por quê contrata uma empresa de tecnologia para fazer a sua transformação digital? Se você contratasse um laboratório farmacêutico para cuidar da sua saúde, o que ele te recomendaria como a única solução para ser saudável?

O que ele te venderia? REMÉDIO.

A questão é que para cuidar da sua saúde você não precisa de remédio, você precisa dormir bem, se alimentar de forma saudável, praticar atividade física, buscar equilíbrio em sua espiritualidade, e, eventualmente, quando fica doente, você precisa de remédio. É exatamente isso que acontece quando você contrata uma empresa de tecnologia para fazer o seu processo de transformação digital, eles te vendem TECNOLOGIA.

E para um processo de transformação tecnológica, você precisa fundamentalmente, preocupar-se e ocupar-se das pessoas, depois do modelo de negócio e para viabilizar esta transformação, aplicar tecnologia.

Leia o artigo –  Fique atento: as tecnologias analógicas também vão impactar a sua vida para entender porque eu já não falo transformação digital e sim transformação tecnológica

Esse é um erro de conceito e o mais comum no processo de transformação digital das empresas. Olhar somente para a tecnologia é se preocupar com o final sem cuidar do processo de transformação em si.

A BE&SK encontrou o modelo matemático que explica este erro e mostra o caminho para corrigi-lo.

Modelo matemático: Viés da sobrevivência

Durante a segunda guerra mundial os EUA encomendaram a seus engenheiros que reforçassem seus aviões para evitar que fossem abatidos.

Como era inviável por peso, blindar todo o avião, os engenheiros analisaram os aviões que regressavam de combate e definiram as áreas com mais furos de balas como as áreas mais frágeis e, portanto, as que deveriam ser reforçadas.

Esta estratégia se mostrou um fracasso e os aviões americanos continuavam a serem abatidos. E sabe por quê? Porque os aviões analisados eram os que sobreviviam ao ataque, portanto, os furos de balas mostravam as áreas, que mesmo atingidas, não eram tão críticas porque o avião resistia ao ataque.

O matemático e estatístico Abraham Wald, que conhecia o viés de sobrevivência, e participou do SRG (grupo de pesquisa de estatística) encarregado de resolver este problema, mostrou que as partes que deveriam ser reforçadas eram justamente as que não possuíam tiros, porque provavelmente eram as que, quando atingidas derrubavam os aviões (tanque de combustível, motor e piloto).

Hoje, este modelo matemático, com ferramentas mais modernas, é usado por fundos de investimentos para bater índices de referências do SP&500.

Como o viés de sobrevivência nos ensina a aumentar a taxa de sucesso do processo de transformação digital?

Ao aplicar tecnologia para resolver seus problemas atuais, a imensa maioria por não dizer todos, estão relacionados ao crescimento, tais como aumentar as vendas (receita), reduzir custos, otimizar seu negócio e seus processos, isso significa blindar a parte que, mesmo atingida, mantém o avião no ar.

Não é a tecnologia que vai resolver estes problemas, ela só vai digitalizá-lo.

E como eu mostrei em meu artigo Crescimento vs. desenvolvimento, digitalizar este jogo só acelera o colapso.

Quando uma empresa digitaliza seus processos para melhorar a experiência do cliente, ela impacta seus clientes, transformando a forma de entregar seu produto e a forma deles consumi-lo. Isso gera mudança de comportamento nos clientes e na sociedade.

Quando a tecnologia é usada para otimizar processos, isso impacta os produtos, serviços, colaboradores, a forma de trabalhar, a cultura organizacional etc.

Em qualquer caso, sejam impactos internos ou externos, a transformação digital não acontece no datacenter, ela SEMPRE acontece nas pessoas.

Ao colocar a tecnologia no centro do processo de transformação digital a empresa está olhando para o lado errado.

Como resolver este problema?

A Tecno-Humanização coloca o ser-humano no centro do processo de inovação e transformação digital, a partir dele, desenha uma organização rentável e consciente que resolva problemas reais do ser-humano, e então, aplica tecnologia para viabilizar este modelo.

Obviamente a tecnologia tem muita relevância no processo de transformação tecnológica, porém elas são um meio e não um fim me si mesma.

A tecnologia representa menos de 20% do processo de transformação tecnológico de uma empresa, e sua função é viabilizar um processo de transformação mais amplo.

Esta afirmação é feita de acordo com o modelo de transformação digital ativa e passiva da BE&SK (escreverei um artigo em breve falando sobre isso), e ajuda as empresas a entenderem o porquê os estudos de McKinsey, Forbes, Wipro, Gartner, mostram que mais de 70% dos processos de transformação digitais não funcionam.

Todo processo de transformação, seja tecnológico, de negócio, comportamental, sempre começa e termina no ser-humano, organizações e negócios só existem por e para o ser-humano, pensar de forma diferente é atuar contra si mesmo.

E neste caso, termino como comecei.

Sinceramente eu não entendo…

Imagem: Pixabay

Dessingularizando a Singularidade

Este artigo foi publicado: no dia 17/08/2019 no ITForum365 e no dia 20/08/2019 em minha coluna no portal R7 e no portal Inova360.

 

Todo modelo, com o tempo, se deteriora e se distancia de seu propósito inicial

Um bom dia 4.0 pra você!

Você quer um café disruptivo ou exponencial?

As frases acima pareceram estúpidas? Pois é, você tem razão, elas são mesmo.

Você achou que elas te fizeram perder tempo?

É assim que eu me sinto quando leio a quantidade de bobagens e modismos que as pessoas seguem sem saber porque o estão fazendo.

Vivemos em uma era rodeados de tecnologias e modelos de negócios disruptivos e exponenciais, e segundo especialistas, isso nos levará a singularidade.

O conceito da singularidade foi emprestado da física, ele é usado para descrever fenômenos tão extremos que as equações não são capazes de descrever e levam as leis da física ao absurdo. Talvez o exemplo mais significativo que ilustre este fenômeno seja o buraco negro.

Peter H. Diamandis, vendo como se comportavam as tecnologias e startups no Vale do Silício, com crescimentos exponenciais criou a Singularity University, uma das mais prestigiosas escolas de inovação do mundo atualmente.

Por lá passam muitos gurus, dando palestras e cursos imersivos para milhares de pessoas de todo o mundo, onde transmitem que entre 2010 e 2140 a humanidade será levada a um estágio de singularidade, onde as tecnologias evoluem cada vez mais aceleradamente, se integram uma com as outras, causam impacto e transformam rapidamente a realidade. Segundo os especialistas, não é possível prever o que acontecerá ao chegarmos no momento da singularidade.

Baseado nos princípios da singularidade, tomando a previsão dos gurus como certa e inevitável, desenvolvemos um modelo de negócio tão absurdo como a própria singularidade. Acredito que a nossa forma de atuar nos levará ao caos muito antes que a singularidade em si. Seremos capazes de gerar o nosso próprio buraco negro pela quantidade de bobagens que fazemos sem perceber, somente por seguir a corrente.

Não estou dizendo com isso que não devemos ser conscientes da exponencialidade dos negócios e das tecnologias. Muito menos que fechemos os olhos à nova realidade, positiva e negativa, que elas nos proporcionam.

O que digo é que busquemos o equilíbrio. Alguém falou, seja quem for, que este é o caminho, todos vamos como cordeirinhos sem questionar.

Querem exemplos?

Estamos orientando os jovens as construírem startups sob o mantra de que uma empresa deve curar a “dor do cliente”. Isso significa que se uma empresa vive de curar a dor do cliente, o que ela deseja com todas as suas forças quando se levanta pelas manhãs?

Que o cliente tenha dor! E se ele não tem? Nós criamos!

Chamamos o departamento de marketing e criamos uma campanha para gerar dor no cliente, porque disso vivemos, de curar a dor que, em muitos casos, nós mesmos causamos. Por exemplo, na Tecno-Humanização, isso não é aceitável.  Uma empresa deve aliviar a dor do cliente, mas deve existir para curar a causa da dor, isso é muito mais consciente e humanizado.

Outro ponto que me chama a atenção é o modismo com o qual eu comecei o artigo, a indústria 4.0. Todo mundo fala disso o tempo todo, o que por um lado é bom, mas quando vejo os dados do estudo Indústria 2027 feito pela CNI (Confederação Nacional da Indústria), a MEI e o Instituto Euvaldo Lodi que mostram que somente 1,7% das indústrias atuam no padrão 4.0, e que não existe a intenção de 21% dos empresários atuarem neste padrão nos próximos 10 anos (o que é uma eternidade). Então eu me pergunto, será que as empresas estão falando de indústria 4.0 porque tem real interesse em adotá-los ou querem parecer que estão atualizadas, mas continuam fazendo o mesmo?

Tem muita gente que confunde agilidade e aceleração com pressa.

Exigimos que tudo seja urgente, com a desculpa da exponencialidade, mas nós mesmos não somos. Estamos adestrando, infelizmente é essa palavra,  jovens empreendedores a construírem pitches de 3 minutos para explicarem o seu modelo de negócio. E sabem por quê?

Porque alguém disse que é o tempo que um investidor (que se chama de anjo) está disposto a dedicar do seu precioso tempo para ouvir o que um jovem tem a dizer, e baseado nestes 180 segundos, decidir se compra o seu sonho ou não.

É obvio que quando estamos diante da oportunidade de apresentar nosso negócio a um investidor, não podemos ser prolixos. A capacidade de síntese é uma característica de pessoas que se comunicam bem, se expressam bem e normalmente são eficientes. Todas elas são competências muito valorizadas no mundo dos negócios e na vida. Mas os cursos de empreendedorismo não ensinam isso, simplesmente exigem que o pitch tenha 3 minutos, porque “é assim que se faz no Vale do Silício”. “Mentores” de empreendedorismo mandam seus mentorados fazerem cursos com fonoaudiólogo e aprenderem a respirar.

Isso é absurdo e chega ser cruel, mas a máquina de moer de carne que criamos é assim. Com o objetivo de colocar um pouco de bom-senso neste processo de aceleração desmedido, existem alguns movimentos que surgiram nos EUA e muitas startups começam a rejeitar o modelo de crescimento acelerado.

Isso está crescendo tão rápido (de forma acelerada e exponencial) que a Zebras Unite já tem 40 filiais e 1.200 membros em todo o mundo. Este crescimento chamou a atenção dos investidores e já tem algumas Venture Capitals oferecendo um modelo de crescimento e remuneração menos agressivo.

Tem muita gente que confunde agilidade e aceleração com pressa.

São coisas muito diferentes, e ao crescer com pressa deixamos coisas pelo caminho, aprendizados, ajustes no produto e no negócio. Outro dia vi uma entrevista do Oswaldo Montenegro que dizia que se arrepende de algumas coisas em sua carreira, e uma delas é que, pela sua ansiedade patológica, ter feito algumas coisas com pressa e não ter dado o acabamento que aquilo merecia.

Será que não é possível correr para acompanhar o ritmo global sem atropelar?

Eu acho que sim.

Por certo, há 4 parágrafos atrás, eu teria terminado meu tempo de apresentação a um investidor anjo.

Imagem: Pixabay

Fique atento: as tecnologias analógicas também vão impactar a sua vida

Este artigo foi publicado no dia 06/08/2019 em minha coluna no portal R7 e no portal Inova360.

 

Limitar-se às tecnologias digitais é se expor à riscos ou desperdiçar as oportunidades das tecnologias analógicas

Muitas empresas me consultam e me pedem ajuda para seus processos de transformação digital e quando eu pergunto se estão considerando também as tecnologias analógicas, tanto em seus processos de transformação digital ativa como passiva, todos me olham com estranhamento e espanto.

Se estou acompanhado por alguém da minha equipe, já se espera por esse momento, para ver a reação do cliente.

Nas palestras acontece o mesmo e provavelmente você, ao ler este artigo, também esteja curioso. Afinal, falar de tecnologias analógicas em pleno século 21, na era da Inteligência Artificial, chama bastante a atenção.

Muita gente tem cometido alguns erros de conceito, o primeiro é pensar que a tecnologia é o centro deste processo de transformação. Esta afirmação não é 100% correta e falaremos disso em outro artigo, porém um erro mais grave tem sido cometido, induzido pela indústria de tecnologia.

Quando falamos em transformação digital, nos referimos apenas a tecnologias digitais.

O processo de transformação digital se estrutura normalmente em três pilares:

1- Experiência do cliente

2- Otimização de processos

3- Infraestrutura

E, em alguns casos, existem empresas que começam a se preocupar por um 4º pilar, a cultura organizacional, mas ainda não sabe muito bem como integrar com os outros três.

É comum as empresas se concentrarem em dezenas de tecnologias para realizar sua transformação digital ativa (Leia o artigo “Sinto muito, mas a transformação digital não vai salvar a sua empresa” para entender a diferença entre transformação digital ativa e passiva).

Elas mergulham em um emaranhado de dezenas de tecnologias, suas características técnicas, seus diferencias de linguagens, interfaces, protocolos e como integrá-las à infraestrutura existente.

Se não bastasse a parte técnica, elas avaliam uma quantidade enorme de fatores, como espaço, consumo, capacidade de crescimento, escalabilidade, modelo de compra, aluguel, pago por uso, entre outros.

E com tanta tecnologia e projetos, podem passar toda a vida neste circuito.

Do pó de piscina às carnes de laboratório

Como sempre, para que não seja algo abstrato eu vou dar alguns exemplos.

Podemos falar sobre um pó que a BE&SK está trazendo para o Brasil, que ao ser colocado na piscina, muda a densidade da água, evita afogamentos e consequentemente elimina o uso de boias.

Um pó não é digital, mas vai impactar a indústria que fabrica boias, matéria prima (plástico) e demais insumos e toda a cadeia desta indústria.

Ou um ar condicionado portátil, lançado pela Sony, e que pode ser colocado na roupa. É do tamanho de uma bateria extra de celular, é analógico, mas se cumprir o seu papel, pode revolucionar o mercado de ar-condicionado residencial e inclusive centralizados, individualizando o controle da climatização.

Isto impacta, em primeira instância, os fabricantes de ar-condicionado e a profissão de instalador. Os impactos secundários são as empresas elétricas, os fabricantes de ferramentas, de dutos, material de construção, escolas profissionalizantes de instaladores, e uma longa lista.

Estes impactos podem ser analisados na ferramenta de análise de impacto da tecnologia da Tecno-Humanização, da BE&SK.

Porém, a tecnologia analógica que tem chamado mais a atenção nos últimos anos são as carnes de laboratório.

Na última década foram investidos mais de 18 bilhões de dólares em projetos de carnes de laboratório, alguns deles já estão no mercado.

A maioria são carnes baseadas em vegetais.

O Impossible Burguer, por exemplo, já captou mais de USD 750 milhões, está em centenas de hamburguerias americanas e recentemente fechou um contrato com o Burguer King para incluir no menu um lanche com o Impossible Burguer.

O Beyond Burguer, seu maior concorrente, em seu mais recente IPO superou o valor de mercado de USD 1 bilhão se convertendo em um unicórnio (startup com valor de mercado superior a 1 bi).

A Nestlé lançou na Europa o Awesome Burger e estima lançar nos Estados Unidos em outubro deste ano.

São hambúrgueres que têm textura de carne, cheiro de carne, gosto de carne, se pode dar o ponto de carne (bem, ao ponto e malpassado), porém não é de carne.

No Brasil temos o Futuro Burger, a marca que, ainda distante, mais se aproxima dos exemplos acima.

Em outra linha de pesquisa, na Holanda, temos a Mosa Meat que, a partir de uma fibra de músculo bovino, extrai a célula tronco e em poucas semanas tem um hambúrguer de laboratório.

São muitos os motivos que levam este produto a ser uma das estrelas do mercado de proteína, como o aumento da população mundial, sustentabilidade (água, terra, efeito estufa), mudança comportamental, preocupação com bem-estar animal, aumento de movimentos vegetariano e vegano.

O importante aqui é que este tipo de tecnologia vai impactar (e muito) os produtores de gado, transporte, mercado veterinário, vacinas, seguros, frigoríficos etc.

Agora faço uma pergunta.

Um pó para piscina, um ar-condicionado portátil e um hambúrguer são digitais?

Ser consciente disso pode trazer muitos benefícios, por exemplo, se você começar a cultivar as plantas para o hambúrguer pode ser uma grande oportunidade, por outro lado, desconhecer ou ignorar as tecnologias analógicas pode representar o fim do seu negócio.

Veja um exemplo de uma tecnologia analógica no canal observatório BE&SK.

Imagem: Pixabay

Crescimento vs. Desenvolvimento: digitalizar o jogo acelera o colapso

Este artigo foi publicado no dia 30/07/2019 em minha coluna no portal portal R7 e no portal Inova360.

 

A transformação digital é nociva não pela tecnologia em si, mas porque parte de uma premissa equivocada e perversa

O que me motivou a escrever este texto foi o artigo da semana passada, no qual dei a minha visão sobre as prioridades dos CEOs a respeito da inovação. O fato de que a principal prioridade seja o crescimento ficou martelando em minha cabeça.

Basta olhar à nossa volta e ver como é nociva a busca pelo crescimento ilimitado. Para sermos capazes de analisar este cenário, é importante entendermos as diferenças entre crescimento e desenvolvimento.

Enquanto o crescimento está relacionado a indicadores quantitativos, o desenvolvimento é muito mais amplo e qualitativo. Ele representa a aplicação da riqueza gerada pelo crescimento, a forma que é transformada em educação, saúde, cultura e qualidade de vida.

No caso do setor público, o crescimento de um país é medido pelo PIB (Produto Interno Bruto), ou seja, representa a soma, em valores monetários, de todos os bens e serviços finais produzidos pelo país.

Vamos analisar somente o ponto de vista de crescimento, tomando a China como exemplo. Se ela continuar crescendo como cresceu na última década, teríamos duas Chinas antes de 2030. O problema é que não cabem duas Chinas no planeta, não haveria clientes para duas produções chinesas.

Sem contar que, para a produção chinesa crescer a este ritmo seria necessário canibalizar e transferir a produção de outro país para a China, o que gera desemprego local, e todas as consequências negativas associadas.

Óbvio que não podemos manter as produções locais por imposição, temos que buscar melhorar a competitividade do país, mas isso é assunto para outro artigo.

No caso das empresas, os indicadores de crescimento são faturamento e lucro, e qual o caminho que as empresas encontraram para crescer?

A transformação digital!

Aplicar tecnologia para reduzir custos, otimizar processos, melhorar experiência do cliente, aumentar o alcance geográfico e as vendas.

Essa transformação digital só acelera o colapso econômico e social e não pela tecnologia por si só, mas porque parte de uma premissa equivocada e perversa.

É nossa obrigação buscar desenvolvimento, criar organizações Tecno-Humanizadas, que aplicam tecnologia para transformar seus produtos, serviços e modelos de negócios em operações rentáveis e humanizadas.

Claro que as empresas devem crescer, vender mais, otimizar custos e recursos, negociar com seus fornecedores, competir, e ganhar dinheiro.

Isso se chama boa gestão e a sobrevivência da empresa depende disso. A questão é que não podemos buscar o crescimento a qualquer custo.

Ao trocar crescimento por desenvolvimento, inevitavelmente a empresa promove o desenvolvimento de tudo e todos à sua volta de forma harmônica e sustentável ao longo do tempo.

Para que isso não seja apenas uma declaração de boas intenções, vamos mostrar a diferença entre um modelo de negócio de uma empresa de sapatos que busca crescimento e outra desenvolvimento.

Uma empresa de sapatos, para crescer da forma tradicional, busca reduzir o custo da matéria prima, de mão de obra, de produção, e aumentar as vendas.

Para reduzir os custos de matéria prima, é comum não se preocupar com a origem ou seu processo produtivo. Para reduzir o custo de produção e mão de obra há dois caminhos, ou automatizar a produção o máximo que puder ou levar a produção para China (exemplo que ilustra o que comentei sobre canibalização e transferência de produção).

Utiliza-se de tecnologias de IoT, Big Data, Analytics e IA para mapear os hábitos de consumo dos clientes e criar campanhas de marketing para gerar demanda. Aplica-se gatilhos mentais para induzir o consumismo e compras por impulso, mesmo sabendo que talvez os clientes não precisem do produto naquele momento. Isso é transformação digital aplicada ao crescimento.

Porém, se a empresa utiliza materiais reciclados ou sustentáveis, tanto no sapato como na embalagem, ela se preocupa pela origem da matéria prima e que o processo produtivo seja sustentável, humanizado e justo.

Se a empresa trabalha com conceito de co-criação (inovação colaborativa) para criar novas estampas, parte da produção é feita por uma fábrica nacional, outra parte é feita por células produtivas formadas por mulheres em situação de vulnerabilidade, que participam de um ONG e receberam maquinaria e treinamento para trabalhar.

A empresa não se aproveita da situação laboral desfavorável destas mulheres, muito pelo contrário, paga salários justos acima da média do mercado. Não se trata de assistencialismo, a empresa oferece dignidade através do trabalho.

Parece um modelo de negócio dos sonhos?

Pois é, ele existe, a empresa é brasileira e se chama Linking DOTZ.

Esse modelo também precisa das mesmas ferramentas e tecnologias que o anterior, ou seja, Big Data, Analytics, IA, marketing digital, etc. A diferença é que quando essa empresa cresce todos crescem à sua volta e isso é desenvolvimento.

Veja o case no canal observatório BE&SK.

Imagem: Pixabay

Inovações com (e sem) propósito

Este artigo foi publicado no dia 23/07/2019 em minha coluna no portal portal R7 e no portal Inova360.

 

Nunca tivemos tantas oportunidades de construir empresas rentáveis e uma sociedade melhor por meio da inovação

Há dois anos eu assisti uma palestra, onde havia um slide mostrando que, segundo a McKinsey, 85% dos CEOs consideravam que seus modelos de negócio estavam em risco e somente 8% mostravam-se satisfeitos com seus processos de inovação.

Em dois anos, muita coisa aconteceu, temos mais tecnologia que nunca, recursos, metodologia, conhecimentos e muita necessidade em todos os âmbitos da sociedade e dos negócios, portanto, todos os ingredientes para inovar.

Porém, há algumas semanas, para minha surpresa, me deparo com este gráfico abaixo extraído dos resultados do Gartner Survey 2019.

Os altos executivos continuam pensando em crescimento, porém não priorizam a inovação.

Crescer sem inovar, só tem um caminho, maximizar receita canibalizando market share do concorrente, e muitas vezes penalizando a rentabilidade para isso, e reduzindo custo, seja via reestruturação, otimização de processos e aplicando tecnologia que substitui mão-de-obra não criativa.

Há três problemas aqui, primeiro pensar em crescimento e não em desenvolvimento. É muito diferente uma coisa da outra e publicarei um artigo sobre isso na próxima semana. O segundo problema é que o caminho de “fazer mais com menos” está esgotado. Não me refiro às empresas mal administradas, que ainda tem caminho por percorrer neste aspecto, falo em nome dos profissionais que já não aguentam mais este modelo. Este tipo de ação é um verdadeiro espanta talentos, porque está baseado na pressão desmedida e no crescimento soma zero que, para um ganhar, o outro tem que perder. O terceiro e preocupante ponto está na baixa prioridade da inovação.

Ainda temos muitos empresários que pensam que inovar é para grandes empresas, para multinacionais ou que são necessários investimentos milionários. No outro extremo, tem os que pensam que basta montar uma sala colorida, puffs, mesas de ping pong, liberar o dress code e flexibilizar os horários.

Outro dia me deparei com um diretor de marketing de uma grande empresa que buscava um palestrante para um evento que estavam organizando e o requisito básico era que o palestrante tivesse feito algum curso na Singularity, como se isso fosse garantia de conhecimento em inovação.

Óbvio que a Singularity é uma referência e seus cursos são ótimos, porém não o são por si só. Neste caso, a visão era tão pobre que não importava o conteúdo, bastava dizer que esteve lá.

Inovações pouco úteis

Deixando as que não inovam e as que só se preocupam em aparentar que são inovadoras sem ser, por incrível que pareça, há um grupo pior ainda. O grupo das empresas que gastam mal os recursos e inovam sem nenhum propósito.

Outro dia eu me deparei com um post, em uma rede social, onde estavam comentando o incrível que era umas cadeiras que possuíam motores nas rodas, vários sensores, e tudo isso para que?

Para que, quando acabasse o expediente no escritório ou a reunião, bastasse bater palma e as cadeiras voltariam ao seu lugar.

O que a empresa ganharia com isso? Economizar o salário da pessoa que arruma as cadeiras? Como empresa e como sociedade, não seria melhor dedicar o esforço em educar as pessoas para cada uma colocar a sua cadeira no lugar e investir este dinheiro e tecnologia em melhorar a qualidade de vida de pessoas sem mobilidade? Este é um claro exemplo de inovação sem propósito.

Ainda bem que eu pesquisei e descobri que as cadeiras foram lançadas pela Nissam (sim, a dos carros) e se trata apenas de uma campanha publicitária para mostrar e testar o seu sistema de estacionamento automático. Outro ponto negativo para a pessoa que postou a informação. Além elogiar uma tecnologia absurda, em minha opinião, não checou a fonte, pois não se tratava de um produto comercial real.

Mas as reflexões feitas anteriormente continuam sendo válidas. Eu trouxe esse exemplo por não se tratar de um produto real (não quero ofender nenhum produto mesmo que ao meu modo de ver seja inútil), eu só quero mostrar como empresas desaproveitam a tecnologia com inovações pouco úteis.

Olhar diferente para o que nos rodeia

Para nossa sorte, a imensa maioria de startups que surgem buscam, por meio da inovação, construir um mundo melhor, e suas inovações passam a ser seu diferencial competitivo.

Inovar não depende exclusivamente de tecnologia ou grandes investimentos, basta ter um olhar diferente para as coisas que nos rodeiam e buscar soluções, de produtos, serviços ou modelos de negócios diferentes.

Vemos empresas como a Bananatex, que criou o primeiro tecido durável do mundo feito com folha da bananeira e impermeável com cera de abelha (assista o vídeo ao final do artigo).

A Function X, que anunciou que lançará no final de 2019 o primeiro celular P2P baseado em blockchain. Isso elimina totalmente as operadoras e garante a segurança da informação.

Sim, estas tecnologias precisaram de altos investimentos, porém, por outro lado temos exemplos onde inovar não está relacionado com investimento e sim com um olhar diferente e desejo de construir um mundo melhor.

Podemos citar a Zerezes, empresa brasileira que fabrica armação de óculos com materiais reciclados, e o carro chefe são as armações de madeira, ou ainda a Fruta Imperfeita, que vende cestas de frutas e legumes imperfeitos na estética, porém perfeitos de sabores. Estas frutas e legumes seriam descartados para o consumo, apodreciam e seriam jogados fora.

O denominador comum destas empresas é a geração de competitividade e rentabilidade com impactos positivos, tanto social como de meio ambiente

Inovação não faz sentido se não for para gerar abundância e inclusão social.

Assista o video do canal observatório BE&SK.

Imagem: Pixabay

Concorrentes vêm de outras áreas e foco setorial o deixa vulnerável

Este artigo foi publicado no dia 02/07/2019 em minha coluna no portal R7 e no portal Inova360.

 

Na transformação tecnológica, pensar que o concorrente é outra empresa do mesmo setor pode matar seu negócio

Durante muito tempo o concorrente de uma empresa era outra empresa que fazia o mesmo que ela. Essa realidade começou a mudar quando os concorrentes saíram do bairro e passaram a ser empresas no mesmo estado, país e por fim, em qualquer parte do planeta. Porém, os novos concorrentes continuaram sendo empresas do mesmo setor e que vendiam produtos similares.

Com os concorrentes identificados e com o conhecimento do setor de atuação, a gestão se concentrava em controlar ou reduzir os custos, despesas e maximizar as receitas. Muitos setores da economia, para não dizer a maioria, também tinham a proteção de regulamentações específicas, associações, sindicatos e conselhos regionais, que protegiam as empresas e os profissionais liberais – não estou dizendo que seja bom ou ruim, somente constatando.

Agora, essas premissas, amplamente conhecidas, dominadas e ensinadas nas escolas de negócio, em que qualquer profissional de mais de 30 anos estudou, caíram por terra.

Há pouco mais de uma década, a tecnologia começou a trazer concorrentes de fora do setor, que não possuem a mesma estrutura de custo, nem seguem as mesmas regras.

Por exemplo, o concorrente de uma empresa aérea era outra empresa aérea. Quando subia o petróleo, impactava as duas. Quando subia o dólar, impactava as duas. Quando a ANAC mudava alguma regra, impacta as duas. Portanto, o desafio era controlar os custos e aumentar as receitas.

Há pouco mais de dez anos, esta realidade mudou. Além de outra empresa aérea, a tecnologia trouxe como novo concorrente das empresas aéreas a videoconferência. Quando sobe o petróleo, continua impactando a empresa aérea, mas a empresa de videoconferência? Nada. Por isso as companhias de aviação sofreram um impacto enorme e muitas tiveram que passar por fortes reestruturações ou realizar fusões para sobreviver.

Este tipo de situação traz um novo desafio às empresas. Como competir em um cenário onde o seu concorrente não tem as mesmas regras que você?

A realidade atual é que este tipo de situação está acontecendo e vai acontecer mais e mais rápido. Para não ficar somente em um exemplo antigo, temos a Apple que, há um mês, lançou um cartão de crédito, portanto temos uma empresa de tecnologia competindo com bancos (por certo, um setor regulado). Por outro lado, os bancos começam a competir com coworking. O coworking com as imobiliárias. E por aí vai.

Estas transformações estão acontecendo, independente de nossa vontade, e o maior perigo é não ser consciente ou não entender todo este processo. Frequentemente, me encontro com empresários que dizem que suas empresas passam por um momento de dificuldade pela crise econômica, pela política ou por culpa da tecnologia que está matando seu negócio. Provavelmente cada um destes fatores tenha sua parcela de responsabilidade, mas o processo de transformação é mais amplo.

Diante deste novo cenário, muito mais complexo e dinâmico, temos diferentes agentes que podem impactar a empresa de forma diferente. A transformação digital passiva, por exemplo, que vimos no artigo da semana anterior. Outro ponto são produtos, serviços ou modelos negócio, do mesmo setor da empresa ou não, que podem impactar a empresa.

Antes era menos complexo, bastava frequentar as feiras e congressos do setor em que a empresa atuava e pronto. Hoje continua sendo importante, porém já não é suficiente.

O timing na identificação deste tipo de situação é fundamental e pode significar uma grande oportunidade para a empresa crescer ou uma grande ameaça capaz de levá-la à falência.

Se aprender a ler este movimento de transformação e saber se posicionar é tão importante, a pergunta é, como fazê-lo? A imensa maioria das empresas não é consciente disso e as que são não têm uma metodologia formal para fazer este tipo de pesquisa.

Partindo desse desafio, criamos o conceito do observatório, que, primeiramente mostra que os concorrentes podem vir de fora do setor e, depois, treina o olhar da empresa para identificar essas tecnologias ou modelos de negócio que possam impactar a empresa. Após identificar as tecnologias ou modelos de negócio, é importante saber analisar o impacto da tecnologia para a sociedade, para a empresa e para os clientes.

Sabemos que os grandes riscos e as grandes oportunidades não estão na tecnologia em si, mas sim em seu impacto.

Por isso aplicamos o modelo de análise de impacto de tecnologia; tanto o observatório como o modelo de análise de impacto da tecnologia fazem parte da jornada de transformação tecnológica tecno-humanizada, uma metodologia que une tecnologia, negócios e mudança de mentalidade (mindset) para transformar empresas em organizações rentáveis e conscientes.

Assista o video do canal observatório BE&SK.

Imagem: Pixabay

Sinto muito, mas a transformação digital não vai salvar a sua empresa

Este artigo foi publicado no dia 25/06/2019 em minha coluna no portal R7 e no portal Inova360.

 

Estima-se que 70% dos processos de transformação digital falham e que US$ 900 milhões dos US$ 1,3 bi gastos com tais processos no ano passado foram desperdiçados

As empresas, impulsionadas pelo glamour da digitalização, pressionadas pela indústria tecnológica e pela obrigatoriedade do crescimento ilimitado, e porque não dizer, para satisfazer o ego e querer ser Tony Stark por um dia, acreditaram ou fingiram acreditar que o processo de transformação digital se trata de tecnologia.

A indústria da tecnologia, fabricantes, consultores e integradores dizem que transformação digital é o processo pelo qual as empresas fazem uso da tecnologia digital para reduzir custos, melhorar a produtividade, competitividade, rentabilidade e aumentar o alcance de suas atividades.Algumas empresas acrescentam que o processo de transformação digital exige mudanças fundamentais de tecnologia, cultura, operações e até o desgastado e quase sempre mal aplicado conceito de entrega de valor.

A primeira é uma visão acadêmica e simplista, a segunda, está tão recheada de boas intenções quanto vazia de conteúdo, já que as empresas de tecnologia pregam algo que não entregam (e não podem entregar porque não é sua função).

Vamos nos concentrar na primeira definição e analisar algumas lacunas que consideramos importantes.

Considerar somente tecnologia digital e ignorar as tecnologias analógicas é um erro grave. Existem muitas tecnologias analógicas que vão impactar muitos setores, empresas, negócios e pessoas.

Considerar que a tecnologia é o centro deste processo de transformação é ingênuo. Tudo começa e termina no ser-humano, sempre. A tecnologia é meio e não um fim, e como tal deve ser considerada.

Outro erro: concentrar-se na tecnologia e não em seu impacto. As oportunidades e as ameaças de um processo de transformação digital não estão na tecnologia em si, mas em seu impacto.

Ignorar que o concorrente de uma empresa, há muito tempo, não é outra empresa igual a ela. A Apple lançou cartão de crédito e vai concorrer com os bancos, os bancos estão lançando coworking, empresas de delivery estão fazendo saques de dinheiro a domicílio, assim como dezenas de exemplos.

Considerar, em um mundo líquido, que o core business das empresas é fixo e imutável é assinar a sentença de morte.

Não ser consciente do impacto que a transformação digital da empresa gera na sociedade (transformação digital ativa) e pior ainda, não ser consciente de como o impacto gerado pela transformação digital dos outros (transformação digital passiva) afeta a empresa.

O conceito de transformação digital ativa e passiva foi criado pela BE&SK recentemente e ainda não há um estudo sobre seu impacto, porém se eu tivesse que arriscar uma porcentagem, acredito que podemos aplicar o princípio de Pareto, ou seja, 20% se refere ao impacto da transformação digital que a empresa faz e 80% ao impacto que ela recebe pela transformação digital de outros.

Os 20% já são baixos, porém, ao deixar as tecnologias analógicas e as pessoas (cultura organizacional) de fora, reduzimos ainda mais a área de atuação.

Desta forma, é impossível que o processo de transformação digital funcione e atenda às necessidades da empresa.

Porém, quando colocamos as pessoas no centro e aplicamos uma metodologia que cobre todas estas lacunas, quase sempre somos levados a uma transformação de produto, serviço, modelo de negócio ou até da empresa em si.

Então a empresa passa para um segundo estágio, reinventar-se, e este processo pode até significar matar o negócio atual e criar outro.

Mas a pergunta que surge é: os empresários estão preparados para matar seus próprios negócios para criar outros?

Tudo bem, essa seria uma situação extrema, mas vamos supor que não seja necessária uma transformação tão radical a ponto de matar o negócio e basta com transformar o modelo de negócio, os modelos de gestão e ferramentas de análise e planejamento tradicionais que já não são atendam a realidade atual.

O modelo de capitalismo tradicional, baseado no conceito de que o único objetivo de uma empresa é gerar lucro para o acionista e o resto é função do estado, já não funciona.

Acredito que ninguém está satisfeito com o modelo de sociedade que construímos e, ao menos no meu caso, não é a sociedade que eu quero deixar para os meus filhos.

Para isso precisamos transformar as empresas em organizações rentáveis e humanizadas baseadas em conceitos de capitalismo consciente e sistema de gestão de triple bottom line, ou seja, que mede o impacto financeiro, impacto social e o impacto no meio ambiente do negócio. Por favor, não pensem que isso pode ser substituído por certificações ISO, Six Sigma, etc. Estamos falando de algo muito mais real, profundo e efetivo.

Para ter uma empresa humanizada, é preciso trabalhar diferentes direcionadores de negócio, como propósito, humanização e cultura organizacional (nada mais e nada menos).

Os processos de transformação digital que funcionaram trabalharam o mindset das pessoas, definição de propósito, provocaram uma mudança comportamental e de cultura da empresa, mudaram o modelo de negócio e aplicaram a tecnologia para viabilizar tudo isso.

É essa transformação no sistema, como um todo, que a Tecno-Humanização das organizações propõe. Estamos falando de um framework, de uma metodologia que abrange Technology, Business & Mindset Transformation, unindo tecnologia e pessoas para transformar empresas em organizações rentáveis e conscientes.

Assista o video do observatório BE&SK e veja um exemplo de uma tecnologia/inovação baseada em triple bottom line.

Imagem: Pixabay

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