O que o meu filho vai ser quando crescer?

Este artigo foi publicado: no dia 12/11/2019 na minha coluna no R7 e no portal Inova360.

 

O futuro das profissões tem sido motivo de grandes debates, e não é para menos

O que você vai ser quando crescer?

Com o intuito de ser simpático e por não saber o que falar, esta é uma pergunta tão recorrente como chata às crianças.

Tenho um filho e já vi muita gente perguntar isso a ele.

Até os 9 anos a resposta era jogador de futebol, depois passou a ser youtuber, mas recentemente ouvi algo que me surpreendeu, ele, com apenas 11 anos respondeu:

Não sei, e não tem como saber ainda, provavelmente eu tenha uma profissão que ainda não foi inventada”.

Embora ele tenha toda razão não é uma resposta comum para uma criança, mas talvez o fato dele me ver e ouvir preparar conteúdos, livro, artigos, palestras, o tenha dado alguma vantagem sobre outras crianças da mesma idade.

Sobre a resposta do meu filho, não há nenhuma dúvida, é exatamente assim. Haverá um número imenso de novas profissões nos próximos anos e muitas das profissões atuais desaparecerão, se não completamente, ao menos da forma como as conhecemos hoje.

Porém, a divergência ocorre quando tentamos quantificar isso, porque, dependendo a fonte que divulga a previsão, a porcentagem de profissões que existirão no futuro e ainda não foram inventadas variam de 60% a 85% e o ano entre 2030 e 2040.

De todas formas, o dado em si não é relevante, e sim o fato de que estamos diante de uma transformação brutal no mercado de trabalho.

Sempre tivemos este tipo de mudança, desapareceram o técnico de máquina de escrever, telefonistas, ascensoristas e surgiram os programadores, web designers e os cientista de dados. O assombro não é pela desaparição ou surgimento de novas profissões, porque isso sempre aconteceu, a questão é a velocidade com que isso está acontecendo e com que ainda vai acontecer nos próximos 30 anos. Serão centenas ou milhares e isso traz consigo diversos questionamentos que ainda não temos resposta e outros que temos a resposta, mas não temos a solução.

O primeiro é que o sistema educativo, os cursos técnicos e as universidades não estão preparadas. A maioria das universidades hoje, em todos os cursos de graduação, ensinam história.

Surge, na verdade aumenta e se acentua, o conceito de multidisciplinaridade – novas profissões que são produto da fusão de profissões atuais. Como exemplo podemos citar o advogado e o engenheiro de segurança digital, que alguns cursos estão fusionando para criar o profissional de direito digital, ou o engenheiro eletrônico que aprende um pouco de medicina (ou vice-versa) para poder desenvolver equipamentos médicos.

Novas profissões como consultor de aposentadoria, analista digital post mortem, gestor de resíduo ou designer de inovação, serão importantes.

De todas formas, é um exercício complexo tentar adivinhar as profissões do futuro, além de nos trazer poucos benefícios. Talvez, o mais inteligente a fazer seja abstrair-se das profissões e concentrarmos nossa atenção nas características fundamentais dos profissionais, independentemente da profissão.

Como pai e como gestor, é nisso que eu estou me concentrando.

Os hard skills, ou seja, o conhecimento formal e técnico sobre uma determinada área, meu filho aprenderá na escola, na internet ou na faculdade (se ela mudar até lá) ou em cursos específicos.

Há alguns anos os profissionais de RH falam em soft skills, e realmente eles são fundamentais e marcam a diferença no desenvolvimento da carreira profissional. Competências como relacionamento interpessoal, comunicação, negociação, produtividade pessoal, e uma longa lista, tem muito mais peso e relevância ao longo da vida profissional do que o conhecimento técnico.

Um bom profissional é formado por hard e soft skills, porém a Tecno-Humanização vai além do profissional e pensa no ser humano de forma integral, criando, assim, o conceito de deep skill.

E por que a Tecno-Humanização se preocupa com isso?

No artigo Empresas humanizadas são mais profissionais, vimos que uma empresa não contrata um profissional, e sim um ser humano.

No livro da Tecno-Humanização descrevemos este conceito em profundidade, porém, podemos trazer alguns pontos que são relevantes para este artigo.

A autoestima, autoconfiança, compaixão, entusiasmo, ética, entre outros, são características fundamentais para qualquer ser humano e, independente da profissão, vitais para as empresas.

Toda empresa, de qualquer setor ou tamanho, hoje depende de inovação. Algum profissional é capaz de inovar sem autoestima e autoconfiança?

O número de empresas humanizadas está crescendo e a necessidade de empresas humanizadas é enorme. Porém, não é possível uma cultura organizacional humanizada sem compaixão.

Profissionais liberais colaborando através de ecossistemas produtivos, baseados em economia colaborativa, tem aumentado e tem se tornado uma tendência. Como empreendedor posso dizer, este modelo não é sustentável sem resiliência e muito entusiasmo.

E, após ver o show de horrores de escândalos e corrupção em nossa sociedade, não há dúvidas que a ética é um valor muito apreciado. As empresas pensam em governança e a Tecno-Humanização vai além, ao dizer que é necessário governança + ética, como descrevemos no artigo Governança não garante ética.

Portanto, é obvio que temos que nos preocupar com o futuro do trabalho dos nossos filhos.

Robôs, Inteligência Artificial vão destruir postos de trabalho repetitivos e não criativos? Sim.

O setor de tecnologia vai criar oportunidades e postos de trabalho? Sim.

A quantidade de postos de trabalho criado será menor que os postos destruídos? Sim.

Temos que acompanhar de perto a evolução do futuro das profissões? Claro!

Os pais e as escolas sempre prepararam as novas gerações para um futuro que seria uma evolução da versão anterior. Desta vez é diferente. Pela primeira vez, estamos preparando uma geração para construir um futuro que não temos a menor ideia de como será.

A única certeza é que não se parecerá em nada ao nosso presente.

Por isso, eu me senti muito orgulhoso da resposta do meu filho, mas se me perguntarem o que eu quero que o meu filho seja quando crescer, a minha resposta será:

Honesto, honrado, entusiasta, compassivo, autoconfiante e ético.

Ah! Querem saber a profissão?

Sei lá…

 

Imagem: Freepik

Como medir o ROI da humanização em tempo de transformação digital?

Este artigo foi publicado: no dia 12/11/2019 na minha coluna no R7 e no portal Inova360.

 

Precisamos rever os conceitos de ativos intangíveis na era do propósito

É possível medir o retorno de um abraço, da sinergia ou do propósito?

Não há dúvidas de que para gerir um negócio é preciso quantificar as ações e os investimentos.

E a necessidade de controlar os recursos e otimizar os resultados das últimas décadas gerou uma cultura de quantificação de qualquer ação ou investimento realizados pela empresa.

Na década de 70 Gartner criou o conceito de ROI1 (Return on Investment) que, traduzindo para o português, significa Retorno sobre o Investimento.

Outro indicador de gestão muito utilizado é o Payback, porque, tão importante quanto saber qual é o retorno sobre o investimento, é saber em quanto tempo eu vou recuperar os recursos investidos.

Em uma empresa bem administrada não se faz nada sem medir o ROI e a contribuição desta forma de atuar para a economia foi enorme. Graças a isto muitas empresas conseguiram manter suas as portas abertas ou crescer.

Estes conceitos foram levados às escolas de negócio e moldaram os executivos das décadas de 70 e 80.

Em seguida, surgiu a primeira dificuldade. Percebeu-se que a empresa possui muitos ativos intangíveis, como a marca, patentes, direitos autorais, licenças e franquias, dentre outros. E assim, surgiram especialistas em calcular, ou ao menos estimar, o valor destes ativos intangíveis.

Para que isso não se convertesse em achismo, o estado tivesse controle sobre os impostos, a concorrência entre empresas fosse leal e o mercado pudesse medir o valor e o desempenho das empresas de forma equânime, se fez necessário a criação de normas contábeis específicas e minimamente convergentes no âmbito internacional das mesmas.

Desta forma, tudo voltou ao seu devido lugar segundo os gestores, entenda-se, a boa e velha planilha. Tudo se mede, tudo se calcula e tudo se controla.

Os presidentes executivos voltaram a dormir tranquilos.

Com o crescimento das empresas de internet, baseadas em software, chegou a próxima dificuldade. Sim, o software já era contemplado nas normas contábeis como um ativo intangível, porém, neste caso é diferente. Não se trata de um bem adquirido pela empresa para gerir seu negócio, e sim, trata-se de o negócio em si; o software é a empresa ou a empresa é o software.

As avaliações são as mais diversas e as estimações muitas vezes das mais originais. Disto falaremos no próximo artigo sobre Valuation e a possível bolha que está se formando.

Voltando à mensuração das atividades atuais, a dificuldade chegou com a transformação digital. As empresas têm investido muito dinheiro em seus processos de transformação digital e, seguindo as recomendações dos gurus, fomentando-a como ponto principal da melhora na experiência do cliente (CX).

Medir o ROI da experiência do cliente passou a ser o desafio das empresas, segundo uma pesquisa do Gartner1. Em 2016 apenas 10% das empresas que investiram em CX conseguiram medir seu retorno, que é uma taxa muito baixa.

Quanto ao restante de empresas, 22% verificavam o retorno de maneira informal e sem dados financeiros, 23% esperavam conseguir medir no futuro, 13% não viam nenhum tipo de retorno e 14% não tinham certeza sobre a eficácia do investimento.

Porém, no ano seguinte, a pesquisa mostrou o crescimento das empresas que mediam formalmente o ROI dos investimentos em CX, chegando a 48%.

Estas medições são feitas através de KPI – sigla em inglês para “Key Performance Indicator”, que poderíamos traduzir como Indicadores Chaves.

Por exemplo, os principais KPIs utilizados para medir a experiência do cliente são o valor da vida útil do cliente, que é uma projeção simples de quanta receita um cliente pode, em média, gerar para a empresa – up-sell e cross-sell e a taxa de conversão.

Agora os presidentes executivos podem dormir tranquilos novamente?

Claro que não!!!

Ao menos em minha opinião, não deveriam.

Por dois motivos:

1º. Alguns destes cálculos são baseados em projeções e estimativas;

2º. Segundo e principal motivo é que nos últimos anos iniciamos uma nova era, onde o intangível não é mais somente o software ou a marca, incluímos duas variáveis nas organizações que nem o Comitê de Pronunciamentos Contábeis e muito menos a maioria dos gestores sabem como fazer para medir o ROI: Comportamento e Emoções.

Houve uma mudança brutal no comportamento das novas gerações e as emoções começaram a ser mostradas e devem ser consideradas dentro das organizações, como vimos no artigo Portal do Profissionalismo, onde as empresas não contratam um profissional e sim um ser humano completo.

Embora a discussão não deveria ser se a empresa deve ou não investir em propósito, felicidade, conscientização ou humanização, porque para a Tecno-Humanização este debate já deveria fazer parte do passado, ainda há muito trabalho por fazer neste campo.

Pasmem, mas ainda existem muitos executivos presos a um passado em que se buscava quantificar e controlar a quantidade de idas ao banheiro dos empregados. Sim, empregados, porque neste caso não posso usar o termo colaborador. Aqui, quando digo passado, não me refiro ao tempo cronológico, e sim, à mentalidade dos executivos.

Não nos surpreende o fato de, em geral, serem os mesmos executivos que se perguntam porque estão encontrando tantas dificuldades para captar e engajar talentos em suas empresas e melhorar seus resultados.

E de quem é a culpa?

Provavelmente eles devem considerar que, primeiro, é por culpa da falta de comprometimento desta nova geração de insolentes e descomprometidos e, segundo pela crise econômica.

Aqui, o nosso trabalho é ajuda-los a mudar o Mindset.

Vencida esta fase, a questão agora é se devemos medir estas ações.

Investir em felicidade e humanização sim é matemático e mensurável, mas não espere e não busque o ROI de cada ação que realize. A Tecno-Humanização te dará um retorno enorme no triple bottom line, a empresa será mais rentável e consciente, porque as ações e os investimentos em conscientização e humanização não se medem em si mesmas, e sim, nos resultados globais da empresa, frente aos aspectos econômico, social e meio-ambiental.

Portanto, reformulo a pergunta que fiz no início do artigo.

É necessário medir o retorno de um abraço, da sinergia ou do propósito?

 

1. ROI é um termo muito comum no mundo dos negócios e quer dizer retorno sobre algum investimento realizado.

2. Pesquisa Gartner

 

Imagem: Pexel

A bipolaridade do empreendedorismo: gênio ou inútil

Este artigo foi publicado: no dia 05/11/2019 na minha coluna no R7 e no portal Inova360 e no dia 15/11/2019 no It Forum 365.

 

O crescimento da cultura empreendedora e os exemplos do setor tecnológico estão criando a tirania da obrigatoriedade do sucesso

Segundo os cânones impostos atualmente, você tem somente duas possibilidades, ser gênio ou inútil!

De que lado você está?

Segundo as redes sociais, os livros de autoajuda, algumas escolas de negócio pouco serias, palestrantes motivacionais depressivos e consultores de empreendedorismo teóricos, você pode tudo!

Aliás, segundo o “Vale do Silício” você não só pode tudo como deve ser o melhor em menos de um ano, já que vivemos em uma era exponencial.

Tomemos muito cuidado com isso!

Alguns pseudo consultores de empreendedorismo, que nunca empreenderam, somente leram meia dúzia de livros a respeito, se dedicam a transformar a exceção em regra, banalizando a genialidade.

Estas pessoas, usando frases de efeitos e técnicas de motivação, criaram a sensação de que você pode, deve e tem que ser o próximo Bill Gates, Steve Jobs, Jeff Bezos & cia, ou você é um inútil.

Mas de onde vem este entendimento e esta exigência?

São muitos os motivos, mas todos apontam para o mesmo setor: tecnologia.

Se olharmos os rankings das marcas/empresas mais valiosas do planeta dos últimos anos, independente da fonte que escolha, veremos que o número de empresas de tecnologia tem crescido. Este ano, 8 das 10 primeiras da lista são de tecnologia – Amazon, Apple, Google, Microsoft, Samsung, Facebook, Alibaba, Tencent e AT&T.

Vejam que Amazon e Alibaba deixaram de ser empresas de varejo para serem consideradas marketplace e, portanto, portais de serviços e produtos cujo core business é a tecnologia.

Se analisarmos a performance dos dez melhores CEOs em 2019, segundo um estudo da Harvard Business Review, cinco são do setor tecnológico – NVIDIA, SalesForce, Texas Instruments, Adobe e Microsoft.

NVIDIA e Texas não são conhecidas pelo grande público, mas têm crescido muito no mercado de componentes eletrônicos, que suporta aos crescimentos dos gigantes da lista anterior.

Segundo a lista da Forbes, 6 dos 10 maiores bilionários do mundo, são do setor da tecnologia – Jeff Bezos, Bill Gates, Carlos Slim, Larry Ellison, Mark Zuckerberg e Larry Page.

Enquanto as escolas de negócio ensinam que as empresas devem ser Customer Centric (orientada ao cliente), o mercado da transformação digital tem conduzido a todas as empresas e segmentos a serem Digital Technology Centric (centralizada na tecnologia digital).

Esta exposição massiva e o consumo superficial de manchetes com limitação de caracteres das redes sociais, a busca de receitas-de-bolo rápida de enriquecimento nos transmite a sensação de que temos que empreender, virar um unicórnio em no máximo 18 meses e se não o fazemos e não entramos nos rankings, teremos fracassados.

Por certo, se alguém acha difícil ou pouco provável atingir um valor de mercado de USD 1 bilhão em menos de 18 meses, temos mais de uma dezena de startups no mundo que já alcançaram. O caso que mais chamou a atenção foi o da jet.com que conseguiu esta façanha em 4 meses.

Fico feliz por eles, mas o problema que os pseudo consultores tomam este tipo de dado como a barra de medir e passam a dizer que, se alguém no Vale do Silício ou na Singularity disse que é padrão, todos devemos segui-lo (mesmo que não tenha sido dito por ninguém).

Outro dia li uma frase fantástica do Marc Tawil, que estava associada a outro contexto, porém serve perfeitamente aqui.

“Não compare o seu bastidor com o palco do outro”.

É obvio que devemos estudar estes cases, conhecer os hábitos de pessoas que se sobressaem, aprender e até copiar o que faça sentido, mas por favor, não imitem nem tentem ser quem não são.

Você não é Steve Jobs, e não precisa ser.

Você não é Jeff Bezos, ainda bem, você é quem é.

Embora seja óbvio, é necessário dizer que não precisa ser gênio, nem CEO, nem rico e muito menos famoso para ser feliz.

Não precisa virar unicórnio pra ter sucesso.

E muito menos o crescimento deve ser em 6 meses.

Como falamos no artigo Dessingularizando a Singaluridade, temos que correr sem atropelar.

Esta pressão adicional, e artificial, que criamos pode agravar os quadros de depressão e transtornos de ansiedade crescentes que estamos vivendo?

Não podemos afirmar, mas sem dúvida é uma variável a mais a ser considerada.

Não foi uma nem duas vezes que vi pessoas no LinkedIn dando conselhos e oferecendo cursos, como uma “receita infalível” e o passo-a-passo para transformar a sua mente em uma mente milionária.

Estas pessoas, algumas delas eu conheço, leram o segredo das mentes milionárias do Napoleon Hill e vendem cursos a respeito. Porém uma delas me disse que queria fazer o workshop da Tecno-Humanização, mas estava sem dinheiro.

Ler um livro e montar um curso a respeito, OK.

Ter problemas financeiros, acontece, todos temos em algum momento de nossas vidas.

Mas padecer do problema que se promete resolver…

Prestem muita atenção sobre a fonte onde você busca conhecimentos e ensinamentos.

Tem pessoas que nunca empreenderam dando mentoria de empreendedorismo.

E são estas pessoas que inundam as redes sociais com mensagens que você pode tudo, que você pode ser um gênio, que você pode empreender e ter sucesso. Na verdade, não passa de mensagens de autoafirmação e principalmente, serve de terapia para elas mesmas, não pra você.

E para isso, ler e ouvir (profissionais sérios e competentes) é muito importante. Porém, o único fator que te permite mudar a sua condição é FAZER, REALIZAR, EXECUTAR.

Se não sabe por onde começar, busque ajuda de um mentor.

Se não sabe como fazer, busque uma metodologia.

Se não consegue fazer, busque um especialista (sério) em inteligência emocional para desbloquear seus medos.

E ignore os cânones impostos pelo mercado, entre um gênio e um inútil, existem milhões de possibilidades que são perfeitamente válidas.

Basta encontrar a SUA, não a de outros.

 

Fontes:

Harvard Business

Review

Forbes Fleximize

 

Imagem: Pixabay

Tecnologia: da escassez à abundância

Este artigo foi publicado: no dia 29/10/2019 na minha coluna no R7 e no portal Inova360 e no dia 08/11/2019 no IT Forum 365.

 

No último século a tecnologia salvou mais vidas que em toda a história da humanidade

A tecnologia, demonizada por alguns e idolatrada por muitos, foi um gatilho que mudou a história da humanidade.

Ela nos permitiu, nos últimos 50 anos, melhorar nossa qualidade de vida, ajudou a reduzir a fome e a miséria, erradicar ou curar doenças. Seja diretamente, seja apoiando novos protocolos ou ainda incentivando novas condutas.

A taxa de mortalidade infantil reduziu quase 60% no mundo e mais de 90% no Brasil, passando de 16,9% a 1,44%, entre 1960 e 2018. A Pobreza também reduziu drasticamente, passando de 42,1% da população em 1981 para 10% em 2015. Estes dados são publicados pelo Banco mundial.

Uma parte importante dos méritos desta melhoria, sem dúvida, se deve à tecnologia. Equipamentos e medicamentos que melhoraram (e salvaram) direta ou indiretamente muitas vidas.

Sem dúvida estes dados são importantes e nos deixa feliz, mas não podemos nos acomodar. A leitura dos dados em valor relativo pode ser enganosa, quando se trata de vidas.

Basta que uma pessoa morra por falta de acesso à tecnologia, alguém que poderia ter sido salva e não foi porque não fomos capazes de construir um modelo mais humanizado de sociedade, teremos falhado.

Temos muita tecnologia disponível. Daí a entrar no mérito se ela é acessível para todo mundo já é uma outra discussão, que será tema de um outro artigo em separado.

Fato é que, mesmo reduzindo a porcentagem, em valor absoluto, ainda temos muita gente sofrendo ou morrendo no mundo. A diferença é que antes se morria ou sofria por falta de tecnologia, hoje por falta de consciência ou por ganância.

Criamos empresas que adoecem pessoas ou, no mínimo, as faz sofrer e, o pior, ainda estamos longe de atuar de maneira profilática para evitar que sofram. Enfim, estamos melhor que no século 18?  Em termos relativos sim, em valores absolutos não, em termos tecnológicos sim, em termos humanos… bastante questionável…

Em outras palavras, evoluímos muito em termos tecnológicos, mas ainda estamos longe de resolver os reais problemas da humanidade.

O dado positivo é que nunca tivemos uma oportunidade tão grande de utilizarmos a tecnologia a nosso favor, com o propósito genuíno de construir uma sociedade. Portanto, não podemos desperdiça-la!

Vejamos alguns exemplos de como podemos mitigar os problemas das necessidades básicas do ser humano:

Alimentação: Não me refiro somente à melhoria de produtividade, no sentido maior produção por hectare, porque isso já fazemos com excelência. Obviamente isso ajuda a humanidade porque temos que alimentar a uma população cada vez maior. Temos projetos verdadeiramente disruptivos, como carnes de laboratório (já comentei alguns exemplos no canal observatório BE&SK), ovo sintético (pó e líquido), produção de arroz em água salgada e assim por diante.

Saúde: Muito além das curas de doenças, já temos óculos que fazem deficientes visuais enxergarem através de som, impressoras 3D que imprimem órgãos em testes avançados e iniciando os testes temos tratamentos com nanorobôs, que podem aplicar quimioterapia somente na célula cancerígena, por exemplo. Sem contar as tecnologias que permitem exames laboratoriais básicos em domicílio. A inovação, neste caso, se observa mais pelo modelo de negócio do que pela tecnologia em si. Outro exemplo, o marketplace de saúde webmd, que reúne médicos, laboratório, hospitais, recebeu mais visitas e teve mais consultas online, que todas as consultas presenciais feitas por todos os médicos americanos juntos.

Moradia: Conceitos de casas sustentáveis, utilizando materiais recicláveis e reutilizáveis, aplicando tecnologias como impressoras 3D ou nanotecnologia. Este tipo de projeto reduz o custo, o tempo de construção e o impacto meio-ambiental, não gerando resíduo da obra. Outros conceitos como motorhomes minimalistas para nômades digitais ou tecnologias como IoT para eficiência energética, e assim por diante.

Educação: Inteligência artificial, realidade virtual, realidade aumentada tem enriquecido o conceito de ensino a distância, não obstante, a maior revolução tem sido em relação à democratização do conhecimento através das MOOC (Massive Open Online Course). Atualmente existem milhares (ou milhões) de Cursos Abertos Online gratuitos disponíveis em vários idiomas. (Em breve faremos artigos específicos para educação e saúde)

 

Poderia citar uma lista de 20, 50 ou 100 tecnologias que estão à nossa disposição. Porém, as tecnologias por si só não resolverão os nossos problemas.

E sabem por quê?

Porque muitas delas vão de encontro aos interesses de empresários sem visão, de investidores ou de grandes grupos econômicos.

Para que possamos levar estas tecnologias e gerar abundância à sociedade, precisamos de dois aspectos adicionais à tecnologia.

Mudança de Mindset e novos modelos de negócio, mais conscientes e humanizados.

Para abordar estes três pontos, tecnologia, modelos de negócios rentáveis e conscientes e mentalidade, é necessária uma metodologia. Seria muito difícil ter sucesso se não os abordamos de forma integrada e sistêmica.

A maioria das startups já estão nascendo com esta visão, porém, o que acontece com as empresas atuais?

As estatísticas de vida útil das empresas mostram que haverá uma renovação muito maior ao que já vimos ao longo da história, porém, não é realista pensar que devemos matar todas as empresas atuais e substituir por startups, temos que buscar a forma de ajudar as empresas existentes.

O principal objetivo da Tecno-Humanização é unir tecnologia e pessoas, para transformar empresas tradicionais em organizações rentáveis, conscientes e humanizadas, através de seus 3 pilares:

Tecnology, Business & Mindset Transformation.

Porque este é o caminho que encontramos para aplicar tecnologia para levar-nos de um modelo de escassez para um modelo de prosperidade e abundância acessível a todos.

 

Fonte dos dados:

Dados do Banco Mundial sobre taxa de mortalidade infantil no Brasil

Dados do Banco Mundial sobre pobreza

 

Imagens:  Pixabay

Empresas humanizadas são mais profissionais

Este artigo foi publicado: no dia 22/10/2019 na minha coluna no R7 e no portal Inova360.

 

Da porta para dentro da empresa, somos profissionais. Esta frase, tão famosa no passado, ainda é válida nos dias de hoje?

A sua empresa possui o Portal do Profissionalismo?

Se você não sabe o que é, deixe-me explicar.

Estes “portais” eram muito comuns na entrada das empresas no século passado. Acreditava-se que tinham um grande poder, pois faziam com que cada pessoa que passasse por ele deixasse do lado de fora os problemas, todas as preocupações e a vida pessoal, só passando por ele o lado profissional do colaborador.

Ultimamente, as empresas têm sofrido muito com isso. Seus portais do profissionalismo não têm funcionado como no passado.

E de quem é a culpa?

Infelizmente é assim que ainda pensam alguns executivos. São capazes de enxergar as transformações do novo momento que estamos vivendo, mas continuam buscando culpados pelas coisas que não funcionam como funcionavam no passado.

Outros pensam que a evolução da espécie humana mudou algo em nós e, aparentemente. o portal deixou de ter efeito. Portanto, é preciso construir um portal novo para as novas gerações.

Em minha visão, pensar desta forma é de uma ingenuidade despropositada pois o portal nunca funcionou! Nem nunca funcionará!

A diferença é que antes a maioria das pessoas fingiam separar quem elas eram no trabalho de quem eram em sua vida pessoal e outras acreditavam realmente que isso era possível e tentavam, de fato, fazê-lo.

Imaginem por um momento que você estivesse passando qualquer uma destas situações:

O seu filho está doente, te olha com aqueles olhinhos lacrimejantes de febre, quando você vai sair de casa;

Sua mãe está com alguma doença grave;

Seu irmão tem problemas financeiros;

Seu melhor amigo foi mandado embora e está com depressão;

Você está passando por uma situação sentimental delicada, seu relacionamento está acabando.

Mas não é somente situações negativas, também podem ser positivas:

Você recebeu uma proposta de emprego na empresa que queria;

O seu primeiro filho, tão desejado e aguardado, está pra nascer;

Está em processo de compra de uma casa, um carro ou algum bem que seja importante pra você;

Você acabou de se apaixonar.

Enfim, como você pôde perceber, para estar exposto a estes exemplos e outras centenas deles, basta estar vivo.

Eu tenho feito esta pergunta a vários empresários e executivos:

Sinceramente você acha possível criar processos à prova de emoções de seus colaboradores?

O mais incrível é que alguns pensam que sim! Acreditam que, independente de quem o execute, será feito da mesma maneira.

Querem ver um exemplo como este pensamento é absurdo?

Vejamos, um analista de crédito, seguindo estritamente os processos, aprova um crédito com o mesmo critério se na semana anterior o pai dele faleceu ou o filho dele nasceu?

São emoções e estado de ânimo radicalmente opostos e, obviamente, o analista de crédito, ainda que imbuído de toda sua boa fé e profissionalismo, não analisaria o crédito como o mesmo critério.

Para que não fique somente no terreno do achismo ou da opinião pessoal, Richard Thaler, economista americano, ganhou o prêmio Nobel de economia em 2017 com seu estudo de economia comportamental, onde demonstrou que não é possível separar as emoções dos processos de tomadas de decisões econômicas.

Portanto, Thaler somente demonstrou o que já sabíamos e tínhamos vergonha de admitir. Ou seja, não é possível separar as emoções da razão, não é possível separar parte de nós, somos um todo.

A empresa contrata um ser humano, uma pessoa completa, e querer que ele só traga ao trabalho o profissional e deixe “o resto” em casa. É possível?

Por favor, em que mundo vivemos?

É obvio que não tratamos igual ao presidente da empresa, que um cliente ou nossa avó. O comportamento deve ser diferente, porém, nossa forma de pensar e, principalmente, nossos valores, são os mesmos.

Se você acredita que pode ser profissional e agressivo na empresa, se você é capaz de despedir seu melhor amigo para alcançar os resultados, espremer até praticamente asfixiar seu fornecedor, fazer qualquer coisa para subir na empresa e, em casa você é “bonzinho”, em algum dos dois lugares, você está fingindo ser quem não é.

E esta “atitude esquizofrênica” imposta pelo mercado tem vida curta. Não é possível viver assim por muito tempo sem sofrer ou ficar doente.

Reconhecer que as emoções fazem parte do processo é o primeiro passo para humanizar a empresa, para abrir as portas ao ser humano completo, não somente o profissional, eliminar portais imaginários e banir do mundo corporativo frases como estas:

“Da porta para dentro somos profissionais”.

“Os problemas ficam do lado de fora”.

“Aqui se vem trabalhar não fazer amigos”.

“O único que vale aqui é resultado, os sentimentos não importam”.

Acredito que todos nós já ouvimos ou até dissemos algumas delas, mas não se sinta culpado por isso. Não devemos nos julgar, nem nos considerar más pessoas por isso. Este tipo de comportamento foi o que aprendemos nas escolas de negócio e nas empresas e pensávamos ser a forma correta de atuar. E, sejamos sinceros, funcionou por um bom tempo.

A tecnologia também contribuiu para este processo, tendo em vista que ela levou o trabalho para fora do escritório físico e “invadiu” a casa e a vida pessoal do colaborador. Sendo assim, para que se mantenha o equilíbrio, da mesma forma, a empresa deveria permitir que o colaborador traga sua vida pessoal para o trabalho também. Tudo isso, obviamente, obedecendo à uma lógica de sensatez e sem exageros.

Mas quando isso deixou de funcionar?

Quando chegamos ao limite e não conseguíamos, ou não queríamos, fingir mais, quando quem ainda tentava fingir começou a adoecer. E o maior gatilho da mudança foi quando chegou uma nova geração que se recusou a aceitar essa dualidade pessoal-profissional.

Somos quem somos, somos um ser completo (e maravilhoso), e tentar “comprar” somente um pedacinho é desrespeitar nossa plenitude; chega ser cruel desde o ponto de vista pessoal e, o pior, pouco inteligente do ponto de vista corporativo, porque não permite explorar todo o nosso potencial.

Ao contrário do que pensam os executivos favoráveis ao conceito do Portal do Profissionalismo, quanto mais a empresa cuida do ser humano, mais o ser humano entrega o melhor profissional à empresa, portanto…

Empresas humanizadas são mais profissionais!

Como complemento ao artigo, conversamos com Tania Moura, VP da ABRPH (Associação Brasileira de Profissionais de Recursos Humanos), para conhecer sua visão sobre empresas humanizadas, vale a pena ouvir.

 

 

Imagens:  Pixabay

Governança corporativa não garante ética!

Este artigo foi publicado: no dia 15/10/2019 na minha coluna no portal R7 e no portal Inova360 e no dia 22/10/2019 no ITForum365.

 

A governança corporativa é mais do que tínhamos há 20 anos e menos do precisamos hoje

É preocupante ver como muitos executivos dormem tranquilos porque sua empresa tem uma boa governança.
Você dormiria?
Eu não e vou explicar o porquê.

Antes, porém, precisamos esclarecer o que é governança corporativa e quais seus princípios básicos.

Segundo a definição do IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa), governança corporativa é o sistema pelo qual as empresas e demais organizações são dirigidas, monitoradas e incentivadas, envolvendo os relacionamentos entre sócios, conselho de administração, diretoria, órgãos de fiscalização e controle e demais partes interessadas.

A governança corporativa possui 4 princípios básicos:

  • Transparência – transparência de informação para transmitir confiança;
  • Equidade – tratamento justo entre todos as partes interessadas (acionistas, colaboradores, parceiros e clientes);
  • Prestação de contas (accountability) – que cada colaborador atue com diligência em suas funções e preste conta, não somente de seus resultados, mas também de sua forma de atuar;
  • Responsabilidade corporativa – garantir a viabilidade econômico-financeira do negócio.

Para cumprir estes princípios, são necessários estabelecer regras claras e estritas, considerar as leis em todos os níveis, definir processos e monitorá-los constantemente, para garantir que se cumpram.
Até aqui estamos todos de acordo que a governança é  extremamente importante e necessário em nossas organizações.
Definir regras e normas internas, assim como as leis,, garantir que sejam cumpridas, transmite muita confiança ao mercado, e isso é o que precisam as empresas para manter sua estabilidade institucional.
A governança, ao lado dos resultados financeiros e projeções de crescimentos são os pontos mais valorizados pelos investidores.

Qual o papel da tecnologia na governança corporativa?

A exigência de fazer cumprir centenas de regras por milhares de pessoas (internas e externas) gerindo milhões de dados, se torna praticamente impossível faze-lo de forma manual.
Processos, dados financeiros, atividade operacionais, que os executivos tenham todas as informações em tempo e forma, de maneira confiável para a tomada de decisão, para que o acionista tenha tranquilidade, os auditores e posteriormente os analistas de mercado tenham transparência e credibilidade das informações, tudo depende de tecnologia.
Pronto, até aqui, o artigo foi um comercial de margarina, morno, porém, correto, e poderia ser enviado para qualquer mídia econômica.

Muitos executivos pensam que a governança é o teto, sua gestão e sua empresa está protegida.
Porém, o que é considerado como teto para alguns, para a Tecno-Humanização é considerado solo, uma política de mínimos.

Cumprir a lei é necessário? Claro, é o mínimo.
Cumprir as regras internas? Sim, é o mínimo.
Ser transparente é importante? Sem dúvida.

Então qual é o problema?
Talvez, por viver em um mundo onde as empresas tem governança e tudo funcione bem, vocês não consigam imaginar onde está o problema.

Porém, vamos nos transportar só por um instante ao meu mundo imaginário, assim vocês vão poder entender o me raciocínio.

Vamos viajar a mundo onde poderiam ter empresas de delivery que pressionam tanto aos entregadores, que pagam um valor extremamente ajustado que acabariam induzindo ao colaborador a correr riscos com sua moto ou bicicleta para cumprir suas metas e ter uma remuneração no limite do digno. Já sei que alguns vão dizer que é melhor isso que estar desempregado e passar fome, mas se poderia fazer melhor.

Neste meu mundo imaginário, também poderia ter empresas que mantem o preço de um produto por um período longo de tempo, faz marketing disso e vende a imagem de que é orientada ao cliente e, portanto, sensível aos seus problemas, porém reduz sistematicamente a quantidade e a qualidade do produto vendido.

Também poderíamos encontrar empresas que desenham processos de captação de clientes com um, máximo dois passos, em contrapartida desenham processos de cancelamento com mais que o triplo de exigências.

Poderia existir, neste meu mundo imaginário, inclusive empresas que criem processos específicos, contratem profissionais especializados e treinamentos de venda e persuasão, que só se preocupam em vender. Sei lá, minha imaginação é fértil, e eu poderia inventar empresas de consórcio que vendem para pessoas que não precisam adquirir aquele bem, empresas de telefonia que vendam planos muito acima da necessidade do cliente, cadeias de fast food que desenhem campanhas baseadas em neuromarketing para atrair crianças, empresas do varejo que abusem de gatilhos mentais para entubar (me desculpem a expressão) um produto que sabem perfeitamente, de antemão, que o cliente não precisa.

E como minha imaginação não tem limites, eu cheguei até pensar que poderia existir empresas de credito pessoal que incitem o consumo, que fomentem e sugiram sutilmente que se o cliente não compra um determinado bem ou não faz uma viagem, ele é inferior aos seus amigos e familiares. E claro, se o cliente, após estar convencido de que precisa daquilo e não pode compra-lo, a empresa, como é boazinha, lhe empresta o dinheiro com juros de 4 a 8% ao mês.

Ainda bem que todas estas bobagens que eu imagino em meu tempo livre, não ocorrem no mundo real.
Então podemos afirmar que estamos salvos, porque as empresas que conhecemos tem uma forte governança, não é mesmo?

Tenho que reconhecer, eu sinto inveja de vocês que vivem em um mundo protegido pela governança corporativa, porque em meu mundo imaginário…

Governança corporativa não garante ética!

Como complemento ao artigo, conversamos com um especialista em governança corporativa e gestão de riscos, diretor a IIA  (Instituto dos Auditores Internos do Brasil) para conhecer sua opinião sobre a relação entre governança corporativa e ética, vale a pena ouvir

 

 

Imagens:  Pixabay

O desemprego pós-transformação digital

Este artigo foi publicado: no dia 08/10/2019 na minha coluna no R7 e no portal Inova360.

 

Já passamos da fase de perguntar se a transformação digital vai destruir postos de trabalho, agora a questão é como lidar com isso

O que o trabalho representa pra você?

Depende quem seja o seu interlocutor a resposta será diferente.

Para o empresário com propósito, o caminho para mudar o mundo ganhando dinheiro.

Para o empresário sem propósito, uma forma de ganhar dinheiro mudando o mundo (ou não).

Existe um grupo que diz que é um mal necessário, outro que ama o que faz, que é vocacional, e para a imensa maioria das pessoas, uma forma de subsistência, o ganha-pão.

Mas existe um denominador comum entre todos eles, consciente ou inconscientemente, todos sentem realizados ao ver o resultado de seu trabalho e esforço.

Não importa se a motivação é a necessidade ou a paixão, todos, sem exceção, ao realizar um bom trabalho se sentem bem consigo mesmo.

Conheço pessoas que maldizem o domingo a noite, e reclamam a cada manhã de seu trabalho, de seu chefe, de seus colegas, porém quando o perdem… é um drama.

O trabalho tem um papel fundamental, tanto socialmente como em nossa estrutura mental, não somente pelo fator econômico, mas pela dignidade que outorga a quem o realiza.

Do outro lado da mesa, o lado do empregador, a palavra de ordem nas organizações é otimizar recursos e automatizar, pensando em redução de custos.

Há alguns meses, eu recebi em vários grupos de WhatsApp que participo um vídeo de uma fábrica cervejeira totalmente automatizada.

Em um extremo os apaixonados por tecnologia exaltando as maravilhas da robótica e dizendo que este é o futuro, no outro, sindicalistas abominando a eliminação de mão de obra.

Desde o ponto de vista da Tecno-Humanização, consideramos que nenhuma empresa, hoje em dia, sobreviveria sem tecnologia, porém, nenhuma sociedade existiria sem pessoas.

As empresas devem ser conscientes disso, pensar somente na redução de custos é uma visão míope, de curto prazo e chega a ser irresponsável.

Vamos extrapolar o exemplo desta fábrica a todas as empresas que buscam a tão sonhada otimização de recursos (levada ao extremo).

Pessoas sem trabalho não consomem!

Se automatizarmos todas as fábricas, teremos as empresas mais otimizadas do cemitério.

A empresa quebra porque não tem clientes.

E as pessoas morrem de inanição porque não tem trabalho.

Me desculpem a inocência, talvez eu tenha uma visão romântica (e utópica) do mundo, mas alguém pode me explicar como este modelo socioeconômico, criado por executivos “inteligentes”, se sustenta além do fechamento do ano fiscal?

Sinceramente, foge à minha compreensão que estes executivos não enxerguem como este modelo é autodestrutivo. Gera um desequilíbrio que simplesmente nos levaria ao caos.

Mas quem se importa com o próximo ano se o único que interessa é o fechamento deste ano fiscal? Melhor dizendo, o bônus se bater as metas este ano.

No seriado Designated Survivor (S2 Ep4), o presidente dos EUA pede a um grande empresário para reduzir o ritmo da automatização de suas fábricas. O motivo? Frear o desemprego.

O empresário diz, “isso vai me custar uma fortuna” e pergunta “e por quê eu faria isso?”

Mas o que mais me chamou a atenção foi a forma que utiliza para se autoconvencer que “isso é assim”.

“Sr. presidente, o futuro está chegando você querendo ou não, você pode tentar conter essa corrente, mas um dia a represa vai acabar rompendo”.

 

 

As vezes assumimos que as coisas vão acontecer independentemente de nossas ações, por geração espontânea, como forma de nos sentirmos melhores por fazer coisas das quais não nos orgulhamos.

É como dizer que, isso vai acontecer de qualquer forma, portanto, se eu não fizer outro fará, então faço eu.

Me desculpem de novo, mas a destruição massiva de postos de trabalho, e o caos derivado da mesma, só vai acontecer se quisermos e fizermos com que aconteça. O que acontecerá no futuro é absolutamente consequência das decisões que tomemos hoje, e a responsabilidade é total e exclusivamente nossa.

A preocupação do presidente na serie é justa e também ocorre na vida real. Existem grupos de discussões, tanto na Europa como nos EUA, buscando alternativas para que o desemprego massivo que teremos não gere um caos social.

É muito comum que me peçam, em minhas palestras e treinamentos, minha visão sobre se as empresas devem automatizar as fábricas ou aplicar tecnologia para automatizar processos.

Automatização, sim!

Automatização total, não!

Até onde as empresas devem ir?

Onde está o limite?

Não existe receita pronta, cada empresa é uma empresa, cada ciclo produtivo é diferente assim como a cultura organizacional de cada organização.

Conheço empresas, como por exemplo a Sarah Oliver Handbags, que produzia bolsas de crochês com anciãos de casas de repouso americanas. Se levassem a produção à China ou a automatizassem conseguiriam reduzir o custo em mais de 60%, porém preferiam causar impacto positivo nos idosos locais, dando-lhes um trabalho e dignidade. Seus clientes reconheciam isso e compravam as bolsas mesmo sendo mais caros.

A Tecno-Humanização eleva o nível de consciência e humanização da empresa para que ela seja capaz de decidir onde coloca a sua barra.

De qualquer forma, isso ajuda, mas não evita o desemprego.

O segundo ponto é saber como tratar os casos de desligamento, inevitáveis do processo de transformação digital.

Existem muitas coisas que podem ser feitas.

Criar ecossistemas produtivos para estas pessoas.

Dar orientações, treinamentos e formação de diferentes tipos, mostrar que o mundo mudou (e muito), debater sobre o futuro das profissões, orientações sobre empreendedorismo, e principalmente alertar que, daqui pra frente, muita gente não vai viver de um emprego e sim de seu talento conectado em rede.

Eu comecei este artigo perguntando o que o trabalho representa pra você?

Sou consciente da importância do trabalho e também das consequências pela falta dele.

Mas eu não me preocupo pelo emprego, e sim com o ser humano que está por trás dele.

E você?

 

Imagens:  Pixabay

Os efeitos do excesso de tecnologia no ser humano e nas empresas

 

Este artigo foi publicado: no dia 01/10/2019 em minha coluna no portal R7 e no portal Inova360.

 

Todo excesso causa patologia! E o excesso de tecnologia está provocando doenças nas pessoas e problemas nas empresas

Pela primeira vez na história a quantidade de tecnologia disponível supera a nossa capacidade de assimilação e compreensão.

Esta é uma afirmação dura, porém verdadeira.

Vou tratar este tema em duas partes, primeiro falando sobre o impacto nas pessoas e depois nas empresas.

Você já teve a sensação de que foi superado pela quantidade de tecnologia e que não entende mais tudo o que está acontecendo à sua volta?

A cada bate-papo com amigos aprendemos a usar uma função nova que ainda não conhecíamos em nossos aplicativos ou instalamos algo novo que ainda não tínhamos.

Após mais de 6 milhões de anos de evolução e haver superado tantas dificuldades, o ser humano tem a falsa sensação de que controla tudo.

De repente, a quantidade de tecnologia desbordou esta sensação de controle.

E agora?

Todo excesso é prejudicial, sem exceção.

Nos inícios dos anos 90, o psicólogo britânico David Lewis, publicou um artigo “Dying for information” (Morrendo pela informação), e propôs o termo, Síndrome de Fatiga de Informação (IFS – Information Fatigue Syndromme). Com este artigo se iniciou um estudo que finalmente, em 1999, culminou em um livro “Information Overload”.

Após duas décadas, a quantidade de informação se multiplicou de forma exponencial, aumentaram os canais e a velocidade que ela circula e agravou este distúrbio.

Embora isso continue sendo um problema, em algumas pessoas disparou-se um mecanismo de defesa a este excesso de informação que é o de passar a ignorar toda a informação.

O cérebro diz, se eu não posso assimilar e filtrar toda a informação, eu simplesmente bloqueio e ignoro. O extremo de tentar ler e entender tudo não é bom, o de ignorar também não…

Mas antes mesmo de resolvermos este problema já surgiu outro, que talvez devesse ser chamada de Incapacidade de Assimilação da Tecnologia, ou para manter o padrão do IFS, TAI (Technology Absorption Inability).

A falta de capacidade de entender o processo de transformação tecnológica é tão grande, a falta de visão e de respostas sobre o futuro das profissões e dos postos de trabalhos derivados do processo de transformação digital é tão exageradamente grande, que está contribuindo fortemente para o aumento do Transtorno de Ansiedade.

Como apontado, o segundo motivo para humanizar as empresas no artigo – Entenda porque humanizar as empresas é necessário, urgente e rentável – mostramos que o Brasil é o campeão mundial de Transtorno de ansiedade quase três vezes acima da média mundial.

Este problema impacta as organizações de duas maneiras, a primeira é pelo absenteísmo. A depressão e o transtorno de ansiedade, segundo dados do Ministério do Trabalho, é a segunda causa de adoecimento no trabalho e a primeira causa de afastamento. Se as empresas não quiserem olhar pelo lado humano (que deveriam), ao menos que o façam pelo impacto e interesse econômico.

Construímos empresas que nos adoecem e isso não é motivo de orgulho para nenhum de nós.

O segundo problema que as empresas se enfrentam é que, ao existir tanta tecnologia, dedicam uma quantidade enorme de tempo em escolher uma tecnologia, estudam como integrar com as tecnologias atuais, iniciam a implantação e, em muitas ocasiões, antes mesmo de terminar já surgiu outra tecnologia.

Se a empresa cair na armadilha de focar somente na tecnologia, sem entender que ela é somente um meio e não um fim em si mesma corre o risco de ficar presa em uma teia de aranha onde faz muito esforço, investe alta soma e não sai do lugar.

Para profissionais liberais ou pequenos empreendedores esta situação também gera muita angústia, porque eles normalmente não têm conhecimentos nem equipe técnica para ajuda-los neste processo.

Em um workshop recente, uma participante disse que havia decidido fazer o workshop porque a falta de conhecimento profundo sobre o impacto da tecnologia no negócio dela, e isso lhe gerava angústia.

A incerteza tem um poder destrutivo muito grande em nossas vidas e empresas, não nos podemos permitir o luxo deixar que se instale em nós.

Então como devemos atuar?

Proibir e limitar as tecnologias?

Só de escrever a palavra proibir me provocou rechaço. Isto, em minha opinião está fora de cogitação.

Seria a mesma bobagem que se discutiu quando surgiu o documentário Super Size Me, alguém consumiu, de forma voluntária, durante 30 dias comida processada do McDonald’s, engordou e teve vários distúrbios em sua saúde.

Devemos proibir o fast food?

Claro que não!

Cada um deve controlar o próprio consumo.

No máximo, podemos fazer como o documentário e questionar o marketing, o incentivo inconsciente deste tipo de alimentação, os gatilhos mentais e técnicas utilizadas para atrair crianças, enfim, tudo isso é melhorável, porém, jamais proibir.

Da mesma forma acontece com a tecnologia, não devemos demoniza-la, e sim, aprender a utiliza-la a nosso favor.

O melhor, e talvez único, caminho para as empresas não caírem na roda de rota, de onde provavelmente fiquem pressas, correndo sem sair do lugar, fazendo investimento de milhões em tecnologia e avançando muito pouco (ou nada) seria contratar um profissional especializado em transformação, que entenda de tecnologia porém que tenha como principal característica e linha de trabalho, um perfil humanista.

Que coloque as pessoas no centro do processo de inovação e transformação digital e entenda que a tecnologia está para nos servir e que é um meio e não um fim.

Imagens:  Pixabay

A tecnologia matou a padronização

Este artigo foi publicado: no dia 24/09/2019 na minha coluna no R7 e nos portais Inova360 e ITForum365 .

 

A tecnologia nos permite unir dois conceitos, aparentemente, antagônicos, personalizar em grande escala

Extra! Extra! A padronização morreu!

Essa seria a grande manchete gritada pelos meninos nas esquinas para vender seus jornais.

Ao longo da história, muitos movimentos costumam ser pendulares. Na idade média os artesãos eram valorizados por dois motivos, por serem especialistas e por serem capazes de personalizar seus produtos, até o ponto de que cada reino ou feudo tinha seu próprio artesão.

Em tempos atuais, na segunda metade do século passado os produtos feitos à mão eram sinônimo de qualidade e personalização.

Os melhores ternos, os melhores sapatos, as melhores comidas, tudo era feito à mão.

Morei na Europa por 15 anos e era comum ver altos executivos com camisas feitas à mão com suas iniciais bordadas.

O problema disso é que não é possível conseguir escala, a limitação da capacidade produtiva eram as horas do dia do alfaiate, do sapateiro ou da cozinheira.

Então, com a revolução industrial, Taylor, Fayol, entre outros, iniciou-se um processo de industrialização que foi extremamente importante para o crescimento da humanidade.

Com o processo de industrialização e otimização de processo, chegou à padronização. (perfeitamente compreensível e razoável).

Sou de uma época onde o McDonald’s não aceitava mudar nada no lanche para não atrapalhar sua “linha de produção”.

Este conceito foi levado a todos os tipos de negócio e teve um enorme sucesso. Funcionou muito bem durante muitos anos, porém…

Pouco a pouco, as pessoas começaram a sentir a necessidade de customizar, desenvolveram o desejo de ter produtos e serviços customizados, mas nem sempre era possível tecnicamente.

O grande desafio da indústria era como conjugar produção em massa de forma customizada.

Então, chegaram os millennials (Y) e converteram os desejos da geração anterior em exigências, não aceitam produtos padrões.

Esta é uma característica geracional que se acentuou na próxima, os centennials (Z)

Como resolver este dilema? Com tecnologia e metodologias ágeis.

A tecnologia, se, aliada às metodologias ágeis, são capazes de viabilizar o conceito de customização em massa.

Iniciou-se uma corrida frenética para cumprir estas exigências, atender e/ou superar as expectativas dos clientes. Tudo para melhorar a experiência do cliente.

Este movimento iniciou-se fortemente no setor da moda, empresas de roupas e calçados, como Vans, Converse, Adidas, permitem você customizar seu tênis no site.

Embora tenha sido um grande passo ainda era insuficiente, então surgiu a nova geração de customização, a feita a medida literalmente.

A Feetz, startup americana que foi comprada recentemente por um grande grupo de calçado global, dono de muitas marcas, criou um app que permitia você criar o seu sapato à medida.

O funcionamento é simples, tira-se 3 fotos do pé (em diferentes ângulos guiados pelo próprio aplicativo), envia-se, e a Feetz imprimia, usando impressoras 3D o SEU sapato.

No app não era necessário informar o seu número de calçado.

Sabe por quê? Porque não somos simétricos!

Quem nunca sofreu com a seguinte situação:

Compramos um sapato, um pé fica ótimo o outro fica um pouco apertado ou um pouco folgado…

Ao usar o algoritmo da Feetz isso não acontece, o sapato é SEU.

Agora este conceito saiu do mundo da moda e chegou a outros setores. No podcast BE&SK #1, o CEO da Gaia Eletric Motors, Ivan Gorski, nos contou que será possível um cliente solicitar modificações em seu Gaia (obviamente não estruturais) e em 2 ou 3 semanas receber seu veículo customizado.

Até aqui fantástico, desde o ponto de vista da Tecno-Humanização. Aplicar tecnologia para oferecer ao cliente o melhor produto ou serviço possível, de preferência com materiais e conceitos que causem impacto positivos, tanto ambientais como sociais.

Porém… (sempre tem um porém…)

Isso também chegou aos conteúdos, todas as plataformas de streaming e redes sociais, mostram em função dos seus estilos, gostos e histórico de acesso, conteúdos similares.

Para a Tecno-Humanização, aqui começa o perigo.

É perfeito quando o cliente decide o que quer customizar, ele pode receber sugestões, mas sempre é a pessoa que decide.

Quando alguém decide pelo cliente, mostra o que quer escondendo-se atrás de “ofereço o que o cliente quer”, “eu filtro para facilitar para o cliente”, é perigoso.

Quando um corretor de imóveis oferece e diz que um determinado imóvel é ideal pra você, ele está realmente oferecendo o melhor pra você ou o melhor pra ele? O imóvel que mais demora pra vender, o que paga mais comissão…

Quando o gerente do banco te oferece um investimento, ele oferece o melhor pra você ou o melhor pra ele? O investimento que da mais comissão pra ele, o investimento que ele precisa bater a meta de vendas…

No mundo digital provavelmente seja bem pior!

Se alguém me mostra o conteúdo que eu devo consumir, a roupa que eu devo comprar, o que devo comer, está me mostrando o melhor pra mim, baseado em meu perfil, ou o melhor pra ele?

Serve como reflexão e ponto de atenção.

Voltando à customização em massa positiva e sem manipulação, as empresas realmente devem se prepararem para atender os seus clientes de forma customizada e ágil, porque…

A tecnologia matou a padronização.

Imagem: Pixabay

Comprometimento não se compra, se constrói

Este artigo foi publicado no dia 17/09/2019 nos portais R7 e Inova360 e no dia 19/09/2019 no ITforum365

 

Quando o senso de dono é um objetivo e se tenta comprar comprometimento com dinheiro, o resultado a médio prazo costuma ser negativo

Nos últimos anos, muito tem se falado de senso de dono, especialistas em recursos humanos colocando o senso de dono como objetivo a ser perseguido pelas organizações.

Embora tenha vindo com uma nova roupagem este conceito não é novo, há muitos anos é conhecido como “vestir a camisa da empresa”.

Nos casos onde os colaboradores trabalhassem como “se fossem donos”, realmente “vestissem a camisa”, se conseguia um rendimento da equipe muito acima da media.

Nos anos 90, quando as empresas perceberam isso passaram a buscar este comprometimento como forma de melhorar seus resultados.

Estudaram os motivos que levavam a um colaborador a se comprometer e propiciavam todas as condições que isso acontecesse.

E quais eram estes motivos?

Estabilidade, dinheiro e ambição.

Isso era simples de resolver.

Bastava dizer, se o colaborador trabalhar muito, se comprometer realmente com a empresa, terá seu emprego “garantido”, ganhará mais em função da sua produtividade e poderá crescer na empresa.

O problema é que as empresas, nesta época, esqueceram de um pequeno detalhe.

Comprometimento é o ato de comprometer-se com alguém ou com alguma causa.

A palavra tem origem no termo em latim compromissus que significa fazer uma promessa recíproca.

Isto implica que a empresa deveria cumprir sua parte do trato…

Com o crescimento da informática e da automatização industrial, as empresas, em busca de otimização, despediram muita gente (não cumpriram com a estabilidade), pagaram mais somente à alguns colaboradores (não cumpriram a parte do dinheiro) e não promoveram a todo mundo (a ascensão nas empresas era uma pirâmide e não há espaço para todos no topo).

Mesmo sem cumprir com seus compromissos, a empresa insistia em seu discurso usando como exemplo as exceções, os poucos que conseguiam ganhar mais e subir de cargo, e lhes usavam como regra.

Porém, era um preço muito alto a ser pago pela empresa, para cada um que conseguia crescer, havia dezenas ou centenas de pessoas que se frustravam por não ter conseguido.

Neste momento, a estratégia era aumentar a aposta por parte da empresa para seguir com o modelo que tantos benefícios a trouxe.

Era o momento de dizer que: “Se você não conseguiu a promoção, se não ganhou mais dinheiro, é porque não se esforçou o suficiente…”

Muitas empresas passaram do “te pago uma remuneração pelo seu trabalho”  à  “te pago um salário e você me deve a sua alma” e viraram uma máquina de moer carne, de um lado entravam pessoas e pelo outro saiam, uma minoria feliz, porém a imensa maioria se dividia entre frustrados, resignados e doentes.

Ainda nos anos 90 surgiram os workaholics, pessoas que ficaram viciadas no trabalho, que antepunham o trabalho a qualquer outro âmbito da vida, e nesta década os depressivos e ansiosos.

O número chegou a ser tão alarmante que a França decidiu dar um basta a esta escravidão do conectado a qualquer hora em qualquer parte, e em 2017, criou uma lei que obriga as empresas de mais de 50 funcionários negociarem e elaborarem um código de conduta onde se define o horário que fica proibido enviar e receber e-mail, normalmente a noite e finais de semana.

Recentemente, no auge da política fazer mais com menos, o discurso de vestir a camisa voltou, porém com uma nova roupagem, travestido de senso de dono.

As circunstâncias mudaram, no mundo das startups vem acompanhado de, “se nos matarmos de trabalhar podemos virar um unicórnio” – tão possível quanto improvável – e nas empresas tradicionais também mudou, “ou me mato de trabalhar e faço o trabalho de três pessoas ou sou o próximo da lista”.

Eu acredito no trabalho duro, no esforço, na dedicação, porém também acredito que o trabalho deve ser muito mais que um meio de subsistência.

Vamos analisar o conceito de senso de dono desde o ponto de vista da Tecno-Humanização.

Utilizar o senso de dono como ferramenta para alcançar o objetivo de aumento de produtividade é perigoso, por vários motivos.

O primeiro, quando se pede (ou se exige) senso de dono por parte dos gestores e executivos, pode se produzir o surgimento de reino de taifas na empresa, a criação de pequenas facções onde cada executivo olha somente para o seu negócio e da mais importância para a sua parcela que para o todo.

Vou citar apenas um exemplo dos muitos que vivi em minha vida profissional.

Final de ano fiscal, a empresa precisava alcançar os objetivos, o diretor comercial (eu) tinha uma pressão enorme para bater as metas da empresa, disso dependia a continuidade de muita gente na empresa, inclusive a sua.

Fecha-se um grande projeto, é preciso entrega-lo para que se possa faturar e contar para os resultados da empresa.

O fornecedor não entrega os equipamentos porque tem débitos pendentes.

Sabem porque o fornecedor não recebeu seu pagamento?

Porque o diretor financeiro tem objetivos de cash flow, e como é “dono de seu negócio”, reteve os pagamentos.

É sua função velar para que finanças bata suas metas, o pequeno detalhe é que isso faz com que o diretor comercial (e a empresa) não bata a sua.

Este tipo de coisas gera enorme desgastes nas organizações, conflitos de interesses porque tem muitos “donos” de parcelas e poucos (ou nenhum) donos completos.

E já se sabe, cachorro com dois donos morre de fome…

E-mails, ligações, reuniões, escalações, para se chegar a um consenso, enquanto isso, o mercado lá fora correndo solto…

Outro ponto negativo do enfoque a que se da ao senso de dono é que muitas empresas tentam compra-lo.

E a moeda de troca já não é mais o dinheiro, não se consegue comprometimento nem engajamento (palavra mais adequada para os dias de hoje), com o talão de cheque nem com o chicote.

Para atrair e reter talento, para conseguir engajamento é necessário ter um propósito.

Um dos direcionadores mandatório da Tecno-Humanização no nível organizacional é Propósito.

Porém é muito importante entender que o propósito não é definido por uma agência de marketing, como acabou acontecendo com a missão, visão e valores no passado.

Não se trata de uma declaração de boas intenções se não de uma razão de existir real empresa, algo que está dentro dela e deve ser minerado.

Outro ponto importante é que não basta descobrir o propósito da empresa, é necessário conseguir o engajamento de todos os stakeholders a ele.

Para isso não basta um quadro na recepção, uma apresentação do presidente e um e-mail a todos os colaboradores, isso deve ser feito com algumas macro-ações e muitas micro-ações.

A Tecno-Humanização desenvolve este direcionador com muita diligência que se merece, com ferramenta e metodologia específica tratada por especialista. (em breve escreverei um artigo sobre propósito)

Ao final o senso de dono é bom ou não?

A Tecno-Humanização acredita que sim, porém o senso de dono deve ser por engajamento ao propósito e não pelo talão de cheque, coletivo e não individual, isso sim aumenta a produtividade e os resultados.

É fundamental que as empresas entendam que…

Comprometimento não se compra, se constrói.

Imagem: Pixabay
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