O que o meu filho vai ser quando crescer?

Este artigo foi publicado: no dia 12/11/2019 na minha coluna no R7 e no portal Inova360.

 

O futuro das profissões tem sido motivo de grandes debates, e não é para menos

O que você vai ser quando crescer?

Com o intuito de ser simpático e por não saber o que falar, esta é uma pergunta tão recorrente como chata às crianças.

Tenho um filho e já vi muita gente perguntar isso a ele.

Até os 9 anos a resposta era jogador de futebol, depois passou a ser youtuber, mas recentemente ouvi algo que me surpreendeu, ele, com apenas 11 anos respondeu:

Não sei, e não tem como saber ainda, provavelmente eu tenha uma profissão que ainda não foi inventada”.

Embora ele tenha toda razão não é uma resposta comum para uma criança, mas talvez o fato dele me ver e ouvir preparar conteúdos, livro, artigos, palestras, o tenha dado alguma vantagem sobre outras crianças da mesma idade.

Sobre a resposta do meu filho, não há nenhuma dúvida, é exatamente assim. Haverá um número imenso de novas profissões nos próximos anos e muitas das profissões atuais desaparecerão, se não completamente, ao menos da forma como as conhecemos hoje.

Porém, a divergência ocorre quando tentamos quantificar isso, porque, dependendo a fonte que divulga a previsão, a porcentagem de profissões que existirão no futuro e ainda não foram inventadas variam de 60% a 85% e o ano entre 2030 e 2040.

De todas formas, o dado em si não é relevante, e sim o fato de que estamos diante de uma transformação brutal no mercado de trabalho.

Sempre tivemos este tipo de mudança, desapareceram o técnico de máquina de escrever, telefonistas, ascensoristas e surgiram os programadores, web designers e os cientista de dados. O assombro não é pela desaparição ou surgimento de novas profissões, porque isso sempre aconteceu, a questão é a velocidade com que isso está acontecendo e com que ainda vai acontecer nos próximos 30 anos. Serão centenas ou milhares e isso traz consigo diversos questionamentos que ainda não temos resposta e outros que temos a resposta, mas não temos a solução.

O primeiro é que o sistema educativo, os cursos técnicos e as universidades não estão preparadas. A maioria das universidades hoje, em todos os cursos de graduação, ensinam história.

Surge, na verdade aumenta e se acentua, o conceito de multidisciplinaridade – novas profissões que são produto da fusão de profissões atuais. Como exemplo podemos citar o advogado e o engenheiro de segurança digital, que alguns cursos estão fusionando para criar o profissional de direito digital, ou o engenheiro eletrônico que aprende um pouco de medicina (ou vice-versa) para poder desenvolver equipamentos médicos.

Novas profissões como consultor de aposentadoria, analista digital post mortem, gestor de resíduo ou designer de inovação, serão importantes.

De todas formas, é um exercício complexo tentar adivinhar as profissões do futuro, além de nos trazer poucos benefícios. Talvez, o mais inteligente a fazer seja abstrair-se das profissões e concentrarmos nossa atenção nas características fundamentais dos profissionais, independentemente da profissão.

Como pai e como gestor, é nisso que eu estou me concentrando.

Os hard skills, ou seja, o conhecimento formal e técnico sobre uma determinada área, meu filho aprenderá na escola, na internet ou na faculdade (se ela mudar até lá) ou em cursos específicos.

Há alguns anos os profissionais de RH falam em soft skills, e realmente eles são fundamentais e marcam a diferença no desenvolvimento da carreira profissional. Competências como relacionamento interpessoal, comunicação, negociação, produtividade pessoal, e uma longa lista, tem muito mais peso e relevância ao longo da vida profissional do que o conhecimento técnico.

Um bom profissional é formado por hard e soft skills, porém a Tecno-Humanização vai além do profissional e pensa no ser humano de forma integral, criando, assim, o conceito de deep skill.

E por que a Tecno-Humanização se preocupa com isso?

No artigo Empresas humanizadas são mais profissionais, vimos que uma empresa não contrata um profissional, e sim um ser humano.

No livro da Tecno-Humanização descrevemos este conceito em profundidade, porém, podemos trazer alguns pontos que são relevantes para este artigo.

A autoestima, autoconfiança, compaixão, entusiasmo, ética, entre outros, são características fundamentais para qualquer ser humano e, independente da profissão, vitais para as empresas.

Toda empresa, de qualquer setor ou tamanho, hoje depende de inovação. Algum profissional é capaz de inovar sem autoestima e autoconfiança?

O número de empresas humanizadas está crescendo e a necessidade de empresas humanizadas é enorme. Porém, não é possível uma cultura organizacional humanizada sem compaixão.

Profissionais liberais colaborando através de ecossistemas produtivos, baseados em economia colaborativa, tem aumentado e tem se tornado uma tendência. Como empreendedor posso dizer, este modelo não é sustentável sem resiliência e muito entusiasmo.

E, após ver o show de horrores de escândalos e corrupção em nossa sociedade, não há dúvidas que a ética é um valor muito apreciado. As empresas pensam em governança e a Tecno-Humanização vai além, ao dizer que é necessário governança + ética, como descrevemos no artigo Governança não garante ética.

Portanto, é obvio que temos que nos preocupar com o futuro do trabalho dos nossos filhos.

Robôs, Inteligência Artificial vão destruir postos de trabalho repetitivos e não criativos? Sim.

O setor de tecnologia vai criar oportunidades e postos de trabalho? Sim.

A quantidade de postos de trabalho criado será menor que os postos destruídos? Sim.

Temos que acompanhar de perto a evolução do futuro das profissões? Claro!

Os pais e as escolas sempre prepararam as novas gerações para um futuro que seria uma evolução da versão anterior. Desta vez é diferente. Pela primeira vez, estamos preparando uma geração para construir um futuro que não temos a menor ideia de como será.

A única certeza é que não se parecerá em nada ao nosso presente.

Por isso, eu me senti muito orgulhoso da resposta do meu filho, mas se me perguntarem o que eu quero que o meu filho seja quando crescer, a minha resposta será:

Honesto, honrado, entusiasta, compassivo, autoconfiante e ético.

Ah! Querem saber a profissão?

Sei lá…

 

Imagem: Freepik

A tecnologia está para nos servir, não o contrário

Este artigo foi publicado: no dia 09/09/2019 no ITForum365 e no dia 11/09/2019 no portal Inova360.

 

O Japão criou possivelmente a primeira divindade androide do mundo e ela é budista

Androide Kannon Mindar, lembre-se deste nome, porque agora está sendo reverenciado e, em breve, talvez se torne um líder religioso.

A novidade foi lançada em fevereiro deste ano no Templo Kodaiji em Kyoto. O investimento de quase USD 1 milhão para a construção do androide foi uma colaboração entre o templo zen e Hiroshi Ishiguro, professor de robótica inteligente da Universidade de Osaka.

Kannon prega os ensinamentos budistas em japonês e nos telões à sua volta em inglês e chinês para os turistas.

Como entusiasta da tecnologia e especialista em transformação digital humanizada, me chamou a atenção ver um robô em um templo de mais de 400 anos, falando sobre uma filosofia de mais de 2.600 anos para uma cultura muito mais milenar ainda, então eu resolvi escrever um artigo diferente esta semana.

Não vou falar de conceitos da Tecno-Humanização de forma genérica, e sim analisar esta notícia, sem julgamentos.

Vou aplicar a mesma técnica que utilizo em meus treinamentos, vou analisar esta situação como um consultor de tecnologia e depois como um Tecno-Humanista.

Como consultor de tecnologia…

O budismo, assim como a maioria das religiões, filosofias humanistas e espiritualistas estão experimentando um envelhecimento de seus fiéis e uma dificuldade enorme em conseguir o engajamento com as novas gerações.

Diante deste fato, provavelmente um consultor de tecnologia, com a incumbência de retomar o crescimento e engajamento com os jovens, e seguindo a corrente da transformação digital provavelmente pense em aplicar tecnologia para resolver essa questão.

G13-1 v3

Criar um robô, com afeições humanoides para criar empatia, deixar as partes mecânicas expostas para mostrar que é um robô e desta forma consegue-se conectar com os jovens. Colocar uma câmera no olho do robô para “ver” onde estão as pessoas, e desta forma girar, movimentar o tronco, cabeça e as mãos. Usar Inteligência Artificial para aprender e transmitir os ensinamentos de Buda e pronto. Solucionado!

Ah! Por certo, posso traduzir os ensinamentos a qualquer idioma e atender os turistas de qualquer país e desta forma melhorar a experiência do cliente.

Será preciso armazenar os conhecimentos em cloud, melhorar a segurança cibernética para evitar que alguém invada o sistema e possa colocar qualquer tipo de mensagem inadequada nos textos de buda.

Até aqui é o que temos hoje com o androide Kannon Mindar.

Mas um bom consultor, além de criar este projeto, pode inclusive vislumbrar e “vender” a ideia de que os próximos passos seriam:

  • Criar robôs menores, que possam interagir com os leigos, falar com eles, em linguagem natural (e em vários idiomas) e utilizando os módulos de reconhecimento de voz e de imagem, é possível identificar o estado emocional e, somando a análise sintática da fala, o robô poderá escolher o melhor ensinamento para aquele momento.
  • Fazer uma varredura na internet, redes sociais e parceria com grandes bases de dados, somente utilizando os dados públicos ou autorizados, o novo líder espiritual, aplicando big data e analytics poderia ser extremamente assertivo.
  • Vamos mais longe, seguindo as tendências dos modelos de assinatura, se oferece ao cliente um serviço de assessoria espiritual. O cliente autoriza o acesso aos dados privados e paga uma mensalidade em troca de uma solução para seus problemas… o androide poderia se converter em “Buda” (ou “Deus”) na terra com tanta informação.

A nova empresa Budandroidenaterra Ltda precisaria de uma forte governança para evitar que o androide compartilhe segredos de um membro de sua comunidade com outros. E com processos, compliance e governanças fortes, já podem abrir o capital, crescer e dormir tranquilos porque cumprem todos os requisitos exigidos pelos investidores e mercado.

Um momento…

Realmente este é o caminho a seguir?

Agora vamos analisar como um Tecno-Humanista…

Quando li a reportagem pela primeira vez sobre um robô que estava pregando em um templo budista japonês, me chamou atenção

O primeiro que me veio à cabeça foi, “Para o mundo que eu quero descer…“, citando a Silvio Brito (quem tem a mesma quantidade de juventude acumulada que eu, se lembrará)

Levar os ensinamentos de Buda ao mundo, mesmo aos que não são budistas é algo bom?

Eu acredito que sim.

Transmitir ensinamentos que buscam libertar do sofrimento, em minha opinião, é sempre positivo, independente da crença de religiosa de cada um.

Usar a tecnologia para engajar o jovem, para chegar a mais pessoas, para romper a barreira dos idiomas, tudo isso é extremamente positivo.

E usar aplicativos para ajudar e ensinar a meditar?

Válido também!

Criar comunidades virtuais para compartilhar informações e ensinamentos?

Ótimo!

Divulgar os ensinamentos através de e-books, vídeos, podcasts, usar realidade virtual e realidade aumentada para aumentar o impacto de alguns ensinamentos e transportar as pessoas a locais que realmente transmitam tranquilidade e paz.

Fantástico!

Toda essa tecnologia ajuda?

Sim!

Substitui o feeling, a energia e a sabedoria de um monge?

Eu acredito que não.

Dia da apresentação do Kannon Mindar.

Imagens:  Pixabay e Kyoto News