TRANSTORNO DISSOCIATIVO CORPORATIVO

É surpreendente as coisas que vemos cada dia no mundo corporativo.

A falta de coerência entre o que se fala e o que faz é assustadora.

 

Acredito que todos poderíamos dar uma lista de situações onde o chefe ou os colegas disseram uma coisa e fizeram outra, ou pior ainda, a própria cultura da empresa contrariou na prática aquele quadro obsoleto de missão, visão e valores na recepção da empresa.

 

Quantas vezes vimos o auditor de uma certificação qualquer sair pela porta e a empresa continuar trabalhando “como sempre”?

 

Embora isso desanime, desmotive e seja frustrante, não é sobre isso que vamos falar.

 

O Transtorno Dissociativo Corporativo a que eu me refiro é a incapacidade das empresas entenderem o impacto de suas ações na sociedade e na natureza.

 

Vou dar alguns exemplos:

 

TODAS as empresas sofreram com a greve geral dos caminhoneiros de 2018.

Pois é.

Eu já tive a oportunidade de perguntar a alguns empresários e a vários diretores de compras.

Qual foi a sua participação no que aconteceu?

As respostas tiveram um ar de surpresa e em algum caso de indignação:

“Eu? Eu não tenho nada a ver com isso.”

Para as empresas, sem dúvida, a culpa foi da dolarização do petróleo nacional, da má gestão do governo no momento da crise, dos impostos, da inflação, do universo, do lobo mau, do boitatá e assim por diante.

 

Fiz outra pergunta.

Quantas vezes vocês já tinham alcançado o preço objetivo de compra e continuaram pressionando as empresas logísticas?

Silêncio administrativo e olhar de “não fui eu”.

 

Essas pessoas bateram suas metas (ou as superaram), ganharam dinheiro, alguns foram promovidos pela excelente gestão dos recursos e redução de custos.

Porém, isso provoca um efeito em cadeia, automaticamente ao estrangular as empresas logísticas elas fizeram o mesmo com os caminhoneiros.

 

Depois de vários anos com essa política, a bomba explodiu.

As mesmas pessoas que criam o problema (ou ao menos grande parte dele) normalmente são as que reclamam da situação, mas o pior é que eles são incapazes de relacionar uma coisa com outra.

 

Quantas grandes empresas têm reclamado da queda na qualidade do serviço de seus fornecedores. Essa reclamação, em muitos casos está totalmente justificada, porém não percebem que ela é feita minutos após a reunião onde tiveram uma idéia “brilhante” e perversa de criar uma LPU (Lista de Preços Unitários) para lançar ao mercado, que exige prazos de entrega agressivos, multas altas (quase abusivas) quando não se cumprem o que exige estoques reguladores, entregas em todo o país, porém nenhum compromisso de compra nem definem quantos produtos irão para cada estado…

Serio mesmo? Senhores, vocês realmente não sabem porque a qualidade do serviço caiu?

 

Há alguns anos atrás eu dei uma palestra, eu ia doar o dinheiro a uma entidade que trata crianças com lesão cerebral, porém eu estava começando a dar palestras e os valores ainda eram baixos, então minha doação seria apenas de duas cadeiras de roda e a lista de espera da entidade era de 23 cadeiras. Então liguei para alguns amigos que me ajudaram a completar o dinheiro e comprar uma scooter. Fiz uma rifa e multipliquei o dinheiro por 3,5x e conseguimos doar 12 cadeiras.

Eu ofereci a rifa para uma conhecida que trabalhava no departamento de RH de uma grande multinacional. Ela ficou positivamente surpresa, elogiou a atitude e a causa dizendo que era fantástico ajudar quem precisa, principalmente pessoas com necessidades especiais e comprou um número de rifa.

Poucas semanas depois, em uma reunião interna em sua empresa ela comentou ao diretor geral que a eles tinham obrigação legal de contratar pessoas com necessidades especiais, porém, segundo ela, diante do alto custo para contratar e a dificuldade de encontrar as pessoas com o perfil adequado, ela estava fazendo um estudo para saber o que era melhor para empresa:

Contratar pessoas com necessidades especiais ou pagar a multa para o governo, e que provavelmente optaria pela segunda opção.

 

Ou seja, a mesma pessoa, que em sua vida privada acha louvável a iniciativa de ajudar crianças com lesão cerebral quando passa pela porta da empresa, avalia pagar a multa para não ter trabalho para integrar pessoas com necessidades especiais.

 

Eu não tive a oportunidade de falar com ela sobre isso, mas provavelmente ela não relacione uma coisa com outra.

 

Todo mundo quer ter um bom sinal de celular, mas ninguém quer a antena ao lado de casa…

Isso não é possível.

Da mesma forma que todo mundo quer viver em uma sociedade melhor… porém, suas decisões pessoais e profissionais, nos levam no sentido oposto.

 

As pessoas e empresas desassociam suas decisões corporativas do seu entorno e não enxergam (ou não querem enxergar) seu impacto direto na natureza e na sociedade.

 

O astrofísico canadense Hubert Reeves disse:

“O Homem é a mais insana das espécies. Adora um Deus invisível e mata a Natureza visível… sem perceber que a Natureza que ele mata é o Deus invisível que adora”.

 

Eu acredito na coexistência de um mundo fraterno e próspero e por isso criei a metodologia da Tecno-Humanização que une tecnologia e pessoas para transformar profissionais e empresas em organizações rentáveis e conscientes.

 

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