E se já tivermos passado do nosso objetivo?

Este artigo foi publicado no dia 18/02/2020 na minha coluna no R7 e inova360

 

Corremos tanto sem saber pra onde ir, que existe a possibilidade de já termos passado do nosso objetivo sem perceber

Estamos presenciando a loucura de viver em um mundo VUCA, com tecnologias exponenciais que criam modelos de negócios e empresas disruptivas através da transformação digital.

Se você sabe o que esta frase significa e representa, porém, estas expressões não fazem parte de seu vocabulário, não se preocupe, isso só mostra que você não é um papagaio que repete as expressões da moda só para parecer hipster (palavra inglesa usada para descrever um grupo de pessoas com estilo próprio e que habitualmente inventa moda, determinando novas tendências alternativas.

Se você não entendeu a frase, não se sinta um peixe fora d’agua, e fique tranquilo, eu vou te ajudar.

Estamos presenciando a loucura de viver em um mundo volátil, incerto, complexo e ambíguo (VUCA), com tecnologias que surgem, crescem e desaparecem a velocidade de vertiginosa (exponenciais), muitas vezes além da minha capacidade de assimilação. Estas tecnologias promovem um processo que busca melhorar a experiência do cliente, otimiza processos, reduz custo, aumenta a assertividade das empresas substituindo processos manuais por tecnologia digital (transformação digital). Toda essa tecnologia viabiliza novos modelos de negócios que rompem completamente os modelos atuais (disruptivo).

Ficou um pouco mais claro?

Então sigamos em frente.

E por que você precisa saber essas coisas, se você não se dedica a trabalhar com isso?

Por um motivo muito simples, toda essa loucura vai te impactar, vai mexer com você, vai mudar o seu estilo de vida, pessoal e profissional, você querendo ou não.

Então, o mais inteligente é saber o que está acontecendo à sua volta, pra dançar conforme a música, ou se a música não te agradar, trocar de baile.

Com frequência, não saber o que vai acontecer, ou o que está acontecendo, nos provoca ansiedade. Não conseguir acompanhar o ritmo, poderia provocar ou acentuar sentimentos depressivos.

A sensação de não pertencimento a um movimento tão forte de transformação é horrível. Por isso, muitas vezes jogamos o jogo, sem saber o porquê, nem para quê, estamos fazendo o que fazemos.

A principal característica do efeito manada é correr na mesma direção e sentido dos que estão a minha volta. Temos muito arraigadas crenças que nos foram transmitidas em nossa infância.

“Quem bate primeiro, bate duas vezes.”

“Quem chegar por último é a mulher do padre.”

E assim por diante.

Temos que correr, correr, correr e correr.

Só que ir a velocidades muito altas oferece inúmeros perigos.

Não nos dá tempo de planejar corretamente o percurso e podemos errar a rota.

Não temos tempo de desfrutar da viagem. E, o pior de tudo, muitas vezes não sabemos pra onde estamos indo, só vamos.

Saber o destino, nosso objetivo, é fundamental para traçar a rota adequada.

E se já tivermos passado do nosso objetivo?

Cada vez mais isso tem acontecido.

Tenho conversado com pessoas que correm tanto que ultrapassam seus objetivos e nem percebem. Correr virou fim e não meio.

Mas passar do ponto de freada tem riscos e consequências graves.

Um deles é chegar ao fim da vida, cansados, esgotados, olhar à sua volta e não entender o porquê nem para quê estão ali.

Chegar a um destino que não é o seu, olhar pra trás e ver que sua vida foi pequena, que a única coisa que você fez foi correr.

Ou então, viver uma vida à velocidade maior do que a necessária, provocar acidentes, chocar-se com obstáculos e tomar um susto desnecessário a cada momento.

Sim, é filosófico e transcendental questionarmos qual é o objetivo de vida, qual o legado quero deixar, para que faço o que faço, vale a pena fazer o que faço.

E o principal, por quem eu faço tudo isso?

São essas perguntas que, ao correr tanto, não temos tempo de responder.

E se não paramos para isso, sabe quando as faremos?

Normalmente em um leito de hospital.

Quem nunca viu uma pessoa que, após ter um infarto ou ser diagnosticado com câncer, mudar completamente seu estilo de vida?

Normalmente, essas pessoas passam a dedicar mais tempo à família, se alimentam melhor, praticam atividades físicas, desfrutam da natureza, desvirtualizam os encontros, abraçam, beijam e dizem “eu te amo” com mais frequência.

Realmente é preciso esperar tomar uma pancada deste tipo para entender isso?

Não importa o quanto você corra, o quanto você saiba dos termos da moda do início do artigo. Ao final, tudo o que fazemos é por e para o ser humano, sempre.

Podemos sair, correr, acelerar, isso tudo faz parte do contexto e do momento, mas sempre sabendo pra onde ir, e principalmente, pra onde voltar. Revisitar a essência, nunca se distanciar mais do que o necessário da nossa fonte de energia vital, e voltar ao básico sempre, porque é lá onde sempre esteve, e sempre estará, o que buscamos.

 

Imagem: Pixabay

Qual será a comida do futuro?

Este artigo foi publicado no dia 28/01/2020 na minha coluna no R7 e no inova360

 

Cápsulas, shakes, impressora 3D, Robô cozinhando, enfim, são muitas opções que a tecnologia nos traz. Mas faz sentido?

Nas últimas feiras de tecnologia e inovação, sempre há um grande espaço reservado para a gastronomia.

O maior ativo de uma pessoa hoje é o tempo, ninguém tem tempo pra nada, ou ao menos é isso que a maioria das pessoas dizem. Ninguém tem paciência pra nada, todo mundo estressado, enfim…

Portanto, seguindo a linha de pensamento de muitas escolas de negócio e empreendedorismo, que uma startup deve curar a dor do cliente (eu não estou de acordo), as startups enxergam nesta dor uma oportunidade e se colocam mãos-a-obra.

E surgem diferentes vertentes no mercado para resolver isso.

Há um grupo que surge da evolução da indústria de suplementos. Com o aumento da longevidade do ser humano, é necessário tomar suplementos vitamínicos, porque não estamos biologicamente preparados para viver tanto tempo sem ajuda da tecnologia.

Surfando essa onda, algumas empresas, como a Ocean Droop ou como Koz Susani Design, em seu projeto Just Add Water, estão trabalhando nas “comidas de astronautas”, transformando alimentos, de forma concentrada, em pílulas.

Outra linha segue por robotizar a elaboração das comidas, desde de soluções como a da empresa brasileira Bionicook, que criou a primeira rede de fast food 100% automatizada do planeta, capaz de preparar lanches on demand, feitos na hora sem intervenção humana, ou até uma solução mais gourmet como a Moley Robotics que criou braços robóticos capazes de fazer receitas que são introduzidas em sua plataforma.

Um grupo de pesquisadores estão apostando em impressoras 3D capazes de “imprimir” comida.

Já temos impressoras que imprimem pizza, doces, mas, nesta linha, o projeto que mais me chama a atenção é o criado pela designer de alimentos Chloé Rutzerveld, que criou uma impressora 3D que imprime uma base de carbo-hidrato e nela plantou vegetais e cogumelos, criando um ecossistema comestível.

Com tanta tecnologia os restaurantes tradicionais estão buscando formas de inovar e manter o seu espaço.

Temos restaurantes embaixo do mar nas ilhas Malvinas (Ithaa Undersea Restaurant) ou no céu, a 50 metros de altura, sustentado por um guindaste, como o projeto Dinner in the sky, que surgiu na Bélgica e já está em mais de 40 países, inclusive Brasil.

Outros restaurantes inovam no modelo de negócio, como o Benihana, que conheci como estudo de caso no meu MBA antes mesmo de ver o espetáculo oferecido pelo chef em uma mesa em U. Para quem ainda não conhece, vale a pena ver o chef de cozinha fazendo acrobacias e preparando sua comida na sua frente. Também tem restaurantes que permitem que você possa cozinhar, como o Tantra, em São Paulo, ou trazer os ingredientes para que o chef cozinhe pra você.

Enfim, diferentes modelos, alguns são variações dos modelos atuais outros muito futuristas, que reduzem o prazer de comer e, principalmente, a importância das refeições familiares a uma capsula.

Eu já tive duas ou três conversas sobre isso com uma pessoa que está convencida, ou abduzida, que o futuro da comida está em shakes, que ela vende em espaços denominados EVS, Espaço de Vida Saudável.

Segundo ela, esta “refeição” que inicialmente só tinha o objetivo de ajudar as pessoas a emagrecerem, agora tem muita tecnologia por trás e se converterá na comida do futuro. “Não temos mais tempo para cozinhar, nem fazer refeições longas, temos que produzir”

Produzir o quê?

Para quê e para quem?

Sim, claro que temos que produzir, mas não podemos esquecer a importância da gastronomia na história da humanidade e na cultura dos povos. Não é possível entender uma cultura de um país sem considerar sua gastronomia.

Uma capsula pode conter todos os nutrientes e suplementos necessários para a saúde (sempre com acompanhamento profissional) ou um shake pode até ser uma solução temporária para eliminar peso.

Mas eles jamais conterão as memórias afetivas, o cheiro e o sabor da comida dos domingos na casa da avó. Aquele bolo feito com muito mais amor que ingredientes. As risadas das primeiras receitas de recém-casado que não deram certo. As longas conversas em família aos domingos, ou os jantares em família onde contamos como foi o nosso dia.

Tudo isso faz parte de algo que vai muito além da alimentação do corpo. Me permitam contar uma história pessoal.

Em 2007, eu morava em Madri, minha esposa estava grávida do nosso segundo filho, e teve alguns problemas que nos impediu viajar nas férias de verão daquele ano.

Eu tinha que buscar atividades para fazer com a minha primogênita de 10 anos naquele longo período de férias escolares.

A ideia veio rápido, eu já cozinhava com ela quase todos os finais de semana, era uma atividade pai & filha. Escolhíamos receitas, íamos comprar os ingredientes e cozinhávamos. Depois, oferecíamos os pratos à minha esposa.

Busquei um curso de culinária para pais e filhos e não encontrei. Depois de muito insistir, convenci uma escola a criar um. Eles criariam as aulas, baseadas nas receitas do chef inglês Jamie Oliver (minha filha era fã) e eu me encarregava de trazer pais e filhos para o curso. Convenci meu chefe, colegas de trabalho, amigo, e conseguimos viabilizar o curso.

Durante 8 sábados, das 11h às 13h tínhamos aula, cozinhávamos e depois almoçámos o que havíamos feito. Minha filha, hoje adulta, se lembra de tudo com muito carinho. Além de cozinhar, passamos tempo juntos, aprendemos, acertamos, erramos, enfim, vivemos.

Sim, a tecnologia está à nossa disposição para nos servir, ajudar na correria do dia a dia, mas não podemos permitir que ela substitua parte da nossa cultura e de nossas vidas.

Ah! O meu segundo filho, aquele da gravidez complicada, já tem 12 anos e faz um risoto de queijo brie com presunto de parma delicioso!

 

Imagem: Pixabay