Diga-me como me medes e te direi como me comportarei

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SANTOS (CSO): Fala pessoal!

Tudo bem?

Hoje o José vai participar da reunião com a gente.

Para quem não conhece, ele é o assistente pessoal do Alex.

José, tudo o que conversarmos aqui é confidencial, OK?

Você não deve dizer nem pro Alex.

Posso confiar em você?

JOSÉ: Mas Seu Santos, ele é meu chefe e dono da empresa.

SANTOS (CSO): Sim, José, mas para a empresa funcionar, nós temos que fazer certas coisas e o Alex não precisa saber todos os detalhes. Ele confia em mim e tem muita coisa na cabeça.

Além do mais, não estamos enganando o Alex, ele já foi diretor comercial, sabe como funciona e tudo o que acontece aqui.

Então? Tenho a sua palavra que você não vai comentar nada sobre essa reunião?

JOSÉ: Se é assim, então o senhor tem a minha palavra.

 

Santos fez José assumir o compromisso publicamente de não contar nada porque sabe que o José dá muito valor à palavra.

SANTOS (CSO): Pessoal, antes de começar a reunião de forecast eu queria atualizá-los.

A reunião com os gringos foi um sucesso! Eles vão investir em nossa empresa, por isso, queria agradecer por terem dado aquela inflada nas oportunidades.

A nossa previsão de vendas foi importante na decisão dos compradores. Obrigado e parabéns a todos!

Agora…

Tem um ponto que eu preciso comentar. Eles incluíram uma cláusula no contrato que impõe que, se não cumprirmos pelo menos 80% da previsão de vendas, eles retiram o investimento.

Então, vamos ter que cumprir de qualquer jeito!

VENDEDOR 1: Mas isso significa quase 40% a mais do nosso target!!! E isso que a nossa cota já era de crescimento.

SANTOS (CSO): Eu sei e você tem razão. Mas eu já estou trabalhando nisso. Agora com a entrada dos investidores, nós de vendas seremos medidos somente por vendas e o Alex, mesmo sendo o dono, vai ser medido pelo conselho por EBITDA.

Então eu tive uma ideia, vamos poder dar condições especiais de pagamento, porque os juros vão abaixo do EBITDA e não nos prejudica, nem prejudica ao Alex. Depois eu vou alinhar isso com ele.

VENDEDOR 2: O Alex sabe que inflamos a pipeline?

SANTOS (CSO): Não! A filosofia da empresa é que cada diretor tem que administrar o seu negócio como se fosse seu, então eu fiz o que tinha que ser feito.

Se você não pode vender resultado de hoje, venda expectativa de futuro!

VENDEDOR 3: Mas isso me matou Santos. Esse ano eu não vou cobrar bônus. Nos dois últimos anos eu alcancei 130% e 145% da meta, e como os crescimentos do ano seguinte são sempre em cima dos resultados alcançados, se somarmos esse aumento dos gringos, a minha meta passou a ser quase 4x a que eu tinha há dois anos. É impossível!

SANTOS (CSO): Pode ser que esse aumento dos gringos tenha complicado um pouco as coisas, mas complicou para todo mundo, não foi só para você.

De toda forma, vou revisar os números e se eu vir alguma injustiça muito grande, eu ajusto.

Agora vamos revisar as oportunidades porque eu tenho que apresentar o forecast ainda esta semana.

José estava sentado ao lado de Janaína e, à medida que ela colocava em uma planilha os valores que cada vendedor dizia que iria fechar aquele mês, a planilha calculava um valor diferente, que não coincidia com a soma das oportunidades daquele vendedor.

Ao terminar a reunião, José procurou Santos.

JOSÉ: Sr. Santos! O senhor tem um minutinho?

SANTOS (CSO): Tenho sim. Pode falar.

JOSÉ: O senhor me desculpa me intrometer, mas acho que tem um erro na planilha da Janaína. As somas não estão corretas.

SANTOS (CSO): Impossível José. Eu e a Janaína desenvolvemos essa planilha há muitos anos e vamos aprimorando ano a ano.

Sabe José, a parte mais importante do meu cargo é a previsibilidade. Quando eu dou um forecast eu cumpro (a qualquer preço). Isso me dá credibilidade e tudo isso graças a essa planilha.

A Janaína é mais importante que os vendedores.

JOSÉ: Seu Santos, o senhor vai me desculpar, mas quando um vendedor dizia que ia fechar a oportunidade A, B e C, e a soma das 3 dava 500 mil, a planilha colocava 420. E tinha outro vendedor que dizia que ia vender 700 e a planilha colocava 800. Tá errado!

Santos dá uma gargalhada bem alta!

SANTOS (CSO): Ah! É isso? Não se preocupe, está certo sim.

Sabe José, isso faz parte da minha inteligência de negócio e da equipe. Tem vendedor que é otimista, mas não costuma cumprir o forecast, tem outros que guardam coisas na manga para não se comprometerem com números mais agressivos, mas no final sempre cumprem. Então, como eu e a Janaína conhecemos bem cada um, colocamos um fator de correção sobre o forecast de todos. Entendeu?

JOSÉ: Acho estranho, mas entendi sim senhor. Eu acho que seria melhor que, ao invés do senhor e a Janaína inventarem uma fórmula para traduzir o que os vendedores querem dizer, que ôceis ajudem os vendedor a fazer as previsão corretamente, não seria?

SANTOS (CSO): Em teoria sim, mas, se eles aprenderem a fazer as previsões corretamente, a inteligência do negócio estará com eles e não comigo. Aí, qualquer diretor comercial serve. Da forma que está hoje, não vale nenhum diretor comercial, tem que ser eu.

E de resto? O que achou da reunião?

JOSÉ: Eu fiquei com uma dúvida. O vendedor 3 disse que ele bateu a meta e, como todo ano ceis têm que crescer, a cota dele aumenta a cada ano. E quem não bate a meta acaba tendo uma cota menor, porque ela é calculada sobre o resultado do ano anterior.

SANTOS (CSO): Mais ou menos. Quem não bate a meta, não fica para o próximo ano. Mas a vezes temos exceções.

JOSÉ: É assim que vocês incentiva o vendedor que faz um bom trabalho? Quem bate a meta tem cota maior, quem não bate tem cota menor. Mundo doido esse d’oceis .

Outra coisa, esse negócio que o senhor falou aí de baixar preços, aumentar a forma de pagamento, pra poder cumprir as metas de vendas, não prejudica a empresa?

SANTOS (CSO): Eu sou pago para vender José. A parte financeira é com Fábio. Ele que se vire. Mas como eu comentei, os juros vão depois do EBITDA, e isso não prejudica.

Sobre os descontos, sim, impactam um pouco a rentabilidade, mas pelo menos mantemos as vendas e a roda continua girando.

Se o lucro baixar, ano que vem a gente reestrutura, corta custo, como todos os anos, e vida que segue. Pelo menos, eu garanto mais um ano meu cargo e da minha equipe.

E agora, com a chegada dos gringos, eu tenho que bater a meta sim ou sim, porque eu quero chegar a VP de vendas do grupo ou até quem sabe ocupar o lugar do Alex se ele for para outro cargo…

JOSÉ: Entendi. Até logo, Seu Santos.

José sai pensativo, refletindo sobre o que viu hoje…

Os vendedores mentem pro senhor Santos e ele sabe disso.

O senhor Santos mente pro senhor Alex e ele sabe disso.

Quem bate a meta, tem cota maior no próximo ano.

Quem não bate a meta, tem cota menor no próximo ano.

O senhor Santos vende mais barato para bater sua meta, mesmo sabendo que isso vai significar que muita gente vai perder o emprego ano que vem. Mas ele pensa de verdade que isso é o melhor para a empresa.

Enfim, eu não consigo entender a lógica desse mundo corporativo…

Mas tem uma coisa que ficou clara para mim.

Diga-me como me medes e eu te direi como me comportarei! *

 

* Frase de Eliyahu M. Goldratt no livro A meta

 

 

Imagens: BE&SK

O teatro das visitas internacionais

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ALEX (CEO): Boa noite a todos!

Agradeço a todos o esforço por terem assinado o NDA urgente e terem se conectado em uma sexta-feira à noite, mas o pessoal da Leech Investment antecipou a reunião para a próxima semana, portanto vou precisar de um esforço de vocês.

Teremos que trabalhar no final de semana para preparar tudo.

Claudio (CHRO), preciso que você envie um comunicado a todo mundo que é preciso limpar as mesas e deixar tudo ordenado.

A reunião é na quinta, portanto, quero que o pessoal da limpeza deixe tudo perfeito entre terça e quarta.

Pede para o pessoal de facilities revisar se está tudo funcionando, se tem lâmpada queimada etc, para mostrar que nos preocupamos com o ambiente de trabalho.

Santos (CSO), no final do dia quero organizar um jantar com 3 clientes importantes. Precisam falar inglês e, principalmente, ser amigos. Tem que ser clientes satisfeitos e que falem bem da gente.

Vamos apresentar o pessoal como um parceiro sem abrir qual é o projeto. Quero que eles vejam que temos a capacidade de mobilizar presidentes de empresas grandes, e que essas pessoas também deem uma visão positiva do mercado brasileiro.

Garanta que esse pessoal fale bem gente e da economia.

SANTOS (CSO): Alex, eu não tenho como garantir isso. Se fosse o nosso interlocutor habitual, eu até poderia pedir, mas para o presidente da empresa… Não temos essa abertura.

ALEX (CEO): Então dá uma olhada nas redes sociais e nas últimas entrevistas e escolhe em função do “discurso”.

Fábio (CFO), preciso dos números atualizados amanhã. Quero uma relação dos indicadores nos quais estamos bem, porque estes irão primeiro e em negrito na apresentação. Os que não estivermos bem, colocamos bem pequeno, ou até, se possível nem incluímos. Se tiver algum indicador ruim que seja obrigatório, quero 3 argumentos para justificá-lo e iniciativas para corrigi-lo. Inclusive, acho importante colocar 1 ou 2 indicadores que não estão indo tão bem para não parecer tudo muito perfeito.

Pessoal, como mensagem geral: Não quero nada falso, todos os dados reais e as informações precisam ser reais. Somos uma empresa séria, mas também somos inteligentes. Vamos mostrar o quê e como nos interessa. Este projeto é muito importante para nós e, por isso, temos que impressionar os gringos.

Felipe (CMO), você vai ficar com uma parte pesada do trabalho.

Pelo NDA, você é que terá que consolidar a apresentação para os investidores. Quero um template bem bonito.

Inicialmente, eu havia pensado em fazer a reunião no hotel, mas, acho bom que eles vejam a empresa.

Por isso, quero que você faça alguns cartazes e adesivos simpáticos, com palavras ou frases motivacionais e os coloquem pelo escritório, para mostrar que o ambiente é moderno.

Na terça pela manhã, quero fazer uma revisão com todos da apresentação já consolidada.

Nessa reunião, após revisar e validar o conteúdo, vamos decidir quem deve apresentar cada parte.

Assim mostramos que somos uma equipe, um bloco coeso.

Santos (CSO), estava me esquecendo, segunda, na sua reunião de vendas, eu quero que você revise a pipeline ‘oportunidade por oportunidade’. O seu pessoal fez o que nós pedimos há três meses?

SANTOS (CSO): Fizeram sim, e na segunda eu reviso tudo.

ALEX (CEO): Ótimo! José, aproveitando, quero que você participe da reunião do Santos na segunda.

É importante você ver a parte comercial da empresa, de onde vem nosso dinheiro.

Pessoal, eu estarei disponível durante todo o final de semana. Se não me localizarem, liguem pro José e ele me acha.

Valeu time! Vamos trabalhar!!!

Essa é a reunião mais importante das nossas vidas.

 

Na manhã seguinte, durante a caminhada…

JOSÉ: Seu Alex, posso fazer uma pergunta?

ALEX (CEO): Claro! Diga.

JOSÉ: Por que essa reunião com o gringo é tão importante?

ALEX (CEO): Eu quero ampliar o meu negócio, precisamos crescer rápido e quero comprar três empresas em um ano. Minha organização não tem os recursos para estas aquisições e esta empresa de fora, que é um fundo de investimento, pode colocar o dinheiro e virar meu sócio.

JOSÉ: Entendi. E eles vêm para conhecer a empresa?

ALEX (CEO): Não, estamos conversando com esta operação há mais de um ano, buscando e avaliando companhias no mercado. Com o fundo estamos conversando há pouco mais de 6 meses. Eles vêm para a última apresentação e, se gostarem, vão fechar o negócio.

JOSÉ: Então, se eles fecharem o trato com o senhor, eles serão sócios da empresa?

ALEX (CEO): Sim e não. Eles terão participação, mas eu terei o controle acionário. Além de ter a maior parte das ações, continuo como CEO e vou ser presidente do conselho.

JOSÉ: Não sei muito bem o que significa isso, mas o senhor lembra quando a gente foi almoçá e o senhor falou que não gostava de redes sociais?

ALEX (CEO): Não me lembro exatamente o dia, mas é verdade. Não gosto mesmo, é tudo de mentira.

JOSÉ: Então, aí mesmo que eu queria chegar. Ontem na reunião, o senhor deu ordem para todo mundo organizar a reunião com os gringo.

Pediu para eles fazerem um monte de coisas que não fazem normalmente, pediu para apresentarem uma empresa que não é a empresa do senhor.

Isso também não é um teatro? Não é falso?

ALEX (CEO): Imagina! Não tem nada a ver. Eu não pedi para mentirem nos números, até falei explicitamente que não queria nenhuma mentira.

JOSÉ: O pai pintava a cerca quando estava feio. Arrumava a porteira quando quebrava, tratava outras coisas para manter tudo em ordem e evitar que elas quebrassem. Limpava a casa do senhor toda semana.

Por exemplo, ele fazia isso o ano inteiro, porque era o certo, não só quando o senhor ia pro sítio.

ALEX (CEO): Mas nos negócios, as aparências são importantes. O jogo cênico nas negociações é fundamental.

Um dia você vai aprender.

JOSÉ: Brigado Seu Alex, mas eu não quero aprender isso não.

La na roça, as pessoa que vivem de aparência não são bem vista não senhor.

Tinha uma família que gostava de viver de aparência, que era muito falada.

Eles compravam o que não precisavam, com um dinheiro que eles não tinham, para mostrar para quem não importava.

Frase extraída do livro “Aprenda a criar riqueza sem gerar miséria com a Tecno-Humanização”

ALEX (CEO): Você está confundindo vida pessoal com mundo corporativo.

JOSÉ: Tô não Seu Alex, a gente é um só. Se somos verdadeiros e transparente, temos que ser dentro e fora da empresa, porque quem é falso, com certeza é dentro e fora. E a forma do senhor combater os fingido da empresa é sendo verdadeiro.

ALEX (CEO): Era só o que faltava. Me chamou de falso e agora fala que na minha empresa tem gente hipócrita.

A minha equipe é fiel e leal, estamos juntos há muito tempo e não tem ninguém falso.

 

José usou um tom mais ríspido.

JOSÉ: Desculpa Seu Alex, não quis ofender ninguém. Não tá mais aqui quem falou…

 

Imagens: BE&SK

Sentido de urgência ou de pressa?

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JOSÉ: Bom dia, Seu Alex!

Só queria avisar o senhor que eu já recebi aquelas informação que o senhor pediu para os diretores. Só falta o Santos (CSO) pra entregar, mas ele me falou que manda agora de manhã. Ele não conseguiu mandar antes porque disse que tava vendendo e não tinha tempo.

Eu já vou começar a juntar tudo como o senhor pediu e, assim que receber a parte do senhor Santos, eu mando para o senhor. Só espero que ele me mande mesmo.

ALEX (CEO): Tranquilo José, ainda temos tempo. Me entrega quando terminar, sem pressa. Mas não conta para ninguém…

JOSÉ: Ué, não era urgente? O Seu Breno falou que fez na hora do almoço dele e a Dona Rosa fez ontem à noite.

ALEX (CEO): Relaxa, eles choram demais. E cá entre nós, o Breno precisa mesmo emagrecer.

Mas só para você saber, eu sempre peço com antecedência, aperto o pessoal, senão, não sai.

Sabe José, vou te ensinar uma coisa.

Tem um escritor americano que já escreveu mais de 20 livros e é professor emérito em Harvard, uma das universidades mais importantes do mundo e ele escreveu um livro que fala sobre o sentido de urgência.

A maioria das pessoas não tem o sentido de urgência, vão fazendo as coisas no ritmo que dá… e isso é coisa de medíocres e perdedores.

A mensagem que ficou para mim, a partir da leitura do livro, é que precisamos criar um sentido de urgência na empresa. Ou seja, tudo tem que ser “pra ontem” e fazer com que as pessoas desenvolvam isso, porque aqui somos vencedores e queremos estar alinhados com as técnicas de gestão mais modernas.

 

José fica pensativo…

JOSÉ: Mas se alguém perguntar sobre o relatório final e ele ainda não estiver pronto?

ALEX (CEO): Eu falo que estamos trabalhando nisso e logo desvio o assunto para outra coisa mais urgente e com maior prioridade.

Ninguém me fala nada.

Eu sou o CEO e dono da empresa.

JOSÉ: Então  né? Se o senhor tá dizendo que é assim…

ALEX (CEO): Bem, agora preciso que você corra atrás da assinatura dos NDA dos diretores para a reunião com o investidor.

Você já mandou para eles?

JOSÉ: Já sim, senhor! O senhor falou que era urgente, então mandei pelo sistema.

ALEX (CEO): Boa! Mas neste caso é urgente mesmo. Preciso que você vá de mesa em mesa pedindo que assinem, porque eu vou convocar uma vídeo urgente, para falar sobre a preparação da reunião com os investidores.

E se prepara que os gringos anteciparam a reunião para semana que vem e vamos ter que trabalhar no final de semana.

JOSÉ: Podexá

 

No caminho de volta para casa…

ALEX (CEO): José, dando continuidade aos seus ensinamentos e à conversa que tivemos hoje pela manhã sobre o sentido de urgência. É importante que você saiba que vivemos em um mundo exponencial, que tudo vai muito rápido, e, como eu sempre digo, precisamos estar alinhados com as melhores práticas do mercado.

Uma empresa moderna tem que ser ágil.

Lá no campo o ritmo é outro, vocês são lentos, muito devagar. Aqui precisamos de aceleração máxima, José!!! Rsrsrs

Entendeu?

JOSÉ: Ah! O sítio… Mas não se preocupe, eu entendi sim, senhor.

 

José suspira com um ar de nostalgia…

ALEX (CEO): Que foi? Deu saudade do sítio?

JOSÉ: Deu sim! Mas eu estava aqui pensando e fiquei com dó da Estrela e do Dourado. Ainda bem que eles vive lá.

ALEX (CEO): Quem são Estrela e Dorado? Imagino que sejam animais.

JOSÉ: São sim. A Estrela é a minha égua e o Dorado era o cavalo do pai. Todo mês a gente ia tomar banho de cachoeira. Era o nosso dia juntos. A cachoeira ficava meio longe, a gente pegava um dia de semana e passava o dia lá, ia de manhã e voltava à tardinha. Sábado e domingo não dava porque fervia de gente.

Tinha parte do caminho que a gente galopava, era plaino e a gente apostava corrida, era gostoso o vento no rosto. Mas tinha um lugar que a gente ia ao passo, atravessando o sítio do Seu Merivaldo. Oh homi caprichoso ! Na ida, a gente ficava olhando do lado direito da estrada, ele tem uns animal lustroso, uns cachaço que da gosto de . A mió panceta do mundo é a dele, eu o pai parava na volta e comprava panceta, lombinho e choriço pra gente assá uma carninha especial.

Na volta, a gente passava bem devagar pra olhar o outro lado da estrada, a muié do Seu Merivaldo tem umas flor bunita demais. Ela é bem caprichosa, que nem ele.

E a plantação ficava bem na direção do pôr do sol. As veiz, se tinha tempo, a gente parava só pra vê o pôr do sol daquele lugar, com a flor e as planta dela na frente. Parecia um cartão postal.

A mãe era amiga dela, e quando ela era viva, ela ia com a gente e parava lá e passava o dia com a Dona Cleide, cuidando das planta.

Depois, a gente apertava o passo e galopava de novo.

ALEX (CEO): Muito bonito isso José, ter esse costume de passar um tempo com seu pai e sua mãe. Mas não entendi, por que você falou que ficou com dó dos cavalos?

JOSE: Lá a gente aperta quando precisa apertar, galopa quando precisa galopá, mas trota ou vai ao passo quando pode ir.

Sabe Seu Alex, a cachoeira era bonita, mas o melhor do passeio era a viagem. Apostar corrida com o meu pai, ver as flores da Dona Cleide, ver o pôr do sol, passar pelos pinhero, sentir os cheiros, observar os passarinho, tudo isso faz parte do caminho.

Aqui, com esse tal sentido de urgência, cêis num presta atenção na viagem, só importa chegar antes no destino.

Se a Estrela e o Dorado trabalhassem aqui, iam ter que galopar o tempo todo, em pouco tempo eles se machucariam ou morreriam por esgotamento. Tudo bem, o senhor compraria outro cavalo pra substituir, mas isso é triste.

Na natureza, quando se acelera se perde a paisagem, e na vida, quando se acelera demais se perde detalhes que são o melhor da vida.

O que vocês perdem acelerando tanto?

Será que não estão perdendo alguma fase importante do desenvolvimento do produto ou do negócio?

As veiz as pessoa confunde ter urgência com ter pressa, ser ágil com atropelar tudo, e isso não é bão não.

 

“Não é por muito madrugar  que amanhece mais cedo”.

Provérbio popular

 

 

Tudo que puder ser feito mais rápido é melhor, mas tem coisa que tem que esperar o tempo certo.

Essa história do senhor pedir tudo urgente as pessoa num gosta não. Elas pode não falar nada pro senhor, mas que elas pensa… elas pensa.

Ninguém gosta de ficar sem almoço, trabalhar à noite ou no final de semana pra nada…

O senhor vai desmotivar o povo, ou vai deixar eles doente que nem o senhor deixaria a Estrela e o Dorado…

 

 

 

Imagens: BE&SK

Responsabilidade além dos muros da empresa

 

ALEX (CEO): Bom dia, pessoal!

Seguindo a nossa política de otimização na gestão e de seguir as best practices do mercado, muitos de vocês têm me apresentado projetos para melhorar as áreas de cada um.

Porém, em nossa última revisão de resultados recebemos uma lição do José por tratarmos as coisas de maneira segmentada. E, nesta mesma reunião, o Cláudio comentou que o nosso turnover é alto. Então, eu preciso urgente que vocês me mandem um documento com os seus projetos e planos e o impacto que isso terá em nossa gente.

 

José olha assustado para Alex.

JOSÉ: Que eu fiz o quê, Seu Alex?

ALEX (CEO): Nos deu uma lição José. E depois que você me falou sobre humildade intelectual.

Confesso que fiquei um pouco bravo com você naquele dia, mas depois percebi que você tinha razão e decidi ouvi-lo e vou analisar o impacto  que nossos investimentos terão nas pessoas.

JOSÉ: Desculpa se eu zanguei o senhor.

ALEX (CEO): Imagina, eu te agradeço.

Vamos lá, preciso desse documento até sexta.

FABIO (CFO): O famoso depois de amanhã…

ALEX (CEO): Isso mesmo, Fábio.

O objetivo desse trabalho é ver quantas pessoas vamos recortar o ano que vem.

Porque eu entendo que todos esses projetos que vocês estão trabalhando vão supor uma redução de pessoas, não?

SANTOS (CSO): Não necessariamente, Alex.

No meu caso, eu estou trabalhando com o Felipe (CMO) para melhorar nosso go-to-market*, mas, para conseguir o crescimento que você pediu, eu preciso de mais vendedores.

Vamos investir em sistemas de prospecção e inteligência de mercado e precisamos de braços depois para utilizar as informações e contatos gerados.

ALEX (CEO): O seu caso é diferente, pois dependemos de vendas para viver e, por isso, parte do “vamos recortar de outras áreas” podemos dedicar aqui.

Agora,  nos outros setores eu entendo que vai reduzir muito o número de pessoas.

Colocar tanta tecnologia é para melhorar a assertividade, disponibilidade, alcance e reduzir custos, principalmente o de pessoal.

Não se preocupem com o formato, porque nós vamos consolidar as informações.

Claudio (CHRO), assim que tivermos uma foto geral eu quero que você prepare um plano pensando em 3 coisas.

       1. Plano de demissões:

  • Preparar um PDV** com incentivos para que as pessoas possam ficar em casa com os filhos pequenos. Assisti a um documentário e vi que na Suécia o governo paga 16 meses de licença maternidade. Não vamos pagar as mães todo esse tempo, mas veja quanto tempo conseguimos ajudar.                                                                                                                                                                                                                                                                                  Vamos parecer uma empresa nórdica e moderna.                                                                                                                                                                                                                                                                                          Rosa (CLO), veja se tem como bloquear o recurso para elas não receberem o dinheiro e, no dia seguinte, irem para o nosso concorrente.
  • Quem não entrar no PDV, sem problemas. Vamos pagar todos os direitos, tudo o que corresponde sem fazer nenhuma engenharia…                                                                                                                                                              Nos preocupamos com as pessoas.

      2. Vocês devem passar a lista dos low performance que vamos “promover ao mercado”.

      3. Dos que ficam, quais vocês querem reciclar ou quais perfis teremos que contratar para utilizar as novas tecnologias que vão ser implantadas.

 

FABIO (CFO): Alex, muito bonito esse desejo de Bom Samaritano, mas você precisa parar de ver documentários noruegueses.

ALEX (CEO): Sueco.

FABIO (CFO): Dá na mesma. Isso funciona lá, aqui, se quisermos convencer os investidores o mês que vem, precisamos ter um resultado extraordinário. Só que se dermos dinheiro para o povo ficar em casa às nossas custas, não vamos conseguir.

Outro ponto, isso de reciclar, gastar dinheiro com curso é loucura.

Mandamos embora o pessoal mais antigo, nos livramos do passivo trabalhista e contratamos essa molecada que vem voando pela metade do preço. Como fizemos a vida toda…

Além do mais, agora chegou a minha hora de fazer o que fizeram comigo.

Tive um chefe que me falava: “Vou te pagar meio salário deste cargo porque você trabalha só meio período: 12 horas!!!” 

rsrsrsrsrs

 

Mais da metade deram risada da “piadinha”…

FELIPE (CMO): Nunca diga essa piada fora desta sala hein!

Se fizer isso em rede social, vai me custar dinheiro e trabalho para limpar a nossa imagem.

FABIO (CFO): Que exagero. O que tem hoje é muita frescura, ou melhor, mimimi!

BRENO (COO): Eu gosto da ideia de formar as pessoas, assim elas trabalham como eu quero, mas, com a pressão da velocidade de crescimento que temos, eu não tenho tempo para esperar a curva de aprendizagem das pessoas. 

Eu quero gente formada e pronta.

Aqui, já se vem formado de hard e soft skill. Tem muita gente desempregada, é o momento de aproveitarmos isso e contratar gente boa, barata. 

EDUARDO (CIO): E as pessoas que a gente mandar embora? Vamos dar algum tipo de capacitação?

ALEX (CEO): Como assim?!!!!

O mercado e o mundo estão mudando muito rápido, as pessoas precisam entender isso e se reinventarem, mas essa responsabilidade é de cada um, eu não posso assumir isso.

Aproveitando que você falou Eduardo (CIO), essa semana eu estava vendo uns vídeos antigos que recebi e nos quais mostravam algumas fábricas, inclusive no Brasil, que já são 100% automatizadas.

Que coisa linda…

Preciso que você trabalhe com cada líder para automatizar o máximo que pudermos de nossa operação: RPA***, IoT****, etc.

Bem pessoal!

Vamos produzir.

Até a semana que vem.

 

No caminho de volta para casa.

ALEX (CEO): José, eu notei a sua cara quando eu estava falando sobre automatizar o máximo e mandar gente embora. 

O que você acha disso?

JOSÉ: Sabe Seu Alex, o senhor me desculpe, mas essa história de falar que as pessoa tem que se reinventar é muito fácil.

O povo que ganha R$1.500 bruto por mês não sabe o que está vindo, o que fazer, onde fazer e o pior, quando descobre, não pode pagar.

Outro dia eu acompanhei o Seu Eduardo (CIO) numa reunião.

Eles tavam falando do RPA.

Não dá pra dizer que a auxiliar administrativa se converta em engenheira de RPA ou especialista em processos para não ser mandada embora. 

O senhor lembra quando, na minha primeira reunião, seis falaram que queriam ser uma empresa ESG?

Então…

Deveriam se preocupar com isso.

ALEX (CEO): Mas não vem não seu matuto. rsrsrs

Agora eu te peguei.

A automação e a robotização já chegaram no campo, tem muita máquina substituindo mão de obra.

A tecnologia resolve muita coisa, José.

JOSÉ: O senhor tem razão Seu Alex.

 

“Mas pensar que a tecnologia 

vai resolver todos os problemas 

das empresas e da humanidade 

é o nosso maior problema” (1)

 

E digo mais, o senhor falou que é lindo as empresa só com robô, não é?

ALEX (CEO): Sim! É maravilhoso não ter gente enchendo o saco. Pedindo aumento. Faltando. Ficando doente…

JOSÉ: Mas aí que eu não entendi.

Se todas as empresas automatizarem tudo…

 

Quem vai comprar os produtos dela, 

se todo mundo estará desempregado? (2)

 

(1) Frase do livro “Aprenda a criar riqueza sem gerar miséria com a Tecno-Humanização”

(2) Reflexão extraída do conceito de autofagia corporativa do livro “Aprenda a criar riqueza sem gerar miséria com a Tecno-Humanização”

 *Go-to-market: Isso se refere à forma como as empresas buscam inserir seus produtos no mercado, de forma que atinjam seu público-alvo e consigam receita.

** PDV: Ponto de venda

*** RPA: Em português, Automação de Processos Robóticos

**** IoT: Em português, Internet das coisa

 

Imagens: BE&SK

Liderança: Faça o que eu mando, não faça o que eu faço

 

 

ALEX (CEO): José, vamos comer alguma coisa rapidinho aqui perto porque temos pouco tempo.

JOSÉ: Tudo bem, Seu Alex.

Enquanto esperam por uma mesa no restaurante, Alex observa como todo mundo está usando o celular.

 

Ao sentar-se, Alex pergunta:

ALEX (CEO): José, além do LinkedIn que eu te pedi, você tem outras redes sociais?

JOSÉ: Tenho não, Seu Alex.

ALEX (CEO): Olha, eu tenho, mas não uso.

Você reparou que está todo mundo com o celular nas mãos? Todo mundo fotografando o prato e ninguém se conversa!

Eu não gosto de redes sociais porque é tudo falso.

É um mundo paralelo, onde as pessoas postam o que gostariam de ser ou ter, não o que são. Só mostram a parte mais bonita de suas vidas, e quando não há parte uma bonita, elas inventam para parecer que tem uma vida interessante…

Bem, a nossa comida chegou.

No caminho de volta a empresa…

ALEX (CEO): José, como estão indo os cursos online?

JOSÉ: Eu fazendo tudinho como o senhor mandou Seu Alex.

Amanhã vou começar aquele de mindi-não-seiquê.

Risos…

ALEX (CEO): Mindfulness José. Significa atenção plena, isso é muito bom. Eu pedi pra colocarem este curso para o pessoal porque eu li na Harvard Business Review que isso aumenta a produtividade.

É muito bom meditar José, deixar a mente em branco…

JOSÉ: Eita! Que coisa esquisita essa de deixar a mente em branco. E se eu esquecer tudo o que eu aprendi?

ALEX (CEO): Muito pelo contrário, vai te ajudar a melhorar a memória e o raciocínio.

JOSÉ: E o senhor? Faz esse tal de mindfulness?

ALEX (CEO): Eu não faço, mas faço outro tipo de meditação.

Um tempo atrás, depois que o Steve Jobs e outros líderes famosos foram para a Índia, virou moda e eu fui também e aprendi a meditar lá. Só que ultimamente não tenho feito muito.

Mas, em uma semana, os funcionários vão começar a meditar toda manhã, antes de começarem a trabalhar.

Como somos uma empresa moderna e pensamos nas pessoas, vamos fazer um esforço e parar 15 minutos todos os dias para que todos possam meditar.

Precisamos render mais!

 

Saindo do elevador…

Espera, espera! – grita Alex.

Um funcionário que estava entrando na empresa segura a porta pra que ele e José possam entrar.

ALEX (CEO): José, enquanto eu faço uma ligação, pede para Susana me mandar o material daquele treinamento de Líder 4.0 por e-mail, por favor.

Vamos contratar mais um curso.

Como te falei investimos muito em educação corporativa.

JOSÉ: Ela falou que já mandou pelo sistema Seu Alex.

ALEX (CEO): Eu sei, mas é muito chato esse sistema, eu não sei usar direito, não lembro minha senha, enfim, melhor por e-mail mesmo.

 

No final da tarde Cláudio vem à sala de Alex.

CLAUDIO (CHRO): Alex, tem um minuto?

ALEX (CEO): Tenho sim. Diga.

CLAUDIO (CHRO): Lembra na reunião sobre diversidade que vimos que o nosso turnover estava alto e pensávamos que era pela diversidade?

Adotamos algumas medidas, melhorou, mas ainda não resolveu.

Vamos ver agora se com este curso de líder 4.0 a gente consegue melhorar isso.

ALEX (CEO): Com certeza sim! Enquanto isso, faz uma análise nas entrevistas demissionais para entender os motivos.

CLAUDIO (CHRO): Já fiz isso. Mas as pessoas mentem, é raro a pessoa que fala verdade na entrevista demissional. Se ela saiu da empresa queimada, ela não fala porque não quer que a empresa melhore. Se ela está saindo numa boa, ela também não fala porque tem medo de ficar mal com a empresa e quando pedirem referência dela a gente não falar bem.

Enfim, por aí a gente não consegue informação útil.

ALEX (CEO): José, fica de olho nisso também.

Você que conversa com o pessoal operacional, presta atenção porque mesmo a nós sendo tão bons, dando tanto treinamento para as pessoas, eles vão embora.

JOSÉ: Eu já sei, Seu Alex.

CLAUDIO (CHRO): Como assim?!!! Você sabe o que está acontecendo para que a gente não consiga engajar talento?

JOSÉ: É simpres. Ocêis contrataram um curso pras pessoas pensarem e deixar a cabeça em branco (mindfulness), mas vocês mesmo não fazem.

ALEX (CEO): Eu já te falei, nós não temos tempo pra isso, e vários executivos fazem o seu tipo de meditação.

JOSÉ: Pois é. Ocêis perguntaram pras pessoa se elas também não tem o jeito delas de se concentra? Ou se elas queria fazer esse trem aí?

CLAUDIO (CHRO): Mas isso é bom pra elas e custa caro. Estamos fazendo isso pensando nelas, e na produtividade é claro. Todo mundo ganha.

JOSÉ: Qué vê otra coisa?

A semana passada eu fiz o curso de segurança, e lá diz que cada pessoa deve entrar na empresa com o seu crachá. Hoje o Seu Alex pediu pra segurarem a porta pra ele entrá.

ALEX (CEO): Espera um momento, eu sou o dono da empresa. Será que vou ter que pedir permissão para entrar na minha própria empresa?

CLAUDIO (CHRO): José, essa regra se aplica aos funcionários, como diretores temos alguns privilégios.

Além do mais, essa norma é difícil de ser cumprida.

Quando o pessoal vai almoçar juntos, é comum segurarem a porta para os colegas entrarem, por cortesia.

JOSÉ: Mas por que tem isso no curso?

CLAUDIO (CHRO): Porque segue as melhores práticas do mercado. E, entre mim e você, como quase ninguém cumpre, se quisermos podemos utilizar como argumento em caso de demissões complicadas.

JOSÉ: Tem mais, o Seu Alex falou na reunião que gastou um dinheirão no sistema de workflow, mas hoje pediu pra Susana um documento por fora do sistema.

ALEX (CEO): Você está me controlando agora? Eu fiz isso porque não tenho tempo e eu vi que a HSM publicou que uma das principais características de um líder 4.0 é a gestão de tempo.

JOSÉ: Não é isso, Seu Alex, mas se vocês falam uma coisa e fazem outra… fica difícil das pessoa acreditá nus cêis.

Lá na roça o pai armoçava com os peão, tava junto, e o que ele pedia pra todo mundo ele também fazia.

Se eu fosse ocêis, eu num gastava dinhero com esse novo curso.

Depois cêis vão fazê tudo diferente mesmo.

Há muito tempo já num funciona essa conversa de “Faça o que eu mando e não faça o que eu faço”.

 

 

Imagens: BE&SK

Otimização de custos: forma “granfina” de enganar o cliente

 

Precisamos aumentar a nossa rentabilidade. Para isso, podemos aumentar a receita e/ou reduzir custos.

Podemos piorar a fórmula, piorar a qualidade do produto para quebrar antes e comprarem mais, podemos reduzir o tamanho da embalagem, assim como configurar a máquina para colocar umas gramas a menos nas embalagens, alguns metros a menos no rolo, o cliente não tem como conferir mesmo…

Onde está o limite entre a otimização e a ética?

ALEX (CEO): José, hoje eu tenho um almoço com um amigo. Ele é presidente de uma grande indústria alimentícia e quero que você me acompanhe.

Os almoços e jantares de negócios fazem parte do dia-a-dia de um executivo e você precisa começar a aprender como se comportar e como eles funcionam. O bom é que hoje é com um amigo, portanto, você não precisa se preocupar.

É importante que você observe tudo, pois é uma boa forma de aprender.

JOSÉTá bão Seu Alex. A gente vai comer essas comida esquisita ou comida de verdade?

Risos…

ALEX (CEO): Fica tranquilo! É um bom restaurante, mas tem “comida de verdade”, como você diz.

Vamos lá?

Tudo era muito diferente para o José.

Manobrista na porta do restaurante, uma pessoa com guarda-sol para acompanhar o cliente até a porta, outra pessoa pra recepcioná-lo na entrada, mais uma pra acompanhar até a mesa, enfim… muita gente pra servir.

Alguns minutos depois, chegou o amigo do Alex e começaram a conversar sobre amenidades, família, política, viagens, etc., e José só observando, até chegar o momento de falar de negócios.

ALEX (CEO): E como estão os negócios?

O amigo olhou para o José e depois para Alex, como se estivesse perguntando com o olhar se o José era de confiança.

Alex entendeu e disse para ele não se preocupar, já que o José é como se fosse um familiar, então a conversa poderia fluir tranquilamente. Ressaltou também que está ensinando a ele tudo o que sabe.

AMIGO DO ALEX: No ano passado o EBITDA* aumentou 8,5%, mesmo durante uma pandemia. Nossos concorrentes caíram entre um 10% e um 20%. Mas já sabe como funciona isso, nunca é suficiente, este ano temos de crescer de novo.

O amigo percebeu que o José arregalou os olhos com os números (mesmo sem saber o que era EBITDA).

AMIGO DO ALEX: José, já que o Alex está te ensinando como funciona este mundo, deixa eu te explicar. A gente é pago para cumprir objetivos, não importa como. Na verdade, existem algumas regras que se chamam governança e obviamente a lei.

E quando a gente acaba o ano fiscal, zera tudo, e o próximo ano começa tudo de novo, só que com um objetivo maior e mais difícil.

É muita pressão.

JOSÉ: Ah! Agora eu entendo. É por isso que o senhor ia pescar cada vez que acabava o ano?

ALEX (CEO): Isso mesmo José, era meu ritual para desestressar um pouco. Ter um tempo só pra mim.

Alex dirige-se a seu amigo.

ALEX (CEO): Qual o seu plano pra esse ano?

AMIGO DO ALEX: Sinceramente, estou tão esgotado que estou fazendo o que eu pensava que nunca faria.

Praticamente esgotamos a via de incrementar receita de forma orgânica, o mercado está recessivo pela pandemia e a concorrência agressiva, está difícil roubar market share.

Reduzir custo então, já tocamos o osso.

O caminho é a inovação, e estamos fazendo parceria com startupshackathons, mas isso é uma roleta russa. A gente pode encontrar uma solução ou um produto amanhã e arrebentar, ou pode não encontrar nunca.

ALEX (CEO): E o que vocês vão fazer pra crescer neste cenário?

O executivo resistiu um pouco antes de contar na frente do José, como se tivesse vergonha de falar o que estava fazendo.

AMIGO DO ALEX: O ano passado começamos a trabalhar a otimização e a engenharia de produção. Começamos a reduzir sutilmente as embalagens ou o produto.

Por exemplo, estamos configurando as máquinas para colocar 5 gramas a menos de margarina em cada pote. Foi assim que batemos a meta do ano passado.

Este ano vamos fazer com os biscoitos.

José, isso não é nada ilegal, nós informamos na embalagem o novo peso.

JOSÉ: Eu num falei nada não senhor.

AMIGO DO ALEX: Eu sei, não estou me justificando, só estou te dizendo como parte de seu aprendizado. Nós, eu o seu chefe, não fazemos nada ilegal, a pressão é grande, exploramos o limite, mas cumprimos as leis e as regras. Isso é importante que você aprenda.

E é importante que saiba que tem gente no mercado que vende produtos abaixo das especificações, mas nós não.

Papel higiênico abaixo da metragem, manteiga com menos quantidade porque injetam “bolha de ar” nas máquinas para preencher menos potes, enfim…

JOSÉ: Sim senhor.

AMIGO DO ALEX: Você sabia que a maioria dos consumidores não olha o peso ou quantidade dos produtos? Mas, se questionarem a redução, dizemos que nos adequamos a realidade do mercado, que as pesquisas mostram que os consumidores se preocupam com sua saúde e esperam produtos com porções menores.

Desta forma, tudo resolvido.

JOSÉ: Obrigado pela explicação.

Falaram um pouco mais de negócios, mercado, bolsa, política e terminaram o almoço.

Na volta ao escritório, Alex comenta a José:

ALEX (CEO): José, essas duas horas custam uma fortuna. Além de tudo o que você ouviu, e espero que tenha assimilado, ele foi super gentil te orientando em relação à otimização de custos na produção. É um grande aprendizado, José.

Você gostou?

JOSÉ: Depende.

ALEX (CEO): Depende de quê?

JOSÉ: Eles reduzem os preços também?

Alex solta uma gargalhada.

ALEX (CEO): Não, José! Com a inflação aumentando, flutuação do câmbio encarecendo a matéria-prima, aumento do frete, risco país, índice de confiança e macroeconômicos ruins, seria impossível manter o preço, que dirá reduzir.

Eles cresceram no ano passado reduzindo a quantidade do produto, porém aumentando o preço.

JOSÉ: Imaginei. Então Seu Alex, a minha resposta é não.

ALEX (CEO): Como assim?

JOSÉ: O senhor me perguntou se eu gostei do que ele me ensinou. E a minha resposta é não.

Lá na roça o Tião, que vende queijo, quando o pessoal pechincha no preço ou quer ficar com o troco, ele fala:

  • “A diferença entre você me dar 1 real e eu te dar 1 real, é 2 real”.

Se o amigo do senhor reduz o produto e sobe o preço, significa um aumento em dobro.

Pode ser legal, que nem ele falou, mas acho que não é ético não.

O senhor vai me desculpar Seu Alex, mas fazer isso, pra mim, é uma forma “granfina” de enganar o cliente…

 

——-

PS: a grafia correta da palavra “granfina” dita pelo matuto é grã-fina.

*EBITDA = Sigla para earnings before interest, taxes, depreciation and amortization, em português, lucro antes de juros, impostos depreciação e amortização. Em definição simples, serve para medir a eficácia das operações financeiras de uma empresa.

 

Imagem: BE&SK

Humildade intelectual é sinal de inteligência

Não foi fornecido texto alternativo para esta imagem

 

ALEX (CEO): Não concordo!

É um absurdo sem tamanho, temos que continuar fazendo o que sempre fizemos.

Aborte esta ideia absurda, já!

 

José entra na sala do Alex.

JOSÉ: Dia Seu Alex, Dia Seu Felipe!

FELIPE (CMO): Só se for pra você José…

 

Felipe sai da sala visivelmente frustrado.

ALEX (CEO): Bom dia, José!

Espero que você esteja animado porque hoje a agenda está cheia.

Ah! Se quiser, aproveita pra sair hoje à noite, porque eu tenho a minha reunião semanal com o grupo de líderes, e nessa você não pode ir.

O dia passou voando. Entre reuniões, a maioria internas, vídeos, etc.

ALEX (CEO): José, vou pra casa tomar uma ducha e ir à reunião.

O que você decidiu?

JOSÉ: Vou pra casa Seu Alex.

 

No caminho de volta, Alex passa o tempo todo ao telefone.

Alex entra e sai de casa resmungando, claramente indignado com alguma coisa.

Às 23h, Alex chega em casa, continua bravo, e vê José sentado na varanda, olhando pro jardim.

Alex abre um vinho e senta-se, calado, ao lado do José.

JOSÉ: O que aconteceu Seu Alex?

O senhor está injuriado o dia todo, é pela briga com o Seu Felipe hoje de manhã?

ALEX (CEO): Não, na empresa está tudo bem.

Aquilo não foi briga não.

JOSÉ: Uai! Então por que o senhor está bravo o dia inteiro?

ALEX (CEO): Lá no grupo de líderes, tem um cara lá que está metendo os pés pelas mãos. Ele nem pertence ao grupo de ex-presidentes do grupo e já está querendo mudar as coisas.

Aliás, é mais ou menos parecido com o caso do Felipe.

Eu criei esta empresa e há anos fazemos as coisas do mesmo jeito. Agora o Felipe quer mudar tudo.

Eu sei o que precisamos fazer.

Eu tenho mais experiência.

Nós estamos lá há muito tempo, já fizemos muitas coisas e esse rapaz está apresentando ideias sem sequer me consultar.

Onde já se viu!!!

Quem ele pensa que é?

 

José ouve com atenção, mas continua olhando para o jardim.

ALEX (CEO): José? Você está prestando atenção?

JOSÉ: Estou sim, Seu Alex.

ALEX (CEO): E não vai falar nada?

JOSÉ: Posso falar?

ALEX (CEO): Claro!

JOSÉ: É que o senhor tá falando que não gosta que façam nada sem pedir permissão pro senhor, né?

ALEX (CEO): Isso é diferente. Aqui eu estou perguntando (portanto, te dou permissão para responder)

Lá no grupo de líderes é diferente. Apesar de falarmos que somos todos iguais, na prática, são os jovens que ouvem os mais velhos e não o contrário.

JOSÉ: Mas como funciona Seu Alex? Os jovens têm que ouvir os antigo, mas podem tentar fazer as coisa do diferente ou eles têm que ouvir e obedecer?

ALEX (CEO): No nosso grupo de ex-presidentes, nós ouvimos todo mundo, e se a ideia for boa, a gente faz.

O problema é que não aparece nenhuma ideia interessante.

Nós estamos lá há anos e já fizemos tudo!

O que uma pessoa que ainda nem foi presidente pode saber que a gente já não saiba?

E esse foi pior ainda, porque ele até conversou com alguns ex-presidentes, mas não falou comigo.

JOSÉ: Entendi! Então o senhor está bravo porque ele falou com outros ex-presidentes e não falou com o senhor?

ALEX (CEO): Não! Bem, mais ou menos. Lá, não se faz nada sem passar por mim. Agora ele vai ver só, vou articular aqui para dinamitar a ideia dele.

JOSÉ: Mas se a ideia for boa?

ALEX (CEO): Pelo o que eu ouvi dizer por aí, não deve ser.

JOSÉ: Ah! O senhor nem sabe qual é a ideia?

ALEX (CEO): Ele cometeu um erro grave, não veio até mim… Não interessa se a ideia dele é boa ou não.

 

José ficou pensativo.

JOSÉ: Seu Alex, o senhor conhece a música Meu Disfarce do Chitãozinho & Xororó? É um modão.

ALEX (CEO): Não! Não ouço este tipo de música.

O que ela tem?

JOSÉ: Nela tem uma frase que diz:

“Digo coisas que não faço, faço coisas que não digo”.

Lá ele fala sobre o amor, mas aqui também serve, porque é isso que cêis tão fazendo.

Cêis falam que todo mundo é igual, que todo mundo pode apresentar projetos, mas quando alguém faz isso sem pedir a bença pro senhor, o senhor, sem conhecer a ideia, fala que é absurda.

Pro grupo dos cêis evoluir é preciso dar oportunidade para novas ideias, e para isso é preciso de humildade Seu Alex.

Humildade intelectual?

ALEX (CEO): Será possível? O que você quer dizer com isso? Até você, José?

Fala em tom irritado.

 

JOSÉ: Mesmo não gostando de sertanejo, o senhor sabe quem é o Chitãozinho & Xororó?

ALEX (CEO): Sei, claro.

JOSÉ: O Xororó é o pai da Sandy, e ela convidou o pai pra gravar uma música juntos.

O Xororó já gravou mais de 70 discos, meu pai tem todos. Ele já vendeu 40 milhão de disco.

Quem tava fazendo o arranjo e a produção da música era o Lucas Lima, o marido da Sandy. Aquele da família Lima, sabe?

ALEX (CEO): Sei! Onde você quer chegar José?

JOSÉ: Sabe por que o Xororó se manteve no mais alto até hoje? Mesmo com a onda do sertanejo universitário?

O Xororó tem 51 anos de carreira e o Lucas tem 38 anos de idade.

E sabe o que o Xororó disse quando chegou no estúdio?

“Lucas, eu ia te pedir, você como arranjador, pra dar uma sugestão”.

E sabe o que é melhor de tudo?

Ele ouviu e seguiu a sugestão.

Entre a experiência (e a voz) do Xororó, a voz maravilhosa da Sandy, as ideias e o talento do Lucas, o trabalho final ficou maravilhoso.

Lá na roça a gente não se importa quem dá a ideia, se a ideia é boa, todo mundo abraça.

O senhor deveria ouvir o projeto dessa pessoa, antes de julgá-lo (e condená-lo).

O ego, a vaidade, a arrogância e a soberba não são boas companheiras.

ALEX (CEO): Você está me chamando de arrogante?!!!

Você não entendeu nada José!!!

Eu sou mais velho e, por isso, sei mais.

JOSÉ: Por isso mesmo Seu Alex.

O pai falava: “quanto mais velho eu sou, mais eu sei”.

Mas cada dia aparece uma coisa nova pra aprender e aí eu aprendo que num sei nada.

Sabe Seu Alex, acho que aqui na cidade cêis confunde humildade com servidão.

Lá no sítio nóis senti orgulho de ser humilde, mas isso num significa que nóis agacha a cabeça pra tudo não.

O nosso orgulho é por saber que nóis num sabe tudo.

De respeitá a natureza e saber que nóis nunca vai controla ela. De usar a sabedoria popular.

De saber que antes de falar, nóis temo que ouvir, por isso nóis tem dois ouvidos e só uma boca.

A Humildade intelectual é sinal de inteligência Seu Alex.

Quer vê só? Feche os olhos e ouve essa música, é bonita demais da conta!

 

 

Silêncio por uns segundos…

ALEX (CEO): Boa noite José!

JOSÉ: Boa noite Seu Alex!

Só mais uma coisinha!

Posso pedir um favor pro senhor?

Assiste o vídeo o Xororó dando uma aula de humildade e por favor compartilha com os amigo de nariz empinado do senhor.

ALEX (CEO): Se eu não tivesse prometido cuidar de você pro seu pai…

Alex se levantou bravo e saiu, talvez irritado consigo mesmo.

[Este vídeo deveria ser mostrado em todas as escolas de negócio. Vale a pena assistir e aprender. É uma lição de humildade que mostra que a excelência e a inovação só podem chegar com a humildade intelectual das equipes]

 

Imagem: BE&SK

Senso de dono: Cada um no seu quadrado e o ser humano no de ninguém

 

ALEX (CEO): Bom dia, pessoal!

Após a revisão dos nossos resultados do último mês, estou super satisfeito! Parabéns a todos os líderes, estamos bem em todos os KPI’s.

Batemos todas as metas!

SANTOS (CRO): Eu gostaria de aproveitar para dizer que conseguimos bater a meta de vendas, mas não dá mais pra trabalhar desse jeito.

ALEX (CEO): Como assim Santos?

SANTOS (CRO): Este mês não sei se vamos conseguir chegar… 

ALEX (CEO): Não começa a chorar que estamos no início do ano e o target já está negociado Santos.

SANTOS (CRO): Não estou negociando nada, estou falando sério. Eu tive que parar toda a equipe de vendas durante 3 dias, porque o Fábio bloqueou os fornecedores. Eles não entregavam os produtos, os projetos pararam e os clientes não deixavam faturar… Tivemos que ficar cuidando disso ao invés de vender.

FABIO (CFO): Se quiséssemos cumprir com os KPI’s financeiros, tínhamos que cobrar dos clientes e não pagar os fornecedores por uns dias. Não é o fim do mundo, vai, todo mundo faz isso!

O Alex vive dizendo que temos que ter senso de dono, que cada um tem que cuidar de sua área como se fosse sua, não é?

Foi o que fiz, cuidei da minha.

SANTOS (CRO): Mas eu não posso queimar a relação com os clientes, pedindo para eles liberarem o pagamento sem ter o projeto terminado. No próximo projeto isso vai custar dinheiro.

FABIO (CFO): Aí o Breno aperta um pouco os fornecedores, reduz os custos do projeto e tudo resolvido. (tom de ironia, uso de brincadeiras para cutucar o colega).

BRENO (COO): Claro, como se tudo já não estivesse apertado… Aproveitando o gancho, se quiserem suspender os fornecedores grandes OK, mas, não suspendam os parceiros de serviços pequenos. Primeiro porque eles param de trabalhar e segundo porque nós os asfixiamos desse jeito. 

FABIO (CFO): Breno, a política é para todos, senão a auditoria nos levanta uma inconformidade. Se a empresa não tem fôlego, não entra na piscina. Se quiser trabalhar com a gente, tem que aceitar as nossas regras. Quem é o cliente aqui? Nós ou eles? Você vive os chamando de parceiros, mas eles não passam de fornecedores que deveriam agradecer por dar-lhes projetos.

BRENO (COO): Que fácil se vê o mundo detrás da calculadora, no conforto do ar-condicionado da sua sala… Mas quando a equipe está no cliente, final de semana às 2h da manhã e precisamos da ajuda de um desses “fornecedores” como você se chama. Eu ligo, sem PO*, sem contrato, e o cara vem salvar o projeto, pra você bater as suas tão sonhadas metas…

ROSA (CLO): Tem fornecedor atuando sem PO nos clientes? Nem me fale isso, eu prefiro não saber. Isso é totalmente non compliance.

BRENO (COO): Tranquilo! Antes acontecia bastante, mas agora não acontece. Quase nunca.

(Sussurrou Breno)

Mas pera lá, não temos que cuidar do negócio como se fosse nosso? E a regra não tem que ser a mesma para todos?

Eu tenho que me virar para fazer as coisas acontecerem. Porque, se eu não entregar, é a minha cabeça que rola.

Portanto, cuido do meu negócio como se fosse meu, respeitando a governança da empresa, mesmo que seja no limite.

ALEX (CEO): E eu que pensei que a reunião de hoje seria tranquila. Era para comemorar os bons resultados, todo mundo vai ganhar dinheiro.

Mas já que vocês entraram no tema, todas estas coisas são normais. Fazem parte do negócio. Afinal, se quisermos ser competitivos lá fora, temos que aprender a ser aqui dentro também.

Agora vamos mudar de assunto…

CLAUDIO (CHRO): Eu tenho um tema muito preocupante. Apesar de a empresa estar batendo as metas, ganhando dinheiro a rodo, enfim, tudo indo muito bem, o nosso turnover não para de aumentar no último ano.

ALEX (CEO): Mesmo depois da divulgação da GPTW**?

CLAUDIO (CHRO): Sim!

FABIO (CFO): Se as pessoas não querem trabalhar aqui… Melhor que não fiquem mesmo. E o melhor de tudo isso é que se eles saem espontaneamente, não temos que pagar nada.

ALEX (CEO): Cláudio, precisamos entender o que está acontecendo e buscar uma solução rápida.

 

Neste momento, Alex olhou pro José e percebeu que ele tinha algo a dizer.

ALEX (CEO): José? Algum comentário?

JOSÉ: Pra falar a verdade Seu Alex, eu já estou aqui há algumas semanas e tava estranhando que tudo fosse tão certinho. Todo mundo tão amiguinho, hoje deu pra ver um pouco de bate boca, que nem quando o pai ia lá no buteco, tomava umas cana e começava a falar de futebol.

ALEX (CEO): Tá, mas o que você achou da discussão de hoje? 

JOSÉ: Ôceis fala o tempo todo que o mais importante pra empresa são os clientes. Os funcionário também são importante porque eles são os que trabaiam, num é?

ALEX (CEO): Sim. E nossa empresa é totalmente customer centric. Os objetivos que colocamos para todas as áreas são pensando nele, que elas façam seu melhor para entregar a excelência ao cliente.

JOSÉ: Pelo jeito não tá dando certo não Seu Alex. Acho que os objetivo dos cêis ficou mais importante. O senhor começou a reunião falando que o cêis bateram as metas e que todo mundo ia ganhar dim-dim.

Falaram de um monti de coisas, e quando falaram das duas coisas mais importante foi pra dizer que tiveram que pedir favor pros cliente pra bater as meta interna, e que os povo está pegando a matula e indo embora. 

Todo mundo tem o seu objetivo, mas quem tem o objetivo de atender o cliente e cuidar das pessoas?

ALEX (CEO): Todos os que estamos nesta sala, José. 

JOSÉ: Pois é… cêis falam desse tal “senso de dono”. Lá na roça a gente sabe que cachorro com dois dono morre de fome.

Pelo jeito aqui todo mundo faz ou acha que faz a “sua” coisa certa, pro seu próprio interesse, mas ninguém faz o que deve ser feito.

Que nem aquela música, cada um no seu quadrado, mas as pessoa não estão no quadrado de ninguém. 

 

 

*PO = Purchase order, em português, Ordem de compra ou pedido de compra.

**GPTW = Great place to work, em português, melhores empresas para se trabalhar. Anualmente é divulgado um ranking com as organizações consideradas as melhores, no âmbito nacional, regional, setorial e temático.

 

 

Imagem: BE&SK

Diversidade para mulher, negro, LGBT+ e inglês ver…

 

 

CLAUDIO (CHRO): A reunião de hoje é pra falar sobre diversidade.

Temos vários temas a tratar e eu gostaria de apresentar a vocês a importância que tem pra gente buscar paridades.

Mas antes, quero comentar que esta semana pagamos a inscrição para conseguir a certificação Great Place to Work – GPTW (Melhor lugar para trabalhar)

Começa a apresentação sobre diversidade e o plano de ação. Após 40 minutos de apresentação…

 

ALEX (CEO): Parabéns Claudio! Alcançar estes parâmetros de diversidade para equipararmos ao mercado é inegociável, precisamos fazer.

A gente nunca fechou as portas pra ninguém, não discriminamos cores, raças, sexo, classes sociais.

Não discriminamos ninguém, e me orgulho disso, mas agora temos que fazer mais do que isso, e um ponto importante, temos que mostrar o que fazemos.

Portanto pessoal, se tiverem amigos ou amigas negras, orientais, gays ou com necessidades especiais, indiquem para as posições.

Precisamos mostrar que nos importamos com esses coletivos.

 

FELIPE (CMO): Cláudio, quando sair a certificação GPTW, me avisa porque preparo o material para divulgação.

Eu também vou começar a preparar um material com fotos de “pessoas diferentes”, sem ser tão explícito como a Benetton, mas passando uma imagem diversidade.

 

ALEX (CEO): Outra coisa Claudio, negros e orientais são visíveis, mas gays, como as vezes não da pra saber, provavelmente a gente já tenha vários trabalhando aqui. Podemos começar fazendo um comitê para que eles… não sei como dizer, se declarem, digam o que pensam e proponham alguma mudança nas políticas da empresa se considerarem necessário.

Temos que mostrar que esse pessoal nos importa. É tendência mostrar-nos tolerantes às diferenças e dar voz a todos.

Aproveitando a reunião, como ficou aquele assunto da contratação das pessoas com necessidades especiais que comentamos na reunião risco.

 

CLAUDIO (CHRO): Sim, está avançado. Vou pedir pra Beth nos atualizar. Um segundo.

Beth, te mandei um link, entra na reunião para falar do status da contratação das pessoas com necessidades especiais, por favor.

 

Beth entra na videoconferência.

 

BETH (RH): Olá a todos!

A situação é a seguinte:

Por lei, nós somos obrigados a contratar pessoas com necessidades especiais.

Mas nosso negócio é muito específico e temos dificuldade em encontrar no mercado pessoas com a formação e perfil que buscamos.

 

BRENO (COO): Quantas pessoas deficientes precisamos contratar?

 

BETH (RH): 30

 

BRENO (COO): Eu consigo absorver uma boa parte na área de suporte se fecharmos o projeto Abadia. Vou precisar de gente.

 

BETH (RH): Sim, é para a sua área mesmo que estávamos pensando.

 

SANTOS (CSO): Boa, porque pra mim não dá porque não podemos colocar este tipo de gente para atender clientes, nem presencial nem por vídeo porque não é o tipo de imagem que queremos dar.

 

CLAUDIO (CHRO): Santos… (em tom de chamada de atenção)

 

BETH (RH): Sr. Santos, talvez seja melhor dizer que o mercado não está preparado para ter pessoas com necessidades especiais ou diversas em posições face-to-face.

Nós até achamos uma pessoa para sua área, mas o tipo de deficiência dela nos obrigava a fazer algumas modificações no prédio.

Existem algumas empresas de recrutamento e seleção especializadas, mas são caras.

Então o Cláudio me pediu pra fazer o cálculo para saber se compensa contratar essas pessoas ou pagar a multa que a lei estabelece. Devemos ter o número até terça que vem, e eu passo pra vocês tomarem a decisão na próxima reunião, OK?

 

ALEX (CEO): OK! Obrigado Beth, bom trabalho. Precisamos mesmo otimizar ao máximo porque os objetivos do próximo ano serão agressivos.

Bem pessoal, ao trabalho!

Obrigado!

Alex e José, voltando para casa.

 

ALEX (CEO): E aí José? Tudo bem?

 

JOSÉ: Tudo sim senhor.

 

ALEX (CEO): Hoje eu estou feliz, porque depois do poema sobre o Mundo moderno que você me contou ontem, hoje eu vi que podemos começar mudar o mundo se conseguirmos o GPTW e aumentar a diversidade na empresa seguindo as best practices12 do mercado, você não acha?

 

JOSÉ: Quer saber mesmo a minha opinião?

 

ALEX (CEO): Claro!

 

JOSÉ: Então lá vai.

O senhor falou que se sente orgulhoso de não discriminar ninguém e ter as portas da empresa abertas para todo tipo de pessoa.

Mas se o senhor só contrata estagiários e trainee que sabe inglês e espanhol, que estudaram nas melhores universidades do país, e lá só estuda gente rica.

 

ALEX (CEO): Mas aí é porque buscamos a excelência. Queremos os melhores profissionais.

 

JOSÉ: Então tá, mas não diga não discrimina.

Ceis pedi tanta coisa pra entrar aqui, que no final a maioria, pra num fala todos, que o senhor contrata são brancos e ricos.

Isso não é uma forma de discriminar?

 

ALEX (CEO): Nunca tinha pensado por este ângulo. José, você acabou de dar a primeira contribuição à empresa. Claudio, pensa em uma solução pra isso.

Mais alguma coisa José?

 

JOSÉ: Sim senhor, mas essa eu acho que não tem muita importância.

 

ALEX (CEO): Tudo é importante aqui.

 

JOSÉ: Então tá. Como se discute essa tal de diversidade quando na reunião tinha sete homens e uma mulher? E pior ainda, nenhum negro. E sem homi que gosta de homi eu não sei.

Lá no rancho a gente diz que uma pessoa não pode falar de porco se nunca pisou no chiqueiro.

Olhares incômodos…

E por último, teve uma coisa que o senhor Claudio falou que deixou a cabeça loca.

 

ALEX (CEO): O que foi?

 

JOSÉ: Ele disse que vocês querem ter o tal do certificado de melhor empresa pra se trabaiá, num é?

 

ALEX (CEO): Isso.

 

JOSÉ: Mas na minha cabeça isso não conjumina ser a melhor empresa pra se trabaiá e fazer o cálculo se vale a pena ou não contratar pessoas com pobrema.

O senhor pode me explicar?

 

ALEX (CEO): Veja bem… São coisas diferentes… Com o tempo você vai entender o que a pressão pelos números faz.

 

JOSÉ: Eu acho que não Seu Alex. O senhor até pode ter boa intenção, mas parece que essa tal diversidade que ceis falam aqui, como diria a mãe, é só pra inglês vê…

Mundo VUCA, Mundo BANI, Mundinho m…

 

ALEX (CEO): Que manhã bonita! Temperatura agradável, o parque está vazio. Perfeito!

JOSÉ: Aqui  na cidade é tudo diferente, mas esse parque é gostoso. Como se chama?

ALEX (CEO): Parque Villa Lobos! 

Vamos aproveitar enquanto estamos caminhando pra eu te contar sobre o Mundo VUCA e o Mundo BANI, porque depois quando começar a correr… não dá mais pra falar.

Vamos lá.

O termo VUCA foi criado pelo exército americano no final dos anos 80, em um cenário pós guerra-fria e é um acrônimo, uma sigla, das palavras em inglês: Volatility, Uncertainty, Complexity e Ambiguity, ou seja, Volatilidade, Incerteza, Complexidade e Ambiguidade.

No início dos anos 2000, este conceito chegou forte no mundo corporativo e nos ajudou a ver que o mundo era:

Volátil porque as mudanças no mundo empresarial começaram a acontecer muito rápido. Isso nos obriga a sermos ágeis.

Incerto porque tudo muda o tempo todo, fica cada vez mais difícil prever os resultados futuros.

Complexo porque agora tudo está conectado e qualquer coisa que aconteça em outro lugar nos afeta aqui, e isso torna os nossos cenários econômicos complexos.

E por fim, Ambíguo, isso significa que é difícil se planejar, por conta da falta de clareza e pela falta de controle de todas as variáveis de qualquer problema.

Este conceito tornou-se popular há alguns anos e, ao entendê-lo, passamos a gerir nossos negócios de uma maneira diferente.

José, como bom observador, fica concentrado na explicação de Alex, e claramente se sente orgulhoso de seus conhecimentos.

ALEX (CEO): Entendeu? 

JOSÉ: Não!

ALEX (CEO): Como não?!!!

 JOSÉ: Seu Alex, ceis complica demais da conta as coisas e coloca nome complicado pra tudo. Quer só:

Lá na roça, as coisas muda muito rápido, o clima, os preço do mercado, as vontade do pai, os animais que tem dia que estão bão e no outro já não tão. Isso é esse tal de volátil?

E incerto então?

A gente nunca tem certeza do que plantar, se a lavoura vai ser boa, se a safra vai ser boa, se não vai ter praga, se o preço vai compensar.

nóis nunca tivemos certeza de nada.

Quer que eu continue?

ALEX (CEO): OK, já entendi. Você quer me dizer que lá no sítio vocês também tem um ambiente VUCA?

JOSÉ: Não Seu Alex, o que eu quero dizer é que as coisas são assim desde que o mundo é mundo, e no sítio não precisamos de ninguém pra nos contar isso.

ALEX (CEO): Entendi… Mas agora você vai ver porque já não falamos do Mundo VUCA, agora estamos vivendo em um Mundo BANI. Quer ver você se sair dessa, seu matuto metido sabichão. (risos)

Este conceito foi criado pelo antropólogo, autor e futurista norte-americano Jamais Cascio, que observou a pandemia tornar o Mundo VUCA ultrapassado.

Agora vivemos em um mundo BANI que significa “Brittle, Anxious, Nonlinear, Incomprehensible”, ou seja, Frágil, Ansioso, Não-linear e Incompreensível.

Frágil porque a pandemia nos mostrou que estamos expostos a qualquer coisa e não somos nada perante a natureza.

A consciência dessa nossa fragilidade criou um mundo Ansioso.  Esta doença está se convertendo em uma das doenças mais comuns de nossos tempos e o Brasil é o país com o maior número de pessoas com transtorno de ansiedade do mundo!

Não-linear é uma característica de nossos tempos, os eventos parecem desproporcionais e totalmente desconexos. Não há um padrão, uma sequência de eventos e organizações estruturadas e rígidas não conseguem atender ao mercado.

As tomadas de decisões corporativas sempre devem obedecer a uma lógica e estar baseada em dados, porém, a lógica já não funciona. Às vezes quanto mais dados e mais análises, pior. E isso torna nosso mundo Incompreensível e nós executivos temos um grande desafio.

E agora? O que tem a dizer?

JOSÉ: Me desculpa, eu não quero ofender o senhor nem esse antro-não-sei-o-quê que criou essa bobada.

Quem está perto da natureza e do ser humano, é perfeitamente consciente de que não somos nada.

As pragas surgem sem avisar.

A morte idem, meu pai estava bão num mês no outro ele morreu.

E claro, como respeitamos a natureza e suas leis, respeitamos o altíssimo, cada um com sua crença, não ficamos ansiosos por aquilo que ainda não aconteceu.

Uma pergunta Seu Alex, esse povo que inventa esse Mundo que o senhor falou aí, ganha dinheiro com isso?

ALEX (CEO): Ganha sim. 

JOSÉ: Então tá explicado tanta floritura para algo que sempre foi assim e sempre será.

Eu acredito que temos que lutar para melhorar o Mundo que o Chico Anysio descreveu, e o senhor pode fazer isso.

ALEX (CEO): Que mundo é esse José?

JOSÉ: Era isso o que eu meu pai queria que eu fizesse quando me mandou pra morar com o senhor, lutar contra esse mundo. O senhor pode se sentar?

[José começa a recitar o texto]

“E vamos falar do mundo, mundo moderno
marco malévolo
mesclando mentiras
modificando maneiras
mascarando maracutaias
majestoso manicômio
meu monólogo mostra
mentiras, mazelas, misérias, massacres
miscigenação
morticínio, maior maldade mundial
madrugada, matuto magro, macrocéfalo
mastiga média morna
monta matumbo malhado
munindo machado, martelo
mochila murcha
margeia mata maior
manhazinha move moinho
moendo macaxeira
mandioca
meio-dia mata marreco
manjar melhorzinho
meia-noite mima mulherzinha mimosa
maria morena
momento maravilha
motivação mútua
mas monocórdia mesmice
muitos migram
macilentos
maltrapilhos
morarão modestamente
malocas metropolitanas
mocambos miseráveis
menos moral
menos mantimentos
mais menosprezo
metade morre
mundo maligno
misturando mendigos maltratados
menores metralhados
militares mandões
meretrizes marafonas
mocinhas, meras meninas,
mariposas
mortificando-se moralmente
modestas moças maculadas
mercenárias mulheres marcadas
mundo medíocre
milionários montam mansões magníficas
melhor mármore
mobília mirabolante
máxima megalomania
mordomo, Mercedes, motorista, mãos
magnatas manobrando milhões
mas maioria morre minguando!
moradia meiágua, menos, marquise
mundo maluco
máquina mortífera
mundo moderno melhore
melhore mais
melhore muito
melhore mesmo
merecemos
maldito mundo moderno
mundinho merda!”

Alex não conseguiu conter as lágrimas.

ALEX (CEO): José, você não deixa de me surpreender. Então vamos para o escritório transformar esse “mundinho merda”. 

 

Imagem: BE&SK
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