Neurodiversidade como vantagem competitiva

Este artigo foi publicado: no dia 26/11/2019 na estréia da  minha coluna no IT Forum 365

 

A Tecno-Humanização vai além da diversidade e inclui em seus projetos a Neurodiversidade

Primeiro artigo nesta coluna e primeiro desabafo. Mas prometo que não será um desabafo chato.

Você já “chantageou” uma criança pra ela comer saudável?

Ofereceu algo ela gostava muito, inclusive sobremesa extra, para que pudesse comer verdura?

Ter que contar histórias, dar chocolate, deixar brincar uma hora a mais, ter que explicar uma e outra vez a importância e os benefícios de comer verduras e legumes para o seu desenvolvimento, enfim, o que quase todo pai e mãe faz ou já teve que fazer.

Mostrar e explicar as coisas, mesmo que seja óbvio, a uma criança se chama ensinar, e é obrigação dos adultos.

Ter que explicar e convencer a um adulto de mais de 50 anos que ele deve comer verduras, que precisa olhar para os dois lados para atravessar a rua, não beber em copo de pessoas estranhas, pode ser, no mínimo uma situação “kafkiana”.

Pois é  assim que me sinto escrevendo este artigo.

Seguindo essa lógica, pode parecer absurdo em 2019 ainda ter que explicar diversidade e inclusão. Contudo, se algum aspecto da condição humana não está claro, temos o dever de contribuir para que esteja.

Temos 7,7 bilhões de pessoas no mundo, somos 7,7 bilhões de seres humanos diferentes. Ah! Claro que temos características comuns, mas todos temos nossas particularidades.

Dito isto, então…

O que nos torna especiais?

Ser diferentes.

O que nos atrai no outro?

A diferença.

O que fez a humanidade evoluir?

Sermos diferentes.

O que provoca inovação?

A diferença (de visão, de opinião, de experiência, de vivência…).

O que as empresas precisam para sobreviver?

Diferenciação e inovação.

O que contratamos para nossa empresa?

O igual. O padrão. O que se molda em um perfil previamente traçado e estudado.

Então espera um momento, porque agora fiquei confuso.

Se a diferença é o que gera inovação e a empresa contrata “iguais”, como ela pode inovar?

Para tentar entender este comportamento incoerente, precisamos de alguns conceitos.

Um dos princípios de funcionamento do cérebro e, por consequência, da mente humana é o princípio da busca por consistência.

Quando processamos informações conflitantes em nosso cérebro, isso provoca um desconforto, que é chamado de dissonância cognitiva. O cérebro automaticamente, e de forma inconsciente, trabalha para recuperar a consistência, criando crenças e imagens, mesmo que distorcidas, e a nossa parte racional as justifica.

Isso explica o porquê, normalmente, temos uma imagem sobre nós mesmos superior a que os outros tem de nós. Nos consideramos mais honestos que a média, mais inteligentes que a média e assim por diante.

Outro conceito que gostaria de trazer é o de distância psicológica. Quanto mais distante estamos de um julgamento moral ou de uma tomada de decisão, mas racional ela se torna.

Vou trazer um exemplo para ilustrar a dissonância cognitiva e a distância moral.

A maioria das pessoas acham linda e louvável a atitude de alguém que adota uma criança transexual ou a um bebê com síndrome de abstinência porque a mãe usou drogas durante a gravidez, e dizem que fariam o mesmo.

Este pensamento, automaticamente serve para construir uma imagem positiva de si mesma.

Mas quando ela tem que tomar uma decisão ou atitude assim, quando pensa nos preconceitos e sofrimentos que sofrerá por adotar uma criança trans ou doente, normalmente muda de opinião.

E para resolver esta dissonância cognitiva, o racional busca justificativas para manter a imagem de boa pessoa, argumentando com pensamentos do tipo:

Eu faria se pudesse”; “Agora não é o momento”.

Ou a frase clássica, “eu não tenho nada contra os homossexuais, eu até tenho um amigo gay”, e tem alguns que arrematam dizendo “e gosto dele pra caramba”.

Este é o mesmo processo que seguem muitas empresas. Não contratam pessoas que se vestem diferente, que pensam diferente, que sentem diferente, porque tem uma crença tão arraigada que não deve se “misturar”.

Somos naturalmente diferentes, ainda bem! Portanto, a diversidade e a inclusão nas organizações deveriam ser naturais.

Mas seria ingenuidade minha pensar assim. Afinal, somos hipócritas, como demonstramos no exemplo acima.

Mas será que precisa ser sempre assim? Será que não da pra mudar esse modo de agir e de pensar?

Graças aos millennials, algumas empresas encontraram o poder da diversidade e como ela contribui para seus processos de inovação, de humanização e para seus resultados.

A Tecno-Humanização vai além da diversidade, e traz a seus projetos a Neurodiversidade. Somos neurodiversos por definição, mesmo que não tenhamos nenhuma patologia ou distúrbio.

Em minha jornada de construção da metodologia da Tecno-Humanização eu encontrei a Specialisterne, empresa que desenvolveu uma metodologia para capacitar e promover a inclusão no mercado de pessoas com Transtorno do Espectro Autista – TEA.

A Specialisterne capacita pessoas como TEA, desde de programação à robótica. E pensemos juntos:

Quais características mais relevantes são necessárias em um bom programador?

Raciocínio lógico, boa memória, concentração e atenção ao detalhe.

Quais características pessoas com TEA possuem de forma acentuada?

Bingo!!!

Eu já dei palestra para plateias enormes (mais de 1.000 pessoas) e também já falei para altos executivos, incluindo presidentes de grandes multinacionais. Esse é o meu trabalho e, para mim, é super tranquilo.

Mas tenho que reconhecer, a palestra que eu dei para os 20 alunos da Specialisterne foi diferente.

O pessoal da Specialisterne, muito gentil, procurou me instruir antes, dizendo pra eu não me sentir mal caso eles não demonstrassem empatia ou não aplaudissem efusivamente, que isso não significaria que não tivessem gostado da palestra.

Ao final, fui aplaudido efusivamente, 4 deles aplaudiram em pé e alguns vieram me cumprimentar e me abraçaram.

Foi emocionante e, para os que me conhecem, para este tipo de coisas, sou de lágrima fácil. Chorei muito!

Conclusão: empresas neurodiversas são mais criativas e inovadoras!

Em nosso próximo podcast, que eu incluirei ao final deste artigo, eu vou conversar com o Marcelo Vitoriano, diretor geral da Specialisterne, para conhecer melhor a empresa, o impacto de seu trabalho e como estes profissionais estão gerando uma vantagem competitiva para seus clientes.

 

 

Imagem: Pixabay e Gerd Altmann

O que o meu filho vai ser quando crescer?

Este artigo foi publicado: no dia 12/11/2019 na minha coluna no R7 e no portal Inova360.

 

O futuro das profissões tem sido motivo de grandes debates, e não é para menos

O que você vai ser quando crescer?

Com o intuito de ser simpático e por não saber o que falar, esta é uma pergunta tão recorrente como chata às crianças.

Tenho um filho e já vi muita gente perguntar isso a ele.

Até os 9 anos a resposta era jogador de futebol, depois passou a ser youtuber, mas recentemente ouvi algo que me surpreendeu, ele, com apenas 11 anos respondeu:

Não sei, e não tem como saber ainda, provavelmente eu tenha uma profissão que ainda não foi inventada”.

Embora ele tenha toda razão não é uma resposta comum para uma criança, mas talvez o fato dele me ver e ouvir preparar conteúdos, livro, artigos, palestras, o tenha dado alguma vantagem sobre outras crianças da mesma idade.

Sobre a resposta do meu filho, não há nenhuma dúvida, é exatamente assim. Haverá um número imenso de novas profissões nos próximos anos e muitas das profissões atuais desaparecerão, se não completamente, ao menos da forma como as conhecemos hoje.

Porém, a divergência ocorre quando tentamos quantificar isso, porque, dependendo a fonte que divulga a previsão, a porcentagem de profissões que existirão no futuro e ainda não foram inventadas variam de 60% a 85% e o ano entre 2030 e 2040.

De todas formas, o dado em si não é relevante, e sim o fato de que estamos diante de uma transformação brutal no mercado de trabalho.

Sempre tivemos este tipo de mudança, desapareceram o técnico de máquina de escrever, telefonistas, ascensoristas e surgiram os programadores, web designers e os cientista de dados. O assombro não é pela desaparição ou surgimento de novas profissões, porque isso sempre aconteceu, a questão é a velocidade com que isso está acontecendo e com que ainda vai acontecer nos próximos 30 anos. Serão centenas ou milhares e isso traz consigo diversos questionamentos que ainda não temos resposta e outros que temos a resposta, mas não temos a solução.

O primeiro é que o sistema educativo, os cursos técnicos e as universidades não estão preparadas. A maioria das universidades hoje, em todos os cursos de graduação, ensinam história.

Surge, na verdade aumenta e se acentua, o conceito de multidisciplinaridade – novas profissões que são produto da fusão de profissões atuais. Como exemplo podemos citar o advogado e o engenheiro de segurança digital, que alguns cursos estão fusionando para criar o profissional de direito digital, ou o engenheiro eletrônico que aprende um pouco de medicina (ou vice-versa) para poder desenvolver equipamentos médicos.

Novas profissões como consultor de aposentadoria, analista digital post mortem, gestor de resíduo ou designer de inovação, serão importantes.

De todas formas, é um exercício complexo tentar adivinhar as profissões do futuro, além de nos trazer poucos benefícios. Talvez, o mais inteligente a fazer seja abstrair-se das profissões e concentrarmos nossa atenção nas características fundamentais dos profissionais, independentemente da profissão.

Como pai e como gestor, é nisso que eu estou me concentrando.

Os hard skills, ou seja, o conhecimento formal e técnico sobre uma determinada área, meu filho aprenderá na escola, na internet ou na faculdade (se ela mudar até lá) ou em cursos específicos.

Há alguns anos os profissionais de RH falam em soft skills, e realmente eles são fundamentais e marcam a diferença no desenvolvimento da carreira profissional. Competências como relacionamento interpessoal, comunicação, negociação, produtividade pessoal, e uma longa lista, tem muito mais peso e relevância ao longo da vida profissional do que o conhecimento técnico.

Um bom profissional é formado por hard e soft skills, porém a Tecno-Humanização vai além do profissional e pensa no ser humano de forma integral, criando, assim, o conceito de deep skill.

E por que a Tecno-Humanização se preocupa com isso?

No artigo Empresas humanizadas são mais profissionais, vimos que uma empresa não contrata um profissional, e sim um ser humano.

No livro da Tecno-Humanização descrevemos este conceito em profundidade, porém, podemos trazer alguns pontos que são relevantes para este artigo.

A autoestima, autoconfiança, compaixão, entusiasmo, ética, entre outros, são características fundamentais para qualquer ser humano e, independente da profissão, vitais para as empresas.

Toda empresa, de qualquer setor ou tamanho, hoje depende de inovação. Algum profissional é capaz de inovar sem autoestima e autoconfiança?

O número de empresas humanizadas está crescendo e a necessidade de empresas humanizadas é enorme. Porém, não é possível uma cultura organizacional humanizada sem compaixão.

Profissionais liberais colaborando através de ecossistemas produtivos, baseados em economia colaborativa, tem aumentado e tem se tornado uma tendência. Como empreendedor posso dizer, este modelo não é sustentável sem resiliência e muito entusiasmo.

E, após ver o show de horrores de escândalos e corrupção em nossa sociedade, não há dúvidas que a ética é um valor muito apreciado. As empresas pensam em governança e a Tecno-Humanização vai além, ao dizer que é necessário governança + ética, como descrevemos no artigo Governança não garante ética.

Portanto, é obvio que temos que nos preocupar com o futuro do trabalho dos nossos filhos.

Robôs, Inteligência Artificial vão destruir postos de trabalho repetitivos e não criativos? Sim.

O setor de tecnologia vai criar oportunidades e postos de trabalho? Sim.

A quantidade de postos de trabalho criado será menor que os postos destruídos? Sim.

Temos que acompanhar de perto a evolução do futuro das profissões? Claro!

Os pais e as escolas sempre prepararam as novas gerações para um futuro que seria uma evolução da versão anterior. Desta vez é diferente. Pela primeira vez, estamos preparando uma geração para construir um futuro que não temos a menor ideia de como será.

A única certeza é que não se parecerá em nada ao nosso presente.

Por isso, eu me senti muito orgulhoso da resposta do meu filho, mas se me perguntarem o que eu quero que o meu filho seja quando crescer, a minha resposta será:

Honesto, honrado, entusiasta, compassivo, autoconfiante e ético.

Ah! Querem saber a profissão?

Sei lá…

 

Imagem: Freepik

Governança corporativa não garante ética!

Este artigo foi publicado: no dia 15/10/2019 na minha coluna no portal R7 e no portal Inova360 e no dia 22/10/2019 no ITForum365.

 

A governança corporativa é mais do que tínhamos há 20 anos e menos do precisamos hoje

É preocupante ver como muitos executivos dormem tranquilos porque sua empresa tem uma boa governança.
Você dormiria?
Eu não e vou explicar o porquê.

Antes, porém, precisamos esclarecer o que é governança corporativa e quais seus princípios básicos.

Segundo a definição do IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa), governança corporativa é o sistema pelo qual as empresas e demais organizações são dirigidas, monitoradas e incentivadas, envolvendo os relacionamentos entre sócios, conselho de administração, diretoria, órgãos de fiscalização e controle e demais partes interessadas.

A governança corporativa possui 4 princípios básicos:

  • Transparência – transparência de informação para transmitir confiança;
  • Equidade – tratamento justo entre todos as partes interessadas (acionistas, colaboradores, parceiros e clientes);
  • Prestação de contas (accountability) – que cada colaborador atue com diligência em suas funções e preste conta, não somente de seus resultados, mas também de sua forma de atuar;
  • Responsabilidade corporativa – garantir a viabilidade econômico-financeira do negócio.

Para cumprir estes princípios, são necessários estabelecer regras claras e estritas, considerar as leis em todos os níveis, definir processos e monitorá-los constantemente, para garantir que se cumpram.
Até aqui estamos todos de acordo que a governança é  extremamente importante e necessário em nossas organizações.
Definir regras e normas internas, assim como as leis,, garantir que sejam cumpridas, transmite muita confiança ao mercado, e isso é o que precisam as empresas para manter sua estabilidade institucional.
A governança, ao lado dos resultados financeiros e projeções de crescimentos são os pontos mais valorizados pelos investidores.

Qual o papel da tecnologia na governança corporativa?

A exigência de fazer cumprir centenas de regras por milhares de pessoas (internas e externas) gerindo milhões de dados, se torna praticamente impossível faze-lo de forma manual.
Processos, dados financeiros, atividade operacionais, que os executivos tenham todas as informações em tempo e forma, de maneira confiável para a tomada de decisão, para que o acionista tenha tranquilidade, os auditores e posteriormente os analistas de mercado tenham transparência e credibilidade das informações, tudo depende de tecnologia.
Pronto, até aqui, o artigo foi um comercial de margarina, morno, porém, correto, e poderia ser enviado para qualquer mídia econômica.

Muitos executivos pensam que a governança é o teto, sua gestão e sua empresa está protegida.
Porém, o que é considerado como teto para alguns, para a Tecno-Humanização é considerado solo, uma política de mínimos.

Cumprir a lei é necessário? Claro, é o mínimo.
Cumprir as regras internas? Sim, é o mínimo.
Ser transparente é importante? Sem dúvida.

Então qual é o problema?
Talvez, por viver em um mundo onde as empresas tem governança e tudo funcione bem, vocês não consigam imaginar onde está o problema.

Porém, vamos nos transportar só por um instante ao meu mundo imaginário, assim vocês vão poder entender o me raciocínio.

Vamos viajar a mundo onde poderiam ter empresas de delivery que pressionam tanto aos entregadores, que pagam um valor extremamente ajustado que acabariam induzindo ao colaborador a correr riscos com sua moto ou bicicleta para cumprir suas metas e ter uma remuneração no limite do digno. Já sei que alguns vão dizer que é melhor isso que estar desempregado e passar fome, mas se poderia fazer melhor.

Neste meu mundo imaginário, também poderia ter empresas que mantem o preço de um produto por um período longo de tempo, faz marketing disso e vende a imagem de que é orientada ao cliente e, portanto, sensível aos seus problemas, porém reduz sistematicamente a quantidade e a qualidade do produto vendido.

Também poderíamos encontrar empresas que desenham processos de captação de clientes com um, máximo dois passos, em contrapartida desenham processos de cancelamento com mais que o triplo de exigências.

Poderia existir, neste meu mundo imaginário, inclusive empresas que criem processos específicos, contratem profissionais especializados e treinamentos de venda e persuasão, que só se preocupam em vender. Sei lá, minha imaginação é fértil, e eu poderia inventar empresas de consórcio que vendem para pessoas que não precisam adquirir aquele bem, empresas de telefonia que vendam planos muito acima da necessidade do cliente, cadeias de fast food que desenhem campanhas baseadas em neuromarketing para atrair crianças, empresas do varejo que abusem de gatilhos mentais para entubar (me desculpem a expressão) um produto que sabem perfeitamente, de antemão, que o cliente não precisa.

E como minha imaginação não tem limites, eu cheguei até pensar que poderia existir empresas de credito pessoal que incitem o consumo, que fomentem e sugiram sutilmente que se o cliente não compra um determinado bem ou não faz uma viagem, ele é inferior aos seus amigos e familiares. E claro, se o cliente, após estar convencido de que precisa daquilo e não pode compra-lo, a empresa, como é boazinha, lhe empresta o dinheiro com juros de 4 a 8% ao mês.

Ainda bem que todas estas bobagens que eu imagino em meu tempo livre, não ocorrem no mundo real.
Então podemos afirmar que estamos salvos, porque as empresas que conhecemos tem uma forte governança, não é mesmo?

Tenho que reconhecer, eu sinto inveja de vocês que vivem em um mundo protegido pela governança corporativa, porque em meu mundo imaginário…

Governança corporativa não garante ética!

Como complemento ao artigo, conversamos com um especialista em governança corporativa e gestão de riscos, diretor a IIA  (Instituto dos Auditores Internos do Brasil) para conhecer sua opinião sobre a relação entre governança corporativa e ética, vale a pena ouvir

 

 

Imagens:  Pixabay

O desemprego pós-transformação digital

Este artigo foi publicado: no dia 08/10/2019 na minha coluna no R7 e no portal Inova360.

 

Já passamos da fase de perguntar se a transformação digital vai destruir postos de trabalho, agora a questão é como lidar com isso

O que o trabalho representa pra você?

Depende quem seja o seu interlocutor a resposta será diferente.

Para o empresário com propósito, o caminho para mudar o mundo ganhando dinheiro.

Para o empresário sem propósito, uma forma de ganhar dinheiro mudando o mundo (ou não).

Existe um grupo que diz que é um mal necessário, outro que ama o que faz, que é vocacional, e para a imensa maioria das pessoas, uma forma de subsistência, o ganha-pão.

Mas existe um denominador comum entre todos eles, consciente ou inconscientemente, todos sentem realizados ao ver o resultado de seu trabalho e esforço.

Não importa se a motivação é a necessidade ou a paixão, todos, sem exceção, ao realizar um bom trabalho se sentem bem consigo mesmo.

Conheço pessoas que maldizem o domingo a noite, e reclamam a cada manhã de seu trabalho, de seu chefe, de seus colegas, porém quando o perdem… é um drama.

O trabalho tem um papel fundamental, tanto socialmente como em nossa estrutura mental, não somente pelo fator econômico, mas pela dignidade que outorga a quem o realiza.

Do outro lado da mesa, o lado do empregador, a palavra de ordem nas organizações é otimizar recursos e automatizar, pensando em redução de custos.

Há alguns meses, eu recebi em vários grupos de WhatsApp que participo um vídeo de uma fábrica cervejeira totalmente automatizada.

Em um extremo os apaixonados por tecnologia exaltando as maravilhas da robótica e dizendo que este é o futuro, no outro, sindicalistas abominando a eliminação de mão de obra.

Desde o ponto de vista da Tecno-Humanização, consideramos que nenhuma empresa, hoje em dia, sobreviveria sem tecnologia, porém, nenhuma sociedade existiria sem pessoas.

As empresas devem ser conscientes disso, pensar somente na redução de custos é uma visão míope, de curto prazo e chega a ser irresponsável.

Vamos extrapolar o exemplo desta fábrica a todas as empresas que buscam a tão sonhada otimização de recursos (levada ao extremo).

Pessoas sem trabalho não consomem!

Se automatizarmos todas as fábricas, teremos as empresas mais otimizadas do cemitério.

A empresa quebra porque não tem clientes.

E as pessoas morrem de inanição porque não tem trabalho.

Me desculpem a inocência, talvez eu tenha uma visão romântica (e utópica) do mundo, mas alguém pode me explicar como este modelo socioeconômico, criado por executivos “inteligentes”, se sustenta além do fechamento do ano fiscal?

Sinceramente, foge à minha compreensão que estes executivos não enxerguem como este modelo é autodestrutivo. Gera um desequilíbrio que simplesmente nos levaria ao caos.

Mas quem se importa com o próximo ano se o único que interessa é o fechamento deste ano fiscal? Melhor dizendo, o bônus se bater as metas este ano.

No seriado Designated Survivor (S2 Ep4), o presidente dos EUA pede a um grande empresário para reduzir o ritmo da automatização de suas fábricas. O motivo? Frear o desemprego.

O empresário diz, “isso vai me custar uma fortuna” e pergunta “e por quê eu faria isso?”

Mas o que mais me chamou a atenção foi a forma que utiliza para se autoconvencer que “isso é assim”.

“Sr. presidente, o futuro está chegando você querendo ou não, você pode tentar conter essa corrente, mas um dia a represa vai acabar rompendo”.

 

 

As vezes assumimos que as coisas vão acontecer independentemente de nossas ações, por geração espontânea, como forma de nos sentirmos melhores por fazer coisas das quais não nos orgulhamos.

É como dizer que, isso vai acontecer de qualquer forma, portanto, se eu não fizer outro fará, então faço eu.

Me desculpem de novo, mas a destruição massiva de postos de trabalho, e o caos derivado da mesma, só vai acontecer se quisermos e fizermos com que aconteça. O que acontecerá no futuro é absolutamente consequência das decisões que tomemos hoje, e a responsabilidade é total e exclusivamente nossa.

A preocupação do presidente na serie é justa e também ocorre na vida real. Existem grupos de discussões, tanto na Europa como nos EUA, buscando alternativas para que o desemprego massivo que teremos não gere um caos social.

É muito comum que me peçam, em minhas palestras e treinamentos, minha visão sobre se as empresas devem automatizar as fábricas ou aplicar tecnologia para automatizar processos.

Automatização, sim!

Automatização total, não!

Até onde as empresas devem ir?

Onde está o limite?

Não existe receita pronta, cada empresa é uma empresa, cada ciclo produtivo é diferente assim como a cultura organizacional de cada organização.

Conheço empresas, como por exemplo a Sarah Oliver Handbags, que produzia bolsas de crochês com anciãos de casas de repouso americanas. Se levassem a produção à China ou a automatizassem conseguiriam reduzir o custo em mais de 60%, porém preferiam causar impacto positivo nos idosos locais, dando-lhes um trabalho e dignidade. Seus clientes reconheciam isso e compravam as bolsas mesmo sendo mais caros.

A Tecno-Humanização eleva o nível de consciência e humanização da empresa para que ela seja capaz de decidir onde coloca a sua barra.

De qualquer forma, isso ajuda, mas não evita o desemprego.

O segundo ponto é saber como tratar os casos de desligamento, inevitáveis do processo de transformação digital.

Existem muitas coisas que podem ser feitas.

Criar ecossistemas produtivos para estas pessoas.

Dar orientações, treinamentos e formação de diferentes tipos, mostrar que o mundo mudou (e muito), debater sobre o futuro das profissões, orientações sobre empreendedorismo, e principalmente alertar que, daqui pra frente, muita gente não vai viver de um emprego e sim de seu talento conectado em rede.

Eu comecei este artigo perguntando o que o trabalho representa pra você?

Sou consciente da importância do trabalho e também das consequências pela falta dele.

Mas eu não me preocupo pelo emprego, e sim com o ser humano que está por trás dele.

E você?

 

Imagens:  Pixabay

Os efeitos do excesso de tecnologia no ser humano e nas empresas

 

Este artigo foi publicado: no dia 01/10/2019 em minha coluna no portal R7 e no portal Inova360.

 

Todo excesso causa patologia! E o excesso de tecnologia está provocando doenças nas pessoas e problemas nas empresas

Pela primeira vez na história a quantidade de tecnologia disponível supera a nossa capacidade de assimilação e compreensão.

Esta é uma afirmação dura, porém verdadeira.

Vou tratar este tema em duas partes, primeiro falando sobre o impacto nas pessoas e depois nas empresas.

Você já teve a sensação de que foi superado pela quantidade de tecnologia e que não entende mais tudo o que está acontecendo à sua volta?

A cada bate-papo com amigos aprendemos a usar uma função nova que ainda não conhecíamos em nossos aplicativos ou instalamos algo novo que ainda não tínhamos.

Após mais de 6 milhões de anos de evolução e haver superado tantas dificuldades, o ser humano tem a falsa sensação de que controla tudo.

De repente, a quantidade de tecnologia desbordou esta sensação de controle.

E agora?

Todo excesso é prejudicial, sem exceção.

Nos inícios dos anos 90, o psicólogo britânico David Lewis, publicou um artigo “Dying for information” (Morrendo pela informação), e propôs o termo, Síndrome de Fatiga de Informação (IFS – Information Fatigue Syndromme). Com este artigo se iniciou um estudo que finalmente, em 1999, culminou em um livro “Information Overload”.

Após duas décadas, a quantidade de informação se multiplicou de forma exponencial, aumentaram os canais e a velocidade que ela circula e agravou este distúrbio.

Embora isso continue sendo um problema, em algumas pessoas disparou-se um mecanismo de defesa a este excesso de informação que é o de passar a ignorar toda a informação.

O cérebro diz, se eu não posso assimilar e filtrar toda a informação, eu simplesmente bloqueio e ignoro. O extremo de tentar ler e entender tudo não é bom, o de ignorar também não…

Mas antes mesmo de resolvermos este problema já surgiu outro, que talvez devesse ser chamada de Incapacidade de Assimilação da Tecnologia, ou para manter o padrão do IFS, TAI (Technology Absorption Inability).

A falta de capacidade de entender o processo de transformação tecnológica é tão grande, a falta de visão e de respostas sobre o futuro das profissões e dos postos de trabalhos derivados do processo de transformação digital é tão exageradamente grande, que está contribuindo fortemente para o aumento do Transtorno de Ansiedade.

Como apontado, o segundo motivo para humanizar as empresas no artigo – Entenda porque humanizar as empresas é necessário, urgente e rentável – mostramos que o Brasil é o campeão mundial de Transtorno de ansiedade quase três vezes acima da média mundial.

Este problema impacta as organizações de duas maneiras, a primeira é pelo absenteísmo. A depressão e o transtorno de ansiedade, segundo dados do Ministério do Trabalho, é a segunda causa de adoecimento no trabalho e a primeira causa de afastamento. Se as empresas não quiserem olhar pelo lado humano (que deveriam), ao menos que o façam pelo impacto e interesse econômico.

Construímos empresas que nos adoecem e isso não é motivo de orgulho para nenhum de nós.

O segundo problema que as empresas se enfrentam é que, ao existir tanta tecnologia, dedicam uma quantidade enorme de tempo em escolher uma tecnologia, estudam como integrar com as tecnologias atuais, iniciam a implantação e, em muitas ocasiões, antes mesmo de terminar já surgiu outra tecnologia.

Se a empresa cair na armadilha de focar somente na tecnologia, sem entender que ela é somente um meio e não um fim em si mesma corre o risco de ficar presa em uma teia de aranha onde faz muito esforço, investe alta soma e não sai do lugar.

Para profissionais liberais ou pequenos empreendedores esta situação também gera muita angústia, porque eles normalmente não têm conhecimentos nem equipe técnica para ajuda-los neste processo.

Em um workshop recente, uma participante disse que havia decidido fazer o workshop porque a falta de conhecimento profundo sobre o impacto da tecnologia no negócio dela, e isso lhe gerava angústia.

A incerteza tem um poder destrutivo muito grande em nossas vidas e empresas, não nos podemos permitir o luxo deixar que se instale em nós.

Então como devemos atuar?

Proibir e limitar as tecnologias?

Só de escrever a palavra proibir me provocou rechaço. Isto, em minha opinião está fora de cogitação.

Seria a mesma bobagem que se discutiu quando surgiu o documentário Super Size Me, alguém consumiu, de forma voluntária, durante 30 dias comida processada do McDonald’s, engordou e teve vários distúrbios em sua saúde.

Devemos proibir o fast food?

Claro que não!

Cada um deve controlar o próprio consumo.

No máximo, podemos fazer como o documentário e questionar o marketing, o incentivo inconsciente deste tipo de alimentação, os gatilhos mentais e técnicas utilizadas para atrair crianças, enfim, tudo isso é melhorável, porém, jamais proibir.

Da mesma forma acontece com a tecnologia, não devemos demoniza-la, e sim, aprender a utiliza-la a nosso favor.

O melhor, e talvez único, caminho para as empresas não caírem na roda de rota, de onde provavelmente fiquem pressas, correndo sem sair do lugar, fazendo investimento de milhões em tecnologia e avançando muito pouco (ou nada) seria contratar um profissional especializado em transformação, que entenda de tecnologia porém que tenha como principal característica e linha de trabalho, um perfil humanista.

Que coloque as pessoas no centro do processo de inovação e transformação digital e entenda que a tecnologia está para nos servir e que é um meio e não um fim.

Imagens:  Pixabay

A tecnologia matou a padronização

Este artigo foi publicado: no dia 24/09/2019 na minha coluna no R7 e nos portais Inova360 e ITForum365 .

 

A tecnologia nos permite unir dois conceitos, aparentemente, antagônicos, personalizar em grande escala

Extra! Extra! A padronização morreu!

Essa seria a grande manchete gritada pelos meninos nas esquinas para vender seus jornais.

Ao longo da história, muitos movimentos costumam ser pendulares. Na idade média os artesãos eram valorizados por dois motivos, por serem especialistas e por serem capazes de personalizar seus produtos, até o ponto de que cada reino ou feudo tinha seu próprio artesão.

Em tempos atuais, na segunda metade do século passado os produtos feitos à mão eram sinônimo de qualidade e personalização.

Os melhores ternos, os melhores sapatos, as melhores comidas, tudo era feito à mão.

Morei na Europa por 15 anos e era comum ver altos executivos com camisas feitas à mão com suas iniciais bordadas.

O problema disso é que não é possível conseguir escala, a limitação da capacidade produtiva eram as horas do dia do alfaiate, do sapateiro ou da cozinheira.

Então, com a revolução industrial, Taylor, Fayol, entre outros, iniciou-se um processo de industrialização que foi extremamente importante para o crescimento da humanidade.

Com o processo de industrialização e otimização de processo, chegou à padronização. (perfeitamente compreensível e razoável).

Sou de uma época onde o McDonald’s não aceitava mudar nada no lanche para não atrapalhar sua “linha de produção”.

Este conceito foi levado a todos os tipos de negócio e teve um enorme sucesso. Funcionou muito bem durante muitos anos, porém…

Pouco a pouco, as pessoas começaram a sentir a necessidade de customizar, desenvolveram o desejo de ter produtos e serviços customizados, mas nem sempre era possível tecnicamente.

O grande desafio da indústria era como conjugar produção em massa de forma customizada.

Então, chegaram os millennials (Y) e converteram os desejos da geração anterior em exigências, não aceitam produtos padrões.

Esta é uma característica geracional que se acentuou na próxima, os centennials (Z)

Como resolver este dilema? Com tecnologia e metodologias ágeis.

A tecnologia, se, aliada às metodologias ágeis, são capazes de viabilizar o conceito de customização em massa.

Iniciou-se uma corrida frenética para cumprir estas exigências, atender e/ou superar as expectativas dos clientes. Tudo para melhorar a experiência do cliente.

Este movimento iniciou-se fortemente no setor da moda, empresas de roupas e calçados, como Vans, Converse, Adidas, permitem você customizar seu tênis no site.

Embora tenha sido um grande passo ainda era insuficiente, então surgiu a nova geração de customização, a feita a medida literalmente.

A Feetz, startup americana que foi comprada recentemente por um grande grupo de calçado global, dono de muitas marcas, criou um app que permitia você criar o seu sapato à medida.

O funcionamento é simples, tira-se 3 fotos do pé (em diferentes ângulos guiados pelo próprio aplicativo), envia-se, e a Feetz imprimia, usando impressoras 3D o SEU sapato.

No app não era necessário informar o seu número de calçado.

Sabe por quê? Porque não somos simétricos!

Quem nunca sofreu com a seguinte situação:

Compramos um sapato, um pé fica ótimo o outro fica um pouco apertado ou um pouco folgado…

Ao usar o algoritmo da Feetz isso não acontece, o sapato é SEU.

Agora este conceito saiu do mundo da moda e chegou a outros setores. No podcast BE&SK #1, o CEO da Gaia Eletric Motors, Ivan Gorski, nos contou que será possível um cliente solicitar modificações em seu Gaia (obviamente não estruturais) e em 2 ou 3 semanas receber seu veículo customizado.

Até aqui fantástico, desde o ponto de vista da Tecno-Humanização. Aplicar tecnologia para oferecer ao cliente o melhor produto ou serviço possível, de preferência com materiais e conceitos que causem impacto positivos, tanto ambientais como sociais.

Porém… (sempre tem um porém…)

Isso também chegou aos conteúdos, todas as plataformas de streaming e redes sociais, mostram em função dos seus estilos, gostos e histórico de acesso, conteúdos similares.

Para a Tecno-Humanização, aqui começa o perigo.

É perfeito quando o cliente decide o que quer customizar, ele pode receber sugestões, mas sempre é a pessoa que decide.

Quando alguém decide pelo cliente, mostra o que quer escondendo-se atrás de “ofereço o que o cliente quer”, “eu filtro para facilitar para o cliente”, é perigoso.

Quando um corretor de imóveis oferece e diz que um determinado imóvel é ideal pra você, ele está realmente oferecendo o melhor pra você ou o melhor pra ele? O imóvel que mais demora pra vender, o que paga mais comissão…

Quando o gerente do banco te oferece um investimento, ele oferece o melhor pra você ou o melhor pra ele? O investimento que da mais comissão pra ele, o investimento que ele precisa bater a meta de vendas…

No mundo digital provavelmente seja bem pior!

Se alguém me mostra o conteúdo que eu devo consumir, a roupa que eu devo comprar, o que devo comer, está me mostrando o melhor pra mim, baseado em meu perfil, ou o melhor pra ele?

Serve como reflexão e ponto de atenção.

Voltando à customização em massa positiva e sem manipulação, as empresas realmente devem se prepararem para atender os seus clientes de forma customizada e ágil, porque…

A tecnologia matou a padronização.

Imagem: Pixabay

Comprometimento não se compra, se constrói

Este artigo foi publicado no dia 17/09/2019 nos portais R7 e Inova360 e no dia 19/09/2019 no ITforum365

 

Quando o senso de dono é um objetivo e se tenta comprar comprometimento com dinheiro, o resultado a médio prazo costuma ser negativo

Nos últimos anos, muito tem se falado de senso de dono, especialistas em recursos humanos colocando o senso de dono como objetivo a ser perseguido pelas organizações.

Embora tenha vindo com uma nova roupagem este conceito não é novo, há muitos anos é conhecido como “vestir a camisa da empresa”.

Nos casos onde os colaboradores trabalhassem como “se fossem donos”, realmente “vestissem a camisa”, se conseguia um rendimento da equipe muito acima da media.

Nos anos 90, quando as empresas perceberam isso passaram a buscar este comprometimento como forma de melhorar seus resultados.

Estudaram os motivos que levavam a um colaborador a se comprometer e propiciavam todas as condições que isso acontecesse.

E quais eram estes motivos?

Estabilidade, dinheiro e ambição.

Isso era simples de resolver.

Bastava dizer, se o colaborador trabalhar muito, se comprometer realmente com a empresa, terá seu emprego “garantido”, ganhará mais em função da sua produtividade e poderá crescer na empresa.

O problema é que as empresas, nesta época, esqueceram de um pequeno detalhe.

Comprometimento é o ato de comprometer-se com alguém ou com alguma causa.

A palavra tem origem no termo em latim compromissus que significa fazer uma promessa recíproca.

Isto implica que a empresa deveria cumprir sua parte do trato…

Com o crescimento da informática e da automatização industrial, as empresas, em busca de otimização, despediram muita gente (não cumpriram com a estabilidade), pagaram mais somente à alguns colaboradores (não cumpriram a parte do dinheiro) e não promoveram a todo mundo (a ascensão nas empresas era uma pirâmide e não há espaço para todos no topo).

Mesmo sem cumprir com seus compromissos, a empresa insistia em seu discurso usando como exemplo as exceções, os poucos que conseguiam ganhar mais e subir de cargo, e lhes usavam como regra.

Porém, era um preço muito alto a ser pago pela empresa, para cada um que conseguia crescer, havia dezenas ou centenas de pessoas que se frustravam por não ter conseguido.

Neste momento, a estratégia era aumentar a aposta por parte da empresa para seguir com o modelo que tantos benefícios a trouxe.

Era o momento de dizer que: “Se você não conseguiu a promoção, se não ganhou mais dinheiro, é porque não se esforçou o suficiente…”

Muitas empresas passaram do “te pago uma remuneração pelo seu trabalho”  à  “te pago um salário e você me deve a sua alma” e viraram uma máquina de moer carne, de um lado entravam pessoas e pelo outro saiam, uma minoria feliz, porém a imensa maioria se dividia entre frustrados, resignados e doentes.

Ainda nos anos 90 surgiram os workaholics, pessoas que ficaram viciadas no trabalho, que antepunham o trabalho a qualquer outro âmbito da vida, e nesta década os depressivos e ansiosos.

O número chegou a ser tão alarmante que a França decidiu dar um basta a esta escravidão do conectado a qualquer hora em qualquer parte, e em 2017, criou uma lei que obriga as empresas de mais de 50 funcionários negociarem e elaborarem um código de conduta onde se define o horário que fica proibido enviar e receber e-mail, normalmente a noite e finais de semana.

Recentemente, no auge da política fazer mais com menos, o discurso de vestir a camisa voltou, porém com uma nova roupagem, travestido de senso de dono.

As circunstâncias mudaram, no mundo das startups vem acompanhado de, “se nos matarmos de trabalhar podemos virar um unicórnio” – tão possível quanto improvável – e nas empresas tradicionais também mudou, “ou me mato de trabalhar e faço o trabalho de três pessoas ou sou o próximo da lista”.

Eu acredito no trabalho duro, no esforço, na dedicação, porém também acredito que o trabalho deve ser muito mais que um meio de subsistência.

Vamos analisar o conceito de senso de dono desde o ponto de vista da Tecno-Humanização.

Utilizar o senso de dono como ferramenta para alcançar o objetivo de aumento de produtividade é perigoso, por vários motivos.

O primeiro, quando se pede (ou se exige) senso de dono por parte dos gestores e executivos, pode se produzir o surgimento de reino de taifas na empresa, a criação de pequenas facções onde cada executivo olha somente para o seu negócio e da mais importância para a sua parcela que para o todo.

Vou citar apenas um exemplo dos muitos que vivi em minha vida profissional.

Final de ano fiscal, a empresa precisava alcançar os objetivos, o diretor comercial (eu) tinha uma pressão enorme para bater as metas da empresa, disso dependia a continuidade de muita gente na empresa, inclusive a sua.

Fecha-se um grande projeto, é preciso entrega-lo para que se possa faturar e contar para os resultados da empresa.

O fornecedor não entrega os equipamentos porque tem débitos pendentes.

Sabem porque o fornecedor não recebeu seu pagamento?

Porque o diretor financeiro tem objetivos de cash flow, e como é “dono de seu negócio”, reteve os pagamentos.

É sua função velar para que finanças bata suas metas, o pequeno detalhe é que isso faz com que o diretor comercial (e a empresa) não bata a sua.

Este tipo de coisas gera enorme desgastes nas organizações, conflitos de interesses porque tem muitos “donos” de parcelas e poucos (ou nenhum) donos completos.

E já se sabe, cachorro com dois donos morre de fome…

E-mails, ligações, reuniões, escalações, para se chegar a um consenso, enquanto isso, o mercado lá fora correndo solto…

Outro ponto negativo do enfoque a que se da ao senso de dono é que muitas empresas tentam compra-lo.

E a moeda de troca já não é mais o dinheiro, não se consegue comprometimento nem engajamento (palavra mais adequada para os dias de hoje), com o talão de cheque nem com o chicote.

Para atrair e reter talento, para conseguir engajamento é necessário ter um propósito.

Um dos direcionadores mandatório da Tecno-Humanização no nível organizacional é Propósito.

Porém é muito importante entender que o propósito não é definido por uma agência de marketing, como acabou acontecendo com a missão, visão e valores no passado.

Não se trata de uma declaração de boas intenções se não de uma razão de existir real empresa, algo que está dentro dela e deve ser minerado.

Outro ponto importante é que não basta descobrir o propósito da empresa, é necessário conseguir o engajamento de todos os stakeholders a ele.

Para isso não basta um quadro na recepção, uma apresentação do presidente e um e-mail a todos os colaboradores, isso deve ser feito com algumas macro-ações e muitas micro-ações.

A Tecno-Humanização desenvolve este direcionador com muita diligência que se merece, com ferramenta e metodologia específica tratada por especialista. (em breve escreverei um artigo sobre propósito)

Ao final o senso de dono é bom ou não?

A Tecno-Humanização acredita que sim, porém o senso de dono deve ser por engajamento ao propósito e não pelo talão de cheque, coletivo e não individual, isso sim aumenta a produtividade e os resultados.

É fundamental que as empresas entendam que…

Comprometimento não se compra, se constrói.

Imagem: Pixabay

A tecnologia está para nos servir, não o contrário

Este artigo foi publicado: no dia 09/09/2019 no ITForum365 e no dia 11/09/2019 no portal Inova360.

 

O Japão criou possivelmente a primeira divindade androide do mundo e ela é budista

Androide Kannon Mindar, lembre-se deste nome, porque agora está sendo reverenciado e, em breve, talvez se torne um líder religioso.

A novidade foi lançada em fevereiro deste ano no Templo Kodaiji em Kyoto. O investimento de quase USD 1 milhão para a construção do androide foi uma colaboração entre o templo zen e Hiroshi Ishiguro, professor de robótica inteligente da Universidade de Osaka.

Kannon prega os ensinamentos budistas em japonês e nos telões à sua volta em inglês e chinês para os turistas.

Como entusiasta da tecnologia e especialista em transformação digital humanizada, me chamou a atenção ver um robô em um templo de mais de 400 anos, falando sobre uma filosofia de mais de 2.600 anos para uma cultura muito mais milenar ainda, então eu resolvi escrever um artigo diferente esta semana.

Não vou falar de conceitos da Tecno-Humanização de forma genérica, e sim analisar esta notícia, sem julgamentos.

Vou aplicar a mesma técnica que utilizo em meus treinamentos, vou analisar esta situação como um consultor de tecnologia e depois como um Tecno-Humanista.

Como consultor de tecnologia…

O budismo, assim como a maioria das religiões, filosofias humanistas e espiritualistas estão experimentando um envelhecimento de seus fiéis e uma dificuldade enorme em conseguir o engajamento com as novas gerações.

Diante deste fato, provavelmente um consultor de tecnologia, com a incumbência de retomar o crescimento e engajamento com os jovens, e seguindo a corrente da transformação digital provavelmente pense em aplicar tecnologia para resolver essa questão.

G13-1 v3

Criar um robô, com afeições humanoides para criar empatia, deixar as partes mecânicas expostas para mostrar que é um robô e desta forma consegue-se conectar com os jovens. Colocar uma câmera no olho do robô para “ver” onde estão as pessoas, e desta forma girar, movimentar o tronco, cabeça e as mãos. Usar Inteligência Artificial para aprender e transmitir os ensinamentos de Buda e pronto. Solucionado!

Ah! Por certo, posso traduzir os ensinamentos a qualquer idioma e atender os turistas de qualquer país e desta forma melhorar a experiência do cliente.

Será preciso armazenar os conhecimentos em cloud, melhorar a segurança cibernética para evitar que alguém invada o sistema e possa colocar qualquer tipo de mensagem inadequada nos textos de buda.

Até aqui é o que temos hoje com o androide Kannon Mindar.

Mas um bom consultor, além de criar este projeto, pode inclusive vislumbrar e “vender” a ideia de que os próximos passos seriam:

  • Criar robôs menores, que possam interagir com os leigos, falar com eles, em linguagem natural (e em vários idiomas) e utilizando os módulos de reconhecimento de voz e de imagem, é possível identificar o estado emocional e, somando a análise sintática da fala, o robô poderá escolher o melhor ensinamento para aquele momento.
  • Fazer uma varredura na internet, redes sociais e parceria com grandes bases de dados, somente utilizando os dados públicos ou autorizados, o novo líder espiritual, aplicando big data e analytics poderia ser extremamente assertivo.
  • Vamos mais longe, seguindo as tendências dos modelos de assinatura, se oferece ao cliente um serviço de assessoria espiritual. O cliente autoriza o acesso aos dados privados e paga uma mensalidade em troca de uma solução para seus problemas… o androide poderia se converter em “Buda” (ou “Deus”) na terra com tanta informação.

A nova empresa Budandroidenaterra Ltda precisaria de uma forte governança para evitar que o androide compartilhe segredos de um membro de sua comunidade com outros. E com processos, compliance e governanças fortes, já podem abrir o capital, crescer e dormir tranquilos porque cumprem todos os requisitos exigidos pelos investidores e mercado.

Um momento…

Realmente este é o caminho a seguir?

Agora vamos analisar como um Tecno-Humanista…

Quando li a reportagem pela primeira vez sobre um robô que estava pregando em um templo budista japonês, me chamou atenção

O primeiro que me veio à cabeça foi, “Para o mundo que eu quero descer…“, citando a Silvio Brito (quem tem a mesma quantidade de juventude acumulada que eu, se lembrará)

Levar os ensinamentos de Buda ao mundo, mesmo aos que não são budistas é algo bom?

Eu acredito que sim.

Transmitir ensinamentos que buscam libertar do sofrimento, em minha opinião, é sempre positivo, independente da crença de religiosa de cada um.

Usar a tecnologia para engajar o jovem, para chegar a mais pessoas, para romper a barreira dos idiomas, tudo isso é extremamente positivo.

E usar aplicativos para ajudar e ensinar a meditar?

Válido também!

Criar comunidades virtuais para compartilhar informações e ensinamentos?

Ótimo!

Divulgar os ensinamentos através de e-books, vídeos, podcasts, usar realidade virtual e realidade aumentada para aumentar o impacto de alguns ensinamentos e transportar as pessoas a locais que realmente transmitam tranquilidade e paz.

Fantástico!

Toda essa tecnologia ajuda?

Sim!

Substitui o feeling, a energia e a sabedoria de um monge?

Eu acredito que não.

Dia da apresentação do Kannon Mindar.

Imagens:  Pixabay e Kyoto News

Cuidar das pessoas aumenta a taxa de sucesso da transformação digital

Este artigo foi publicado: no dia 21/08/2019 no ITForum365 e no dia 27/08/2019 em minha coluna no portal R7 e no portal Inova360.

 

Contratar uma empresa de tecnologia para fazer sua transformação digital é tão absurdo quanto um laboratório farmacêutico cuidar da sua saúde

Sinceramente eu não entendo…

Se você não contrata um laboratório farmacêutico para cuidar da sua saúde, por quê contrata uma empresa de tecnologia para fazer a sua transformação digital? Se você contratasse um laboratório farmacêutico para cuidar da sua saúde, o que ele te recomendaria como a única solução para ser saudável?

O que ele te venderia? REMÉDIO.

A questão é que para cuidar da sua saúde você não precisa de remédio, você precisa dormir bem, se alimentar de forma saudável, praticar atividade física, buscar equilíbrio em sua espiritualidade, e, eventualmente, quando fica doente, você precisa de remédio. É exatamente isso que acontece quando você contrata uma empresa de tecnologia para fazer o seu processo de transformação digital, eles te vendem TECNOLOGIA.

E para um processo de transformação tecnológica, você precisa fundamentalmente, preocupar-se e ocupar-se das pessoas, depois do modelo de negócio e para viabilizar esta transformação, aplicar tecnologia.

Leia o artigo –  Fique atento: as tecnologias analógicas também vão impactar a sua vida para entender porque eu já não falo transformação digital e sim transformação tecnológica

Esse é um erro de conceito e o mais comum no processo de transformação digital das empresas. Olhar somente para a tecnologia é se preocupar com o final sem cuidar do processo de transformação em si.

A BE&SK encontrou o modelo matemático que explica este erro e mostra o caminho para corrigi-lo.

Modelo matemático: Viés da sobrevivência

Durante a segunda guerra mundial os EUA encomendaram a seus engenheiros que reforçassem seus aviões para evitar que fossem abatidos.

Como era inviável por peso, blindar todo o avião, os engenheiros analisaram os aviões que regressavam de combate e definiram as áreas com mais furos de balas como as áreas mais frágeis e, portanto, as que deveriam ser reforçadas.

Esta estratégia se mostrou um fracasso e os aviões americanos continuavam a serem abatidos. E sabe por quê? Porque os aviões analisados eram os que sobreviviam ao ataque, portanto, os furos de balas mostravam as áreas, que mesmo atingidas, não eram tão críticas porque o avião resistia ao ataque.

O matemático e estatístico Abraham Wald, que conhecia o viés de sobrevivência, e participou do SRG (grupo de pesquisa de estatística) encarregado de resolver este problema, mostrou que as partes que deveriam ser reforçadas eram justamente as que não possuíam tiros, porque provavelmente eram as que, quando atingidas derrubavam os aviões (tanque de combustível, motor e piloto).

Hoje, este modelo matemático, com ferramentas mais modernas, é usado por fundos de investimentos para bater índices de referências do SP&500.

Como o viés de sobrevivência nos ensina a aumentar a taxa de sucesso do processo de transformação digital?

Ao aplicar tecnologia para resolver seus problemas atuais, a imensa maioria por não dizer todos, estão relacionados ao crescimento, tais como aumentar as vendas (receita), reduzir custos, otimizar seu negócio e seus processos, isso significa blindar a parte que, mesmo atingida, mantém o avião no ar.

Não é a tecnologia que vai resolver estes problemas, ela só vai digitalizá-lo.

E como eu mostrei em meu artigo Crescimento vs. desenvolvimento, digitalizar este jogo só acelera o colapso.

Quando uma empresa digitaliza seus processos para melhorar a experiência do cliente, ela impacta seus clientes, transformando a forma de entregar seu produto e a forma deles consumi-lo. Isso gera mudança de comportamento nos clientes e na sociedade.

Quando a tecnologia é usada para otimizar processos, isso impacta os produtos, serviços, colaboradores, a forma de trabalhar, a cultura organizacional etc.

Em qualquer caso, sejam impactos internos ou externos, a transformação digital não acontece no datacenter, ela SEMPRE acontece nas pessoas.

Ao colocar a tecnologia no centro do processo de transformação digital a empresa está olhando para o lado errado.

Como resolver este problema?

A Tecno-Humanização coloca o ser-humano no centro do processo de inovação e transformação digital, a partir dele, desenha uma organização rentável e consciente que resolva problemas reais do ser-humano, e então, aplica tecnologia para viabilizar este modelo.

Obviamente a tecnologia tem muita relevância no processo de transformação tecnológica, porém elas são um meio e não um fim me si mesma.

A tecnologia representa menos de 20% do processo de transformação tecnológico de uma empresa, e sua função é viabilizar um processo de transformação mais amplo.

Esta afirmação é feita de acordo com o modelo de transformação digital ativa e passiva da BE&SK (escreverei um artigo em breve falando sobre isso), e ajuda as empresas a entenderem o porquê os estudos de McKinsey, Forbes, Wipro, Gartner, mostram que mais de 70% dos processos de transformação digitais não funcionam.

Todo processo de transformação, seja tecnológico, de negócio, comportamental, sempre começa e termina no ser-humano, organizações e negócios só existem por e para o ser-humano, pensar de forma diferente é atuar contra si mesmo.

E neste caso, termino como comecei.

Sinceramente eu não entendo…

Imagem: Pixabay

Dessingularizando a Singularidade

Este artigo foi publicado: no dia 17/08/2019 no ITForum365 e no dia 20/08/2019 em minha coluna no portal R7 e no portal Inova360.

 

Todo modelo, com o tempo, se deteriora e se distancia de seu propósito inicial

Um bom dia 4.0 pra você!

Você quer um café disruptivo ou exponencial?

As frases acima pareceram estúpidas? Pois é, você tem razão, elas são mesmo.

Você achou que elas te fizeram perder tempo?

É assim que eu me sinto quando leio a quantidade de bobagens e modismos que as pessoas seguem sem saber porque o estão fazendo.

Vivemos em uma era rodeados de tecnologias e modelos de negócios disruptivos e exponenciais, e segundo especialistas, isso nos levará a singularidade.

O conceito da singularidade foi emprestado da física, ele é usado para descrever fenômenos tão extremos que as equações não são capazes de descrever e levam as leis da física ao absurdo. Talvez o exemplo mais significativo que ilustre este fenômeno seja o buraco negro.

Peter H. Diamandis, vendo como se comportavam as tecnologias e startups no Vale do Silício, com crescimentos exponenciais criou a Singularity University, uma das mais prestigiosas escolas de inovação do mundo atualmente.

Por lá passam muitos gurus, dando palestras e cursos imersivos para milhares de pessoas de todo o mundo, onde transmitem que entre 2010 e 2140 a humanidade será levada a um estágio de singularidade, onde as tecnologias evoluem cada vez mais aceleradamente, se integram uma com as outras, causam impacto e transformam rapidamente a realidade. Segundo os especialistas, não é possível prever o que acontecerá ao chegarmos no momento da singularidade.

Baseado nos princípios da singularidade, tomando a previsão dos gurus como certa e inevitável, desenvolvemos um modelo de negócio tão absurdo como a própria singularidade. Acredito que a nossa forma de atuar nos levará ao caos muito antes que a singularidade em si. Seremos capazes de gerar o nosso próprio buraco negro pela quantidade de bobagens que fazemos sem perceber, somente por seguir a corrente.

Não estou dizendo com isso que não devemos ser conscientes da exponencialidade dos negócios e das tecnologias. Muito menos que fechemos os olhos à nova realidade, positiva e negativa, que elas nos proporcionam.

O que digo é que busquemos o equilíbrio. Alguém falou, seja quem for, que este é o caminho, todos vamos como cordeirinhos sem questionar.

Querem exemplos?

Estamos orientando os jovens as construírem startups sob o mantra de que uma empresa deve curar a “dor do cliente”. Isso significa que se uma empresa vive de curar a dor do cliente, o que ela deseja com todas as suas forças quando se levanta pelas manhãs?

Que o cliente tenha dor! E se ele não tem? Nós criamos!

Chamamos o departamento de marketing e criamos uma campanha para gerar dor no cliente, porque disso vivemos, de curar a dor que, em muitos casos, nós mesmos causamos. Por exemplo, na Tecno-Humanização, isso não é aceitável.  Uma empresa deve aliviar a dor do cliente, mas deve existir para curar a causa da dor, isso é muito mais consciente e humanizado.

Outro ponto que me chama a atenção é o modismo com o qual eu comecei o artigo, a indústria 4.0. Todo mundo fala disso o tempo todo, o que por um lado é bom, mas quando vejo os dados do estudo Indústria 2027 feito pela CNI (Confederação Nacional da Indústria), a MEI e o Instituto Euvaldo Lodi que mostram que somente 1,7% das indústrias atuam no padrão 4.0, e que não existe a intenção de 21% dos empresários atuarem neste padrão nos próximos 10 anos (o que é uma eternidade). Então eu me pergunto, será que as empresas estão falando de indústria 4.0 porque tem real interesse em adotá-los ou querem parecer que estão atualizadas, mas continuam fazendo o mesmo?

Tem muita gente que confunde agilidade e aceleração com pressa.

Exigimos que tudo seja urgente, com a desculpa da exponencialidade, mas nós mesmos não somos. Estamos adestrando, infelizmente é essa palavra,  jovens empreendedores a construírem pitches de 3 minutos para explicarem o seu modelo de negócio. E sabem por quê?

Porque alguém disse que é o tempo que um investidor (que se chama de anjo) está disposto a dedicar do seu precioso tempo para ouvir o que um jovem tem a dizer, e baseado nestes 180 segundos, decidir se compra o seu sonho ou não.

É obvio que quando estamos diante da oportunidade de apresentar nosso negócio a um investidor, não podemos ser prolixos. A capacidade de síntese é uma característica de pessoas que se comunicam bem, se expressam bem e normalmente são eficientes. Todas elas são competências muito valorizadas no mundo dos negócios e na vida. Mas os cursos de empreendedorismo não ensinam isso, simplesmente exigem que o pitch tenha 3 minutos, porque “é assim que se faz no Vale do Silício”. “Mentores” de empreendedorismo mandam seus mentorados fazerem cursos com fonoaudiólogo e aprenderem a respirar.

Isso é absurdo e chega ser cruel, mas a máquina de moer de carne que criamos é assim. Com o objetivo de colocar um pouco de bom-senso neste processo de aceleração desmedido, existem alguns movimentos que surgiram nos EUA e muitas startups começam a rejeitar o modelo de crescimento acelerado.

Isso está crescendo tão rápido (de forma acelerada e exponencial) que a Zebras Unite já tem 40 filiais e 1.200 membros em todo o mundo. Este crescimento chamou a atenção dos investidores e já tem algumas Venture Capitals oferecendo um modelo de crescimento e remuneração menos agressivo.

Tem muita gente que confunde agilidade e aceleração com pressa.

São coisas muito diferentes, e ao crescer com pressa deixamos coisas pelo caminho, aprendizados, ajustes no produto e no negócio. Outro dia vi uma entrevista do Oswaldo Montenegro que dizia que se arrepende de algumas coisas em sua carreira, e uma delas é que, pela sua ansiedade patológica, ter feito algumas coisas com pressa e não ter dado o acabamento que aquilo merecia.

Será que não é possível correr para acompanhar o ritmo global sem atropelar?

Eu acho que sim.

Por certo, há 4 parágrafos atrás, eu teria terminado meu tempo de apresentação a um investidor anjo.

Imagem: Pixabay

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