Dessingularizando a Singularidade

Este artigo foi publicado: no dia 17/08/2019 no ITForum365 e no dia 20/08/2019 em minha coluna no portal R7 e no portal Inova360.

 

Todo modelo, com o tempo, se deteriora e se distancia de seu propósito inicial

Um bom dia 4.0 pra você!

Você quer um café disruptivo ou exponencial?

As frases acima pareceram estúpidas? Pois é, você tem razão, elas são mesmo.

Você achou que elas te fizeram perder tempo?

É assim que eu me sinto quando leio a quantidade de bobagens e modismos que as pessoas seguem sem saber porque o estão fazendo.

Vivemos em uma era rodeados de tecnologias e modelos de negócios disruptivos e exponenciais, e segundo especialistas, isso nos levará a singularidade.

O conceito da singularidade foi emprestado da física, ele é usado para descrever fenômenos tão extremos que as equações não são capazes de descrever e levam as leis da física ao absurdo. Talvez o exemplo mais significativo que ilustre este fenômeno seja o buraco negro.

Peter H. Diamandis, vendo como se comportavam as tecnologias e startups no Vale do Silício, com crescimentos exponenciais criou a Singularity University, uma das mais prestigiosas escolas de inovação do mundo atualmente.

Por lá passam muitos gurus, dando palestras e cursos imersivos para milhares de pessoas de todo o mundo, onde transmitem que entre 2010 e 2140 a humanidade será levada a um estágio de singularidade, onde as tecnologias evoluem cada vez mais aceleradamente, se integram uma com as outras, causam impacto e transformam rapidamente a realidade. Segundo os especialistas, não é possível prever o que acontecerá ao chegarmos no momento da singularidade.

Baseado nos princípios da singularidade, tomando a previsão dos gurus como certa e inevitável, desenvolvemos um modelo de negócio tão absurdo como a própria singularidade. Acredito que a nossa forma de atuar nos levará ao caos muito antes que a singularidade em si. Seremos capazes de gerar o nosso próprio buraco negro pela quantidade de bobagens que fazemos sem perceber, somente por seguir a corrente.

Não estou dizendo com isso que não devemos ser conscientes da exponencialidade dos negócios e das tecnologias. Muito menos que fechemos os olhos à nova realidade, positiva e negativa, que elas nos proporcionam.

O que digo é que busquemos o equilíbrio. Alguém falou, seja quem for, que este é o caminho, todos vamos como cordeirinhos sem questionar.

Querem exemplos?

Estamos orientando os jovens as construírem startups sob o mantra de que uma empresa deve curar a “dor do cliente”. Isso significa que se uma empresa vive de curar a dor do cliente, o que ela deseja com todas as suas forças quando se levanta pelas manhãs?

Que o cliente tenha dor! E se ele não tem? Nós criamos!

Chamamos o departamento de marketing e criamos uma campanha para gerar dor no cliente, porque disso vivemos, de curar a dor que, em muitos casos, nós mesmos causamos. Por exemplo, na Tecno-Humanização, isso não é aceitável.  Uma empresa deve aliviar a dor do cliente, mas deve existir para curar a causa da dor, isso é muito mais consciente e humanizado.

Outro ponto que me chama a atenção é o modismo com o qual eu comecei o artigo, a indústria 4.0. Todo mundo fala disso o tempo todo, o que por um lado é bom, mas quando vejo os dados do estudo Indústria 2027 feito pela CNI (Confederação Nacional da Indústria), a MEI e o Instituto Euvaldo Lodi que mostram que somente 1,7% das indústrias atuam no padrão 4.0, e que não existe a intenção de 21% dos empresários atuarem neste padrão nos próximos 10 anos (o que é uma eternidade). Então eu me pergunto, será que as empresas estão falando de indústria 4.0 porque tem real interesse em adotá-los ou querem parecer que estão atualizadas, mas continuam fazendo o mesmo?

Tem muita gente que confunde agilidade e aceleração com pressa.

Exigimos que tudo seja urgente, com a desculpa da exponencialidade, mas nós mesmos não somos. Estamos adestrando, infelizmente é essa palavra,  jovens empreendedores a construírem pitches de 3 minutos para explicarem o seu modelo de negócio. E sabem por quê?

Porque alguém disse que é o tempo que um investidor (que se chama de anjo) está disposto a dedicar do seu precioso tempo para ouvir o que um jovem tem a dizer, e baseado nestes 180 segundos, decidir se compra o seu sonho ou não.

É obvio que quando estamos diante da oportunidade de apresentar nosso negócio a um investidor, não podemos ser prolixos. A capacidade de síntese é uma característica de pessoas que se comunicam bem, se expressam bem e normalmente são eficientes. Todas elas são competências muito valorizadas no mundo dos negócios e na vida. Mas os cursos de empreendedorismo não ensinam isso, simplesmente exigem que o pitch tenha 3 minutos, porque “é assim que se faz no Vale do Silício”. “Mentores” de empreendedorismo mandam seus mentorados fazerem cursos com fonoaudiólogo e aprenderem a respirar.

Isso é absurdo e chega ser cruel, mas a máquina de moer de carne que criamos é assim. Com o objetivo de colocar um pouco de bom-senso neste processo de aceleração desmedido, existem alguns movimentos que surgiram nos EUA e muitas startups começam a rejeitar o modelo de crescimento acelerado.

Isso está crescendo tão rápido (de forma acelerada e exponencial) que a Zebras Unite já tem 40 filiais e 1.200 membros em todo o mundo. Este crescimento chamou a atenção dos investidores e já tem algumas Venture Capitals oferecendo um modelo de crescimento e remuneração menos agressivo.

Tem muita gente que confunde agilidade e aceleração com pressa.

São coisas muito diferentes, e ao crescer com pressa deixamos coisas pelo caminho, aprendizados, ajustes no produto e no negócio. Outro dia vi uma entrevista do Oswaldo Montenegro que dizia que se arrepende de algumas coisas em sua carreira, e uma delas é que, pela sua ansiedade patológica, ter feito algumas coisas com pressa e não ter dado o acabamento que aquilo merecia.

Será que não é possível correr para acompanhar o ritmo global sem atropelar?

Eu acho que sim.

Por certo, há 4 parágrafos atrás, eu teria terminado meu tempo de apresentação a um investidor anjo.

Imagem: Pixabay

Fique atento: as tecnologias analógicas também vão impactar a sua vida

Este artigo foi publicado no dia 06/08/2019 em minha coluna no portal R7 e no portal Inova360.

 

Limitar-se às tecnologias digitais é se expor à riscos ou desperdiçar as oportunidades das tecnologias analógicas

Muitas empresas me consultam e me pedem ajuda para seus processos de transformação digital e quando eu pergunto se estão considerando também as tecnologias analógicas, tanto em seus processos de transformação digital ativa como passiva, todos me olham com estranhamento e espanto.

Se estou acompanhado por alguém da minha equipe, já se espera por esse momento, para ver a reação do cliente.

Nas palestras acontece o mesmo e provavelmente você, ao ler este artigo, também esteja curioso. Afinal, falar de tecnologias analógicas em pleno século 21, na era da Inteligência Artificial, chama bastante a atenção.

Muita gente tem cometido alguns erros de conceito, o primeiro é pensar que a tecnologia é o centro deste processo de transformação. Esta afirmação não é 100% correta e falaremos disso em outro artigo, porém um erro mais grave tem sido cometido, induzido pela indústria de tecnologia.

Quando falamos em transformação digital, nos referimos apenas a tecnologias digitais.

O processo de transformação digital se estrutura normalmente em três pilares:

1- Experiência do cliente

2- Otimização de processos

3- Infraestrutura

E, em alguns casos, existem empresas que começam a se preocupar por um 4º pilar, a cultura organizacional, mas ainda não sabe muito bem como integrar com os outros três.

É comum as empresas se concentrarem em dezenas de tecnologias para realizar sua transformação digital ativa (Leia o artigo “Sinto muito, mas a transformação digital não vai salvar a sua empresa” para entender a diferença entre transformação digital ativa e passiva).

Elas mergulham em um emaranhado de dezenas de tecnologias, suas características técnicas, seus diferencias de linguagens, interfaces, protocolos e como integrá-las à infraestrutura existente.

Se não bastasse a parte técnica, elas avaliam uma quantidade enorme de fatores, como espaço, consumo, capacidade de crescimento, escalabilidade, modelo de compra, aluguel, pago por uso, entre outros.

E com tanta tecnologia e projetos, podem passar toda a vida neste circuito.

Do pó de piscina às carnes de laboratório

Como sempre, para que não seja algo abstrato eu vou dar alguns exemplos.

Podemos falar sobre um pó que a BE&SK está trazendo para o Brasil, que ao ser colocado na piscina, muda a densidade da água, evita afogamentos e consequentemente elimina o uso de boias.

Um pó não é digital, mas vai impactar a indústria que fabrica boias, matéria prima (plástico) e demais insumos e toda a cadeia desta indústria.

Ou um ar condicionado portátil, lançado pela Sony, e que pode ser colocado na roupa. É do tamanho de uma bateria extra de celular, é analógico, mas se cumprir o seu papel, pode revolucionar o mercado de ar-condicionado residencial e inclusive centralizados, individualizando o controle da climatização.

Isto impacta, em primeira instância, os fabricantes de ar-condicionado e a profissão de instalador. Os impactos secundários são as empresas elétricas, os fabricantes de ferramentas, de dutos, material de construção, escolas profissionalizantes de instaladores, e uma longa lista.

Estes impactos podem ser analisados na ferramenta de análise de impacto da tecnologia da Tecno-Humanização, da BE&SK.

Porém, a tecnologia analógica que tem chamado mais a atenção nos últimos anos são as carnes de laboratório.

Na última década foram investidos mais de 18 bilhões de dólares em projetos de carnes de laboratório, alguns deles já estão no mercado.

A maioria são carnes baseadas em vegetais.

O Impossible Burguer, por exemplo, já captou mais de USD 750 milhões, está em centenas de hamburguerias americanas e recentemente fechou um contrato com o Burguer King para incluir no menu um lanche com o Impossible Burguer.

O Beyond Burguer, seu maior concorrente, em seu mais recente IPO superou o valor de mercado de USD 1 bilhão se convertendo em um unicórnio (startup com valor de mercado superior a 1 bi).

A Nestlé lançou na Europa o Awesome Burger e estima lançar nos Estados Unidos em outubro deste ano.

São hambúrgueres que têm textura de carne, cheiro de carne, gosto de carne, se pode dar o ponto de carne (bem, ao ponto e malpassado), porém não é de carne.

No Brasil temos o Futuro Burger, a marca que, ainda distante, mais se aproxima dos exemplos acima.

Em outra linha de pesquisa, na Holanda, temos a Mosa Meat que, a partir de uma fibra de músculo bovino, extrai a célula tronco e em poucas semanas tem um hambúrguer de laboratório.

São muitos os motivos que levam este produto a ser uma das estrelas do mercado de proteína, como o aumento da população mundial, sustentabilidade (água, terra, efeito estufa), mudança comportamental, preocupação com bem-estar animal, aumento de movimentos vegetariano e vegano.

O importante aqui é que este tipo de tecnologia vai impactar (e muito) os produtores de gado, transporte, mercado veterinário, vacinas, seguros, frigoríficos etc.

Agora faço uma pergunta.

Um pó para piscina, um ar-condicionado portátil e um hambúrguer são digitais?

Ser consciente disso pode trazer muitos benefícios, por exemplo, se você começar a cultivar as plantas para o hambúrguer pode ser uma grande oportunidade, por outro lado, desconhecer ou ignorar as tecnologias analógicas pode representar o fim do seu negócio.

Veja um exemplo de uma tecnologia analógica no canal observatório BE&SK.

Imagem: Pixabay

Inovações com (e sem) propósito

Este artigo foi publicado no dia 23/07/2019 em minha coluna no portal portal R7 e no portal Inova360.

 

Nunca tivemos tantas oportunidades de construir empresas rentáveis e uma sociedade melhor por meio da inovação

Há dois anos eu assisti uma palestra, onde havia um slide mostrando que, segundo a McKinsey, 85% dos CEOs consideravam que seus modelos de negócio estavam em risco e somente 8% mostravam-se satisfeitos com seus processos de inovação.

Em dois anos, muita coisa aconteceu, temos mais tecnologia que nunca, recursos, metodologia, conhecimentos e muita necessidade em todos os âmbitos da sociedade e dos negócios, portanto, todos os ingredientes para inovar.

Porém, há algumas semanas, para minha surpresa, me deparo com este gráfico abaixo extraído dos resultados do Gartner Survey 2019.

Os altos executivos continuam pensando em crescimento, porém não priorizam a inovação.

Crescer sem inovar, só tem um caminho, maximizar receita canibalizando market share do concorrente, e muitas vezes penalizando a rentabilidade para isso, e reduzindo custo, seja via reestruturação, otimização de processos e aplicando tecnologia que substitui mão-de-obra não criativa.

Há três problemas aqui, primeiro pensar em crescimento e não em desenvolvimento. É muito diferente uma coisa da outra e publicarei um artigo sobre isso na próxima semana. O segundo problema é que o caminho de “fazer mais com menos” está esgotado. Não me refiro às empresas mal administradas, que ainda tem caminho por percorrer neste aspecto, falo em nome dos profissionais que já não aguentam mais este modelo. Este tipo de ação é um verdadeiro espanta talentos, porque está baseado na pressão desmedida e no crescimento soma zero que, para um ganhar, o outro tem que perder. O terceiro e preocupante ponto está na baixa prioridade da inovação.

Ainda temos muitos empresários que pensam que inovar é para grandes empresas, para multinacionais ou que são necessários investimentos milionários. No outro extremo, tem os que pensam que basta montar uma sala colorida, puffs, mesas de ping pong, liberar o dress code e flexibilizar os horários.

Outro dia me deparei com um diretor de marketing de uma grande empresa que buscava um palestrante para um evento que estavam organizando e o requisito básico era que o palestrante tivesse feito algum curso na Singularity, como se isso fosse garantia de conhecimento em inovação.

Óbvio que a Singularity é uma referência e seus cursos são ótimos, porém não o são por si só. Neste caso, a visão era tão pobre que não importava o conteúdo, bastava dizer que esteve lá.

Inovações pouco úteis

Deixando as que não inovam e as que só se preocupam em aparentar que são inovadoras sem ser, por incrível que pareça, há um grupo pior ainda. O grupo das empresas que gastam mal os recursos e inovam sem nenhum propósito.

Outro dia eu me deparei com um post, em uma rede social, onde estavam comentando o incrível que era umas cadeiras que possuíam motores nas rodas, vários sensores, e tudo isso para que?

Para que, quando acabasse o expediente no escritório ou a reunião, bastasse bater palma e as cadeiras voltariam ao seu lugar.

O que a empresa ganharia com isso? Economizar o salário da pessoa que arruma as cadeiras? Como empresa e como sociedade, não seria melhor dedicar o esforço em educar as pessoas para cada uma colocar a sua cadeira no lugar e investir este dinheiro e tecnologia em melhorar a qualidade de vida de pessoas sem mobilidade? Este é um claro exemplo de inovação sem propósito.

Ainda bem que eu pesquisei e descobri que as cadeiras foram lançadas pela Nissam (sim, a dos carros) e se trata apenas de uma campanha publicitária para mostrar e testar o seu sistema de estacionamento automático. Outro ponto negativo para a pessoa que postou a informação. Além elogiar uma tecnologia absurda, em minha opinião, não checou a fonte, pois não se tratava de um produto comercial real.

Mas as reflexões feitas anteriormente continuam sendo válidas. Eu trouxe esse exemplo por não se tratar de um produto real (não quero ofender nenhum produto mesmo que ao meu modo de ver seja inútil), eu só quero mostrar como empresas desaproveitam a tecnologia com inovações pouco úteis.

Olhar diferente para o que nos rodeia

Para nossa sorte, a imensa maioria de startups que surgem buscam, por meio da inovação, construir um mundo melhor, e suas inovações passam a ser seu diferencial competitivo.

Inovar não depende exclusivamente de tecnologia ou grandes investimentos, basta ter um olhar diferente para as coisas que nos rodeiam e buscar soluções, de produtos, serviços ou modelos de negócios diferentes.

Vemos empresas como a Bananatex, que criou o primeiro tecido durável do mundo feito com folha da bananeira e impermeável com cera de abelha (assista o vídeo ao final do artigo).

A Function X, que anunciou que lançará no final de 2019 o primeiro celular P2P baseado em blockchain. Isso elimina totalmente as operadoras e garante a segurança da informação.

Sim, estas tecnologias precisaram de altos investimentos, porém, por outro lado temos exemplos onde inovar não está relacionado com investimento e sim com um olhar diferente e desejo de construir um mundo melhor.

Podemos citar a Zerezes, empresa brasileira que fabrica armação de óculos com materiais reciclados, e o carro chefe são as armações de madeira, ou ainda a Fruta Imperfeita, que vende cestas de frutas e legumes imperfeitos na estética, porém perfeitos de sabores. Estas frutas e legumes seriam descartados para o consumo, apodreciam e seriam jogados fora.

O denominador comum destas empresas é a geração de competitividade e rentabilidade com impactos positivos, tanto social como de meio ambiente

Inovação não faz sentido se não for para gerar abundância e inclusão social.

Assista o video do canal observatório BE&SK.

Imagem: Pixabay