Basta! A diretoria de recursos humanos deve acabar!

Este artigo foi publicado no dia 30/01/2020 no IT Forum 365

 

Não faz mais nenhum sentido reduzir o ser humano a um recurso. A nomenclatura reflete a forma de atuar.

Isso mesmo. Basta!

Começamos chamando o departamento que deveria cuidar das pessoas de recursos humanos e terminamos tratando os humanos como recursos.

Isso não é mais aceitável!

É inegável a contribuição de Taylor e Fayol para o desenvolvimento da administração moderna. A economia mundial e, consequentemente, o desenvolvimento da humanidade no último século se deve em parte ao trabalho realizado por eles.

Foram simplesmente brilhantes.

Porém, segundo o primeiro princípio da Tecno-Humanização:

Todo modelo, com o tempo, se deteriora e se distancia de sua finalidade inicial.

Por isso, vamos iniciar uma série de artigos sobre a estrutura organizacional atual.

O primeiro artigo da série fala sobre o departamento de Recursos Humanos.

O discurso que está na boca de todo executivo hoje é que precisamos inovar, fazer diferente, ser disruptivo, pensar fora da caixa (não gosto desta expressão).

O problema é que este discurso fica somente nisso, em uma declaração de intenções, as vezes por incompetência, outras por fazer parte do absurdo mise em scène corporativo onde se diz o que está na moda e se faz o que o bônus do trimestre manda. Sem se importar com o impacto gerado por nossas ações.

Mas a reflexão que me provoca esse discurso é que as empresas necessitam resultados diferentes, mas continuam fazendo as coisas da mesma forma que sempre foi feito.

Se Einstein levantasse a cabeça de seu túmulo, sentiria vergonha alheia e provavelmente diria:

“Senhoras e senhores, muitos de vocês usaram minhas frases em seus power points ou leram minhas frases em apresentações de outros, mas pelo jeito não assimilaram nada.

Principalmente à frase que disse que é insanidade continuar fazendo a mesma coisa e esperar resultados diferentes”.

Muito tem se falado sobre o RH 4.0, que ninguém sabe exatamente o que é, ou então vemos algumas escolas famosas oferecendo cursos de RH Digital… Tudo bem, mas que tal pararmos para pensar um pouquinho?

Não se trata de aprender a usar mais tecnologia para turbinar a ações de hoje.

Se muitos departamentos de recursos humanos têm participação discreta atualmente, não é a tecnologia que vai mudar este cenário e passar a dar relevância.

Não se humaniza uma empresa “digitalizando” o RH.

Recentemente, participei de um painel onde um dos painelistas comentou que possuíam uma solução de feedback e isso humanizava a empresa.

Tudo bem, tais soluções fazem parte do processo, são muito úteis e necessárias, mas ainda está longe de ser o ideal.

A Tecno-Humanização acredita que as palavras e as nomenclaturas são importantes, portanto, não podemos continuar chamando o departamento mais importante da empresa de recursos humanos.

Não faz sentido frequentar eventos que falam de propósito, dizer que a empresa é humanizada e colocar em seu cartão diretor ou diretora de recursos humanos.

Pessoas não são recursos, são seres humanos!

Outra coisa que mudamos é tirar o cargo de “diretor(a) de” e colocamos “responsável por”, não se trata apenas de uma questão semântica.

A preposição “de” indica uma representação institucional enquanto a preposição “por” ou suas variações “pelo ou pela” indicam um envolvimento direto, inclusive operativo, em sua área de responsabilidade.

Ser diretor(a) de recursos humanos é muito diferente de ser responsável pelo talento e cultura organizacional.

Vamos excluir desta discussão as atividades operacionais que são inerentes e necessários em ambos cenários. Vamos nos concentrar somente na visão estratégica.

Hoje, muitos departamentos de recursos humanos têm como prioridade treinamento, em alguns casos adestramento, medir o clima da empresa quando as coisas não vão bem e como tarefa mais árdua atualmente, buscar a forma de levantar a moral da tropa após processos de transformação digital.

Se o processo é bem-sucedido, deixa um clima pesado, de luto, pelas baixas causadas pela digitalização de processos e pelo estresse gerado pela mudança na forma de trabalhar em função da chegada de novas tecnologias.

Se o processo é malsucedido, além dos pontos anteriores, geram frustração e sensação de ameaça constante.

TI faz a transformação digital e RH sai recolhendo os cacos…

A prioridade da empresa é o resultado, e isso é inquestionável, porém o que a Tecno-Humanização preconiza é a forma como se busca este resultado e os meios utilizados.

A empresa atual coloca o resultado no centro, faz um planejamento estratégico, contrata profissionais pensando no perfil necessário, cria processos, enfim, faz tudo visando alcança-lo, e assim por diante.

Recursos humanos em muitas ocasiões, por não dizer na maioria delas, atuam de forma reativa, para dar suporte às áreas de negócio.

A Tecno-Humanização considera a área incumbida de cuidar de pessoas estratégica, elimina o Diretor(a) de Recursos Humanos e traz o Responsável pelo Talento e Cultura Organizacional.

Em nossa visão, pessoas não são um mal necessário como pensam, e demonstram, muitos empresários. Elas são o grande diferencial de uma empresa.

Desenvolver o ser humano, trabalhar o Mindset e a Humanização. Dado o seu papel estratégico, esta deve ser a prioridade do departamento de Talento e Cultura Organizacional.

A partir deste momento, mudar a forma das pessoas enxergam o negócio, seu trabalho e a forma que ele impacta o resultado da empresa, a sociedade e o meio ambiente, faz toda a diferença.

Trabalhar a inteligência emocional e o engajamento das pessoas ao propósito da empresa faz com que seja possível captar e engajar talentos, e os resultados mudam drasticamente de forma positiva.

A Tecno-Humanização inicia seus processos de transformação pelas pessoas e pela área responsável por Talento e Cultura Organizacional.

Transformação digital requer pessoas com mentalidade digital.

Organizações ágeis requerem pessoas com mentalidade ágil.

Organizações exponenciais requerem pessoas com mentalidade exponencial.

E assim por diante…

Não é possível transformar nada, se não transformarmos o Mindset das pessoas.

Algumas empresas, como a Malwee, tem sua CHRO Karina Vasques liderando o processo de transformação digital da empresa.

Novos tempos e nova economia requerem novos enfoques.

Fora diretor(a) de RH e o novo cargo de responsável pelo Talento e Cultura Organizacional deve, no mínimo, co-liderar os processos de transformação da organização.

 

Imagem: Pixabay

Empresas humanizadas são mais profissionais

Este artigo foi publicado: no dia 22/10/2019 na minha coluna no R7 e no portal Inova360.

 

Da porta para dentro da empresa, somos profissionais. Esta frase, tão famosa no passado, ainda é válida nos dias de hoje?

A sua empresa possui o Portal do Profissionalismo?

Se você não sabe o que é, deixe-me explicar.

Estes “portais” eram muito comuns na entrada das empresas no século passado. Acreditava-se que tinham um grande poder, pois faziam com que cada pessoa que passasse por ele deixasse do lado de fora os problemas, todas as preocupações e a vida pessoal, só passando por ele o lado profissional do colaborador.

Ultimamente, as empresas têm sofrido muito com isso. Seus portais do profissionalismo não têm funcionado como no passado.

E de quem é a culpa?

Infelizmente é assim que ainda pensam alguns executivos. São capazes de enxergar as transformações do novo momento que estamos vivendo, mas continuam buscando culpados pelas coisas que não funcionam como funcionavam no passado.

Outros pensam que a evolução da espécie humana mudou algo em nós e, aparentemente. o portal deixou de ter efeito. Portanto, é preciso construir um portal novo para as novas gerações.

Em minha visão, pensar desta forma é de uma ingenuidade despropositada pois o portal nunca funcionou! Nem nunca funcionará!

A diferença é que antes a maioria das pessoas fingiam separar quem elas eram no trabalho de quem eram em sua vida pessoal e outras acreditavam realmente que isso era possível e tentavam, de fato, fazê-lo.

Imaginem por um momento que você estivesse passando qualquer uma destas situações:

O seu filho está doente, te olha com aqueles olhinhos lacrimejantes de febre, quando você vai sair de casa;

Sua mãe está com alguma doença grave;

Seu irmão tem problemas financeiros;

Seu melhor amigo foi mandado embora e está com depressão;

Você está passando por uma situação sentimental delicada, seu relacionamento está acabando.

Mas não é somente situações negativas, também podem ser positivas:

Você recebeu uma proposta de emprego na empresa que queria;

O seu primeiro filho, tão desejado e aguardado, está pra nascer;

Está em processo de compra de uma casa, um carro ou algum bem que seja importante pra você;

Você acabou de se apaixonar.

Enfim, como você pôde perceber, para estar exposto a estes exemplos e outras centenas deles, basta estar vivo.

Eu tenho feito esta pergunta a vários empresários e executivos:

Sinceramente você acha possível criar processos à prova de emoções de seus colaboradores?

O mais incrível é que alguns pensam que sim! Acreditam que, independente de quem o execute, será feito da mesma maneira.

Querem ver um exemplo como este pensamento é absurdo?

Vejamos, um analista de crédito, seguindo estritamente os processos, aprova um crédito com o mesmo critério se na semana anterior o pai dele faleceu ou o filho dele nasceu?

São emoções e estado de ânimo radicalmente opostos e, obviamente, o analista de crédito, ainda que imbuído de toda sua boa fé e profissionalismo, não analisaria o crédito como o mesmo critério.

Para que não fique somente no terreno do achismo ou da opinião pessoal, Richard Thaler, economista americano, ganhou o prêmio Nobel de economia em 2017 com seu estudo de economia comportamental, onde demonstrou que não é possível separar as emoções dos processos de tomadas de decisões econômicas.

Portanto, Thaler somente demonstrou o que já sabíamos e tínhamos vergonha de admitir. Ou seja, não é possível separar as emoções da razão, não é possível separar parte de nós, somos um todo.

A empresa contrata um ser humano, uma pessoa completa, e querer que ele só traga ao trabalho o profissional e deixe “o resto” em casa. É possível?

Por favor, em que mundo vivemos?

É obvio que não tratamos igual ao presidente da empresa, que um cliente ou nossa avó. O comportamento deve ser diferente, porém, nossa forma de pensar e, principalmente, nossos valores, são os mesmos.

Se você acredita que pode ser profissional e agressivo na empresa, se você é capaz de despedir seu melhor amigo para alcançar os resultados, espremer até praticamente asfixiar seu fornecedor, fazer qualquer coisa para subir na empresa e, em casa você é “bonzinho”, em algum dos dois lugares, você está fingindo ser quem não é.

E esta “atitude esquizofrênica” imposta pelo mercado tem vida curta. Não é possível viver assim por muito tempo sem sofrer ou ficar doente.

Reconhecer que as emoções fazem parte do processo é o primeiro passo para humanizar a empresa, para abrir as portas ao ser humano completo, não somente o profissional, eliminar portais imaginários e banir do mundo corporativo frases como estas:

“Da porta para dentro somos profissionais”.

“Os problemas ficam do lado de fora”.

“Aqui se vem trabalhar não fazer amigos”.

“O único que vale aqui é resultado, os sentimentos não importam”.

Acredito que todos nós já ouvimos ou até dissemos algumas delas, mas não se sinta culpado por isso. Não devemos nos julgar, nem nos considerar más pessoas por isso. Este tipo de comportamento foi o que aprendemos nas escolas de negócio e nas empresas e pensávamos ser a forma correta de atuar. E, sejamos sinceros, funcionou por um bom tempo.

A tecnologia também contribuiu para este processo, tendo em vista que ela levou o trabalho para fora do escritório físico e “invadiu” a casa e a vida pessoal do colaborador. Sendo assim, para que se mantenha o equilíbrio, da mesma forma, a empresa deveria permitir que o colaborador traga sua vida pessoal para o trabalho também. Tudo isso, obviamente, obedecendo à uma lógica de sensatez e sem exageros.

Mas quando isso deixou de funcionar?

Quando chegamos ao limite e não conseguíamos, ou não queríamos, fingir mais, quando quem ainda tentava fingir começou a adoecer. E o maior gatilho da mudança foi quando chegou uma nova geração que se recusou a aceitar essa dualidade pessoal-profissional.

Somos quem somos, somos um ser completo (e maravilhoso), e tentar “comprar” somente um pedacinho é desrespeitar nossa plenitude; chega ser cruel desde o ponto de vista pessoal e, o pior, pouco inteligente do ponto de vista corporativo, porque não permite explorar todo o nosso potencial.

Ao contrário do que pensam os executivos favoráveis ao conceito do Portal do Profissionalismo, quanto mais a empresa cuida do ser humano, mais o ser humano entrega o melhor profissional à empresa, portanto…

Empresas humanizadas são mais profissionais!

Como complemento ao artigo, conversamos com Tania Moura, VP da ABRPH (Associação Brasileira de Profissionais de Recursos Humanos), para conhecer sua visão sobre empresas humanizadas, vale a pena ouvir.

 

 

Imagens:  Pixabay