Responsabilidade além dos muros da empresa

 

ALEX (CEO): Bom dia, pessoal!

Seguindo a nossa política de otimização na gestão e de seguir as best practices do mercado, muitos de vocês têm me apresentado projetos para melhorar as áreas de cada um.

Porém, em nossa última revisão de resultados recebemos uma lição do José por tratarmos as coisas de maneira segmentada. E, nesta mesma reunião, o Cláudio comentou que o nosso turnover é alto. Então, eu preciso urgente que vocês me mandem um documento com os seus projetos e planos e o impacto que isso terá em nossa gente.

 

José olha assustado para Alex.

JOSÉ: Que eu fiz o quê, Seu Alex?

ALEX (CEO): Nos deu uma lição José. E depois que você me falou sobre humildade intelectual.

Confesso que fiquei um pouco bravo com você naquele dia, mas depois percebi que você tinha razão e decidi ouvi-lo e vou analisar o impacto  que nossos investimentos terão nas pessoas.

JOSÉ: Desculpa se eu zanguei o senhor.

ALEX (CEO): Imagina, eu te agradeço.

Vamos lá, preciso desse documento até sexta.

FABIO (CFO): O famoso depois de amanhã…

ALEX (CEO): Isso mesmo, Fábio.

O objetivo desse trabalho é ver quantas pessoas vamos recortar o ano que vem.

Porque eu entendo que todos esses projetos que vocês estão trabalhando vão supor uma redução de pessoas, não?

SANTOS (CSO): Não necessariamente, Alex.

No meu caso, eu estou trabalhando com o Felipe (CMO) para melhorar nosso go-to-market*, mas, para conseguir o crescimento que você pediu, eu preciso de mais vendedores.

Vamos investir em sistemas de prospecção e inteligência de mercado e precisamos de braços depois para utilizar as informações e contatos gerados.

ALEX (CEO): O seu caso é diferente, pois dependemos de vendas para viver e, por isso, parte do “vamos recortar de outras áreas” podemos dedicar aqui.

Agora,  nos outros setores eu entendo que vai reduzir muito o número de pessoas.

Colocar tanta tecnologia é para melhorar a assertividade, disponibilidade, alcance e reduzir custos, principalmente o de pessoal.

Não se preocupem com o formato, porque nós vamos consolidar as informações.

Claudio (CHRO), assim que tivermos uma foto geral eu quero que você prepare um plano pensando em 3 coisas.

       1. Plano de demissões:

  • Preparar um PDV** com incentivos para que as pessoas possam ficar em casa com os filhos pequenos. Assisti a um documentário e vi que na Suécia o governo paga 16 meses de licença maternidade. Não vamos pagar as mães todo esse tempo, mas veja quanto tempo conseguimos ajudar.                                                                                                                                                                                                                                                                                  Vamos parecer uma empresa nórdica e moderna.                                                                                                                                                                                                                                                                                          Rosa (CLO), veja se tem como bloquear o recurso para elas não receberem o dinheiro e, no dia seguinte, irem para o nosso concorrente.
  • Quem não entrar no PDV, sem problemas. Vamos pagar todos os direitos, tudo o que corresponde sem fazer nenhuma engenharia…                                                                                                                                                              Nos preocupamos com as pessoas.

      2. Vocês devem passar a lista dos low performance que vamos “promover ao mercado”.

      3. Dos que ficam, quais vocês querem reciclar ou quais perfis teremos que contratar para utilizar as novas tecnologias que vão ser implantadas.

 

FABIO (CFO): Alex, muito bonito esse desejo de Bom Samaritano, mas você precisa parar de ver documentários noruegueses.

ALEX (CEO): Sueco.

FABIO (CFO): Dá na mesma. Isso funciona lá, aqui, se quisermos convencer os investidores o mês que vem, precisamos ter um resultado extraordinário. Só que se dermos dinheiro para o povo ficar em casa às nossas custas, não vamos conseguir.

Outro ponto, isso de reciclar, gastar dinheiro com curso é loucura.

Mandamos embora o pessoal mais antigo, nos livramos do passivo trabalhista e contratamos essa molecada que vem voando pela metade do preço. Como fizemos a vida toda…

Além do mais, agora chegou a minha hora de fazer o que fizeram comigo.

Tive um chefe que me falava: “Vou te pagar meio salário deste cargo porque você trabalha só meio período: 12 horas!!!” 

rsrsrsrsrs

 

Mais da metade deram risada da “piadinha”…

FELIPE (CMO): Nunca diga essa piada fora desta sala hein!

Se fizer isso em rede social, vai me custar dinheiro e trabalho para limpar a nossa imagem.

FABIO (CFO): Que exagero. O que tem hoje é muita frescura, ou melhor, mimimi!

BRENO (COO): Eu gosto da ideia de formar as pessoas, assim elas trabalham como eu quero, mas, com a pressão da velocidade de crescimento que temos, eu não tenho tempo para esperar a curva de aprendizagem das pessoas. 

Eu quero gente formada e pronta.

Aqui, já se vem formado de hard e soft skill. Tem muita gente desempregada, é o momento de aproveitarmos isso e contratar gente boa, barata. 

EDUARDO (CIO): E as pessoas que a gente mandar embora? Vamos dar algum tipo de capacitação?

ALEX (CEO): Como assim?!!!!

O mercado e o mundo estão mudando muito rápido, as pessoas precisam entender isso e se reinventarem, mas essa responsabilidade é de cada um, eu não posso assumir isso.

Aproveitando que você falou Eduardo (CIO), essa semana eu estava vendo uns vídeos antigos que recebi e nos quais mostravam algumas fábricas, inclusive no Brasil, que já são 100% automatizadas.

Que coisa linda…

Preciso que você trabalhe com cada líder para automatizar o máximo que pudermos de nossa operação: RPA***, IoT****, etc.

Bem pessoal!

Vamos produzir.

Até a semana que vem.

 

No caminho de volta para casa.

ALEX (CEO): José, eu notei a sua cara quando eu estava falando sobre automatizar o máximo e mandar gente embora. 

O que você acha disso?

JOSÉ: Sabe Seu Alex, o senhor me desculpe, mas essa história de falar que as pessoa tem que se reinventar é muito fácil.

O povo que ganha R$1.500 bruto por mês não sabe o que está vindo, o que fazer, onde fazer e o pior, quando descobre, não pode pagar.

Outro dia eu acompanhei o Seu Eduardo (CIO) numa reunião.

Eles tavam falando do RPA.

Não dá pra dizer que a auxiliar administrativa se converta em engenheira de RPA ou especialista em processos para não ser mandada embora. 

O senhor lembra quando, na minha primeira reunião, seis falaram que queriam ser uma empresa ESG?

Então…

Deveriam se preocupar com isso.

ALEX (CEO): Mas não vem não seu matuto. rsrsrs

Agora eu te peguei.

A automação e a robotização já chegaram no campo, tem muita máquina substituindo mão de obra.

A tecnologia resolve muita coisa, José.

JOSÉ: O senhor tem razão Seu Alex.

 

“Mas pensar que a tecnologia 

vai resolver todos os problemas 

das empresas e da humanidade 

é o nosso maior problema” (1)

 

E digo mais, o senhor falou que é lindo as empresa só com robô, não é?

ALEX (CEO): Sim! É maravilhoso não ter gente enchendo o saco. Pedindo aumento. Faltando. Ficando doente…

JOSÉ: Mas aí que eu não entendi.

Se todas as empresas automatizarem tudo…

 

Quem vai comprar os produtos dela, 

se todo mundo estará desempregado? (2)

 

(1) Frase do livro “Aprenda a criar riqueza sem gerar miséria com a Tecno-Humanização”

(2) Reflexão extraída do conceito de autofagia corporativa do livro “Aprenda a criar riqueza sem gerar miséria com a Tecno-Humanização”

 *Go-to-market: Isso se refere à forma como as empresas buscam inserir seus produtos no mercado, de forma que atinjam seu público-alvo e consigam receita.

** PDV: Ponto de venda

*** RPA: Em português, Automação de Processos Robóticos

**** IoT: Em português, Internet das coisa

 

Imagens: BE&SK

COO, da otimização à excelência

Este artigo foi publicado no dia 18/03/2020 na minha coluna no IT Forum 365

 

Otimizar é importante, mas onde está o limite?

A otimização já não é suficiente…

Durante anos, um bom gestor era pago pelas otimizações que fazia.

Um executivo pode até ser avaliado pela liderança, motivação e gestão de sua equipe, mas é medido e pago, pelos resultados que apresenta, e isso significa que é necessário otimizar, otimizar e otimizar.

Melhorar os controles e processos, reduzir custos e aumentar eficiência operacional, que também é redução de custo, pode ser a diferença entre uma empresa rentável ou não.

A tecnologia foi a maior aliada nas últimas décadas desta política.

Usar tecnologia para melhorar a experiência do cliente, para otimizar processos e aumentar a eficiência é o caminho seguido por muitos diretores de operações.

Digitalização, Automação, Robotização, Industria 4.0, e por aí vai…

Alguns amigos não sabem muito bem o que a minha empresa faz porque não falo de trabalho como eles, mas eles sabem que trabalho com algo relacionado a inovação, transformação digital e gestão de empresas. E sempre que aparece alguma coisa relacionado a estes assuntos, me mandam.

Há um tempo atrás, me mandaram dois vídeos, um sobre uma empresa cervejeira do Rio de Janeiro, que automatizou toda a linha de produção, sem nenhuma intervenção humana, o outro foi de um grande frigorífico que robotizou toda a sua planta da Austrália, para cortar e desossar de forma totalmente autônoma, sem intervenção humana.

Isso é indústria 4.0, usaram IoT, IA, Machine Learning, e toda a tecnologia necessária que o dinheiro podia comprar.

É fascinante ver o brilho nos olhos dos tecnólogos, vendo tudo funcionar à perfeição, de forma totalmente automática e autônoma.

Isso é otimização pura!

Sem erros, padronização no produto, evita desperdícios de matéria prima e todo tipo de recursos, e economia de mão de obra.

Sem contar que, feita a manutenção preventiva, robôs não ficam doente, não mente, não engana, não fica grávida, não morre avó, …

São inúmeras vantagens, não é mesmo?

Mas quando me mandaram estes vídeos com o entusiasmo de uma criança com tênis novo, como Tecno-Humanista, o primeiro que me veio à cabeça foi.

Se todas as indústrias, ou empresas, fizerem isso, para quem elas vão vender seus produtos?

Nenhuma empresa sobreviveria sem tecnologia, nenhuma sociedade existiria sem pessoas.

Portanto, a diretoria de operações deve pensar em otimizar? SIM

Mas onde está o limite?

Levar a otimização ao extremo é perigoso e inclusive, pouco inteligente.

A resposta natural e obvia de um COO é me pagam para isto, eu tenho que velar pelos interesses da minha empresa.

O problema é que a sua empresa não está no mundo, ela está dentro de um contexto, e se não formos capazes de olhar além das paredes da empresa, esgotaremos o modelo, como já estamos fazendo.

Portanto a Tecno-Humanização transformar o diretor de operações no responsável pela excelência.

 

 

Desde o ponto de vista operacional, dar o salto de otimização a excelência, significa implementar uma cultura de excelência e convertê-la em um hábito.

Trabalhar a cultura na empresa, não significa necessariamente investir milhões em tecnologia, e sim assimilar o conceito e a cultura, quase como um mantra, de:

Fazer o melhor que se pode com o que se tem.

Porém em minha visão, não se trata somente da excelência operacional em si, mas também de ajudar o CEO Tecno-Humanista a definir os limites da otimização, baseado nos princípios e valores da Tecno-Humanização e salvaguardar para que sejam cumpridos.

Ou criamos empresas rentáveis, conscientes e humanizadas, ou otimização não será suficiente…

 

Imagens: Freepik e BE&SK

Governança corporativa não garante ética!

Este artigo foi publicado: no dia 15/10/2019 na minha coluna no portal R7 e no portal Inova360 e no dia 22/10/2019 no ITForum365.

 

A governança corporativa é mais do que tínhamos há 20 anos e menos do precisamos hoje

É preocupante ver como muitos executivos dormem tranquilos porque sua empresa tem uma boa governança.
Você dormiria?
Eu não e vou explicar o porquê.

Antes, porém, precisamos esclarecer o que é governança corporativa e quais seus princípios básicos.

Segundo a definição do IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa), governança corporativa é o sistema pelo qual as empresas e demais organizações são dirigidas, monitoradas e incentivadas, envolvendo os relacionamentos entre sócios, conselho de administração, diretoria, órgãos de fiscalização e controle e demais partes interessadas.

A governança corporativa possui 4 princípios básicos:

  • Transparência – transparência de informação para transmitir confiança;
  • Equidade – tratamento justo entre todos as partes interessadas (acionistas, colaboradores, parceiros e clientes);
  • Prestação de contas (accountability) – que cada colaborador atue com diligência em suas funções e preste conta, não somente de seus resultados, mas também de sua forma de atuar;
  • Responsabilidade corporativa – garantir a viabilidade econômico-financeira do negócio.

Para cumprir estes princípios, são necessários estabelecer regras claras e estritas, considerar as leis em todos os níveis, definir processos e monitorá-los constantemente, para garantir que se cumpram.
Até aqui estamos todos de acordo que a governança é  extremamente importante e necessário em nossas organizações.
Definir regras e normas internas, assim como as leis,, garantir que sejam cumpridas, transmite muita confiança ao mercado, e isso é o que precisam as empresas para manter sua estabilidade institucional.
A governança, ao lado dos resultados financeiros e projeções de crescimentos são os pontos mais valorizados pelos investidores.

Qual o papel da tecnologia na governança corporativa?

A exigência de fazer cumprir centenas de regras por milhares de pessoas (internas e externas) gerindo milhões de dados, se torna praticamente impossível faze-lo de forma manual.
Processos, dados financeiros, atividade operacionais, que os executivos tenham todas as informações em tempo e forma, de maneira confiável para a tomada de decisão, para que o acionista tenha tranquilidade, os auditores e posteriormente os analistas de mercado tenham transparência e credibilidade das informações, tudo depende de tecnologia.
Pronto, até aqui, o artigo foi um comercial de margarina, morno, porém, correto, e poderia ser enviado para qualquer mídia econômica.

Muitos executivos pensam que a governança é o teto, sua gestão e sua empresa está protegida.
Porém, o que é considerado como teto para alguns, para a Tecno-Humanização é considerado solo, uma política de mínimos.

Cumprir a lei é necessário? Claro, é o mínimo.
Cumprir as regras internas? Sim, é o mínimo.
Ser transparente é importante? Sem dúvida.

Então qual é o problema?
Talvez, por viver em um mundo onde as empresas tem governança e tudo funcione bem, vocês não consigam imaginar onde está o problema.

Porém, vamos nos transportar só por um instante ao meu mundo imaginário, assim vocês vão poder entender o me raciocínio.

Vamos viajar a mundo onde poderiam ter empresas de delivery que pressionam tanto aos entregadores, que pagam um valor extremamente ajustado que acabariam induzindo ao colaborador a correr riscos com sua moto ou bicicleta para cumprir suas metas e ter uma remuneração no limite do digno. Já sei que alguns vão dizer que é melhor isso que estar desempregado e passar fome, mas se poderia fazer melhor.

Neste meu mundo imaginário, também poderia ter empresas que mantem o preço de um produto por um período longo de tempo, faz marketing disso e vende a imagem de que é orientada ao cliente e, portanto, sensível aos seus problemas, porém reduz sistematicamente a quantidade e a qualidade do produto vendido.

Também poderíamos encontrar empresas que desenham processos de captação de clientes com um, máximo dois passos, em contrapartida desenham processos de cancelamento com mais que o triplo de exigências.

Poderia existir, neste meu mundo imaginário, inclusive empresas que criem processos específicos, contratem profissionais especializados e treinamentos de venda e persuasão, que só se preocupam em vender. Sei lá, minha imaginação é fértil, e eu poderia inventar empresas de consórcio que vendem para pessoas que não precisam adquirir aquele bem, empresas de telefonia que vendam planos muito acima da necessidade do cliente, cadeias de fast food que desenhem campanhas baseadas em neuromarketing para atrair crianças, empresas do varejo que abusem de gatilhos mentais para entubar (me desculpem a expressão) um produto que sabem perfeitamente, de antemão, que o cliente não precisa.

E como minha imaginação não tem limites, eu cheguei até pensar que poderia existir empresas de credito pessoal que incitem o consumo, que fomentem e sugiram sutilmente que se o cliente não compra um determinado bem ou não faz uma viagem, ele é inferior aos seus amigos e familiares. E claro, se o cliente, após estar convencido de que precisa daquilo e não pode compra-lo, a empresa, como é boazinha, lhe empresta o dinheiro com juros de 4 a 8% ao mês.

Ainda bem que todas estas bobagens que eu imagino em meu tempo livre, não ocorrem no mundo real.
Então podemos afirmar que estamos salvos, porque as empresas que conhecemos tem uma forte governança, não é mesmo?

Tenho que reconhecer, eu sinto inveja de vocês que vivem em um mundo protegido pela governança corporativa, porque em meu mundo imaginário…

Governança corporativa não garante ética!

Como complemento ao artigo, conversamos com um especialista em governança corporativa e gestão de riscos, diretor a IIA  (Instituto dos Auditores Internos do Brasil) para conhecer sua opinião sobre a relação entre governança corporativa e ética, vale a pena ouvir

 

 

Imagens:  Pixabay