Crescimento vs. Desenvolvimento: digitalizar o jogo acelera o colapso

Este artigo foi publicado no dia 30/07/2019 em minha coluna no portal portal R7 e no portal Inova360.

 

A transformação digital é nociva não pela tecnologia em si, mas porque parte de uma premissa equivocada e perversa

O que me motivou a escrever este texto foi o artigo da semana passada, no qual dei a minha visão sobre as prioridades dos CEOs a respeito da inovação. O fato de que a principal prioridade seja o crescimento ficou martelando em minha cabeça.

Basta olhar à nossa volta e ver como é nociva a busca pelo crescimento ilimitado. Para sermos capazes de analisar este cenário, é importante entendermos as diferenças entre crescimento e desenvolvimento.

Enquanto o crescimento está relacionado a indicadores quantitativos, o desenvolvimento é muito mais amplo e qualitativo. Ele representa a aplicação da riqueza gerada pelo crescimento, a forma que é transformada em educação, saúde, cultura e qualidade de vida.

No caso do setor público, o crescimento de um país é medido pelo PIB (Produto Interno Bruto), ou seja, representa a soma, em valores monetários, de todos os bens e serviços finais produzidos pelo país.

Vamos analisar somente o ponto de vista de crescimento, tomando a China como exemplo. Se ela continuar crescendo como cresceu na última década, teríamos duas Chinas antes de 2030. O problema é que não cabem duas Chinas no planeta, não haveria clientes para duas produções chinesas.

Sem contar que, para a produção chinesa crescer a este ritmo seria necessário canibalizar e transferir a produção de outro país para a China, o que gera desemprego local, e todas as consequências negativas associadas.

Óbvio que não podemos manter as produções locais por imposição, temos que buscar melhorar a competitividade do país, mas isso é assunto para outro artigo.

No caso das empresas, os indicadores de crescimento são faturamento e lucro, e qual o caminho que as empresas encontraram para crescer?

A transformação digital!

Aplicar tecnologia para reduzir custos, otimizar processos, melhorar experiência do cliente, aumentar o alcance geográfico e as vendas.

Essa transformação digital só acelera o colapso econômico e social e não pela tecnologia por si só, mas porque parte de uma premissa equivocada e perversa.

É nossa obrigação buscar desenvolvimento, criar organizações Tecno-Humanizadas, que aplicam tecnologia para transformar seus produtos, serviços e modelos de negócios em operações rentáveis e humanizadas.

Claro que as empresas devem crescer, vender mais, otimizar custos e recursos, negociar com seus fornecedores, competir, e ganhar dinheiro.

Isso se chama boa gestão e a sobrevivência da empresa depende disso. A questão é que não podemos buscar o crescimento a qualquer custo.

Ao trocar crescimento por desenvolvimento, inevitavelmente a empresa promove o desenvolvimento de tudo e todos à sua volta de forma harmônica e sustentável ao longo do tempo.

Para que isso não seja apenas uma declaração de boas intenções, vamos mostrar a diferença entre um modelo de negócio de uma empresa de sapatos que busca crescimento e outra desenvolvimento.

Uma empresa de sapatos, para crescer da forma tradicional, busca reduzir o custo da matéria prima, de mão de obra, de produção, e aumentar as vendas.

Para reduzir os custos de matéria prima, é comum não se preocupar com a origem ou seu processo produtivo. Para reduzir o custo de produção e mão de obra há dois caminhos, ou automatizar a produção o máximo que puder ou levar a produção para China (exemplo que ilustra o que comentei sobre canibalização e transferência de produção).

Utiliza-se de tecnologias de IoT, Big Data, Analytics e IA para mapear os hábitos de consumo dos clientes e criar campanhas de marketing para gerar demanda. Aplica-se gatilhos mentais para induzir o consumismo e compras por impulso, mesmo sabendo que talvez os clientes não precisem do produto naquele momento. Isso é transformação digital aplicada ao crescimento.

Porém, se a empresa utiliza materiais reciclados ou sustentáveis, tanto no sapato como na embalagem, ela se preocupa pela origem da matéria prima e que o processo produtivo seja sustentável, humanizado e justo.

Se a empresa trabalha com conceito de co-criação (inovação colaborativa) para criar novas estampas, parte da produção é feita por uma fábrica nacional, outra parte é feita por células produtivas formadas por mulheres em situação de vulnerabilidade, que participam de um ONG e receberam maquinaria e treinamento para trabalhar.

A empresa não se aproveita da situação laboral desfavorável destas mulheres, muito pelo contrário, paga salários justos acima da média do mercado. Não se trata de assistencialismo, a empresa oferece dignidade através do trabalho.

Parece um modelo de negócio dos sonhos?

Pois é, ele existe, a empresa é brasileira e se chama Linking DOTZ.

Esse modelo também precisa das mesmas ferramentas e tecnologias que o anterior, ou seja, Big Data, Analytics, IA, marketing digital, etc. A diferença é que quando essa empresa cresce todos crescem à sua volta e isso é desenvolvimento.

Veja o case no canal observatório BE&SK.

Imagem: Pixabay

Transtorno Dissociativo Corporativo: o gap entre a fala e a atitude

Este artigo foi publicado no dia 16/07/2019 em minha coluna do portal R7 e do portal Inova360.

 

O desafio de alinhar a expectativa entre o que você espera da sociedade e o que você faz para que ela seja como você espera

É surpreendente o que nós encontramos no dia-a-dia do mundo corporativo. A falta de coerência entre o que se fala e o que se faz é assustadora. Acredito que todos poderíamos dar uma lista de situações onde o chefe ou os colegas disseram uma coisa e fizeram outra, ou pior ainda, a própria cultura da empresa contrariou na prática aquele quadro obsoleto de missão, visão e valores na recepção da empresa.

Quantas vezes vimos o auditor de uma certificação qualquer sair pela porta e a empresa continuar trabalhando “como sempre”? Embora isso desanime, desmotive e seja frustrante, não é sobre isso que vamos falar.

O Transtorno Dissociativo Corporativo ao que eu me refiro é a incapacidade das empresas entenderem o impacto de suas ações na sociedade.

“Eu? Eu não tive nada a ver com isso”

Vou explicar com um exemplo:

TODAS as empresas sofreram com a greve geral dos caminhoneiros de 2018. Pois é. Eu já tive a oportunidade de perguntar a vários empresários e diretores de compras. E qual foi a sua participação no que aconteceu? As reações variaram entre surpresa e indignação: “Eu? Eu não tive nada a ver com isso”. Tivemos algumas respostas objetivas: o problema é a dolarização do petróleo nacional, o alto imposto do frete e o do petróleo, a má gestão do governo no momento da crise. Outras respostas foram as de sempre, a culpa da inflação, do universo, do lobo mau, do boitatá, etc. Mas em todos os casos, a culpa sempre é de outro.

Fiz outra pergunta: “Quantas vezes vocês, negociando com empresas logísticas (prática salutar), alcançaram o preço objetivo de compra e continuaram pressionando para ver se conseguiam um desconto adicional”? Silêncio administrativo e olhar de “não fui eu”.

Pois é, esses executivos bateram suas metas (ou as superaram), ganharam dinheiro, alguns foram promovidos pela “excelente” gestão dos recursos e redução de custos. Automaticamente ao serem estranguladas, as empresas de logística fazem o mesmo com os caminhoneiros (a maioria terceirizados).

Depois de vários anos atuando desta forma, as consequências chegaram. As pessoas que criaram o problema (ou ao menos grande parte dele) são as mesmas que reclamam da situação e, pior, são incapazes de relacionar uma coisa com outra.

Quantas grandes empresas têm reclamado da queda na qualidade de serviço de seus fornecedores. Essa reclamação, em muitos casos está totalmente justificada, porém não percebem que ela é feita minutos após à reunião onde se decidiu criar uma LPU (Lista Unitária de Preços) que exige prazo de entrega agressivo, estoques, entregas em todo o país, porém nenhum compromisso de compra, nem definição de quantos produtos irão para cada estado.

Percebem a dissociação das tomadas de decisão e das consequência destas de decisões?

Há dois anos atrás eu dei uma palestra, ia doar o valor cobrado a uma entidade que trata crianças com lesão cerebral, porém eu estava começando e os valores ainda eram baixos e só daria para comprar duas cadeiras de rodas. Então liguei para alguns amigos que me ajudaram a completar o dinheiro e comprar uma scooter. Fiz uma rifa e multipliquei o dinheiro por 4x. Eu ofereci a rifa para uma conhecida que trabalhava no departamento de RH de uma grande multinacional. Ela ficou positivamente surpresa, elogiou a causa dizendo que era fantástico ajudar quem precisa, principalmente pessoas com necessidades especiais e comprou a rifa.

Poucas semanas depois, em uma reunião com o grupo de análise de riscos de negócio, ela comentou ao diretor geral da empresa que a empresa tinha a obrigação legal de contratar pessoas com necessidades especiais, segundo ela, diante do alto custo para contratar e a dificuldade de encontrar as pessoas com o perfil adequado, ela estava fazendo um estudo para saber o que era melhor para empresa: Contratar pessoas com necessidades especiais ou pagar a multa para o governo.

Ou seja, a mesma pessoa, que em sua vida privada acha louvável a iniciativa de ajudar crianças com lesão cerebral quando passa pela porta da empresa, avalia pagar a multa para não ter trabalho para integrar pessoas com necessidades especiais.

Eu não tive a oportunidade de falar com ela sobre isso, mas provavelmente ela não relacione uma coisa com outra.

Ninguém quer a antena ao lado de casa

A verdade é que todo mundo quer ter um bom sinal de celular, mas ninguém quer a antena ao lado de casa. Assim não é possível. Da mesma forma, todo mundo quer viver em uma sociedade melhor, porém, em muitas ocasiões, decisões pessoais e profissionais nos levam no sentido oposto.

As pessoas e empresas dissociam suas decisões corporativas do seu entorno e não enxergam (ou não querem enxergar) seu impacto na sociedade e no meio ambiente. Se auto enganam e dormem tranquilas dizendo que cumprem a lei, como o caso da pessoa de RH. Pagar a multa está previsto em lei, o que não significa que seja humano e ético.

O astrofísico canadense Hubert Reeves disse: “O Homem é a mais insana das espécies. Adora um Deus invisível e mata a Natureza visível… sem perceber que a Natureza que ele mata é o Deus invisível que ele adora”.

Este é o quarto motivo, ou o motivo +1 que eu citei no artigo entenda porque humanizar as empresas é urgente, necessário e rentável .

É possível a coexistência de um mundo fraterno e próspero: a escolha é individual e o resultado coletivo.

Imagem: Pixabay