COO, da otimização à excelência

Este artigo foi publicado no dia 18/03/2020 na minha coluna no IT Forum 365

 

Otimizar é importante, mas onde está o limite?

A otimização já não é suficiente…

Durante anos, um bom gestor era pago pelas otimizações que fazia.

Um executivo pode até ser avaliado pela liderança, motivação e gestão de sua equipe, mas é medido e pago, pelos resultados que apresenta, e isso significa que é necessário otimizar, otimizar e otimizar.

Melhorar os controles e processos, reduzir custos e aumentar eficiência operacional, que também é redução de custo, pode ser a diferença entre uma empresa rentável ou não.

A tecnologia foi a maior aliada nas últimas décadas desta política.

Usar tecnologia para melhorar a experiência do cliente, para otimizar processos e aumentar a eficiência é o caminho seguido por muitos diretores de operações.

Digitalização, Automação, Robotização, Industria 4.0, e por aí vai…

Alguns amigos não sabem muito bem o que a minha empresa faz porque não falo de trabalho como eles, mas eles sabem que trabalho com algo relacionado a inovação, transformação digital e gestão de empresas. E sempre que aparece alguma coisa relacionado a estes assuntos, me mandam.

Há um tempo atrás, me mandaram dois vídeos, um sobre uma empresa cervejeira do Rio de Janeiro, que automatizou toda a linha de produção, sem nenhuma intervenção humana, o outro foi de um grande frigorífico que robotizou toda a sua planta da Austrália, para cortar e desossar de forma totalmente autônoma, sem intervenção humana.

Isso é indústria 4.0, usaram IoT, IA, Machine Learning, e toda a tecnologia necessária que o dinheiro podia comprar.

É fascinante ver o brilho nos olhos dos tecnólogos, vendo tudo funcionar à perfeição, de forma totalmente automática e autônoma.

Isso é otimização pura!

Sem erros, padronização no produto, evita desperdícios de matéria prima e todo tipo de recursos, e economia de mão de obra.

Sem contar que, feita a manutenção preventiva, robôs não ficam doente, não mente, não engana, não fica grávida, não morre avó, …

São inúmeras vantagens, não é mesmo?

Mas quando me mandaram estes vídeos com o entusiasmo de uma criança com tênis novo, como Tecno-Humanista, o primeiro que me veio à cabeça foi.

Se todas as indústrias, ou empresas, fizerem isso, para quem elas vão vender seus produtos?

Nenhuma empresa sobreviveria sem tecnologia, nenhuma sociedade existiria sem pessoas.

Portanto, a diretoria de operações deve pensar em otimizar? SIM

Mas onde está o limite?

Levar a otimização ao extremo é perigoso e inclusive, pouco inteligente.

A resposta natural e obvia de um COO é me pagam para isto, eu tenho que velar pelos interesses da minha empresa.

O problema é que a sua empresa não está no mundo, ela está dentro de um contexto, e se não formos capazes de olhar além das paredes da empresa, esgotaremos o modelo, como já estamos fazendo.

Portanto a Tecno-Humanização transformar o diretor de operações no responsável pela excelência.

Desde o ponto de vista operacional, dar o salto de otimização a excelência, significa implementar uma cultura de excelência e convertê-la em um hábito.

Trabalhar a cultura na empresa, não significa necessariamente investir milhões em tecnologia, e sim assimilar o conceito e a cultura, quase como um mantra, de:

Fazer o melhor que se pode com o que se tem.

Porém em minha visão, não se trata somente da excelência operacional em si, mas também de ajudar o CEO Tecno-Humanista a definir os limites da otimização, baseado nos princípios e valores da Tecno-Humanização e salvaguardar para que sejam cumpridos.

Ou criamos empresas rentáveis, conscientes e humanizadas, ou otimização não será suficiente…

 

Imagens: Freepik e BE&SK

O desemprego pós-transformação digital

Este artigo foi publicado: no dia 08/10/2019 na minha coluna no R7 e no portal Inova360.

 

Já passamos da fase de perguntar se a transformação digital vai destruir postos de trabalho, agora a questão é como lidar com isso

O que o trabalho representa pra você?

Depende quem seja o seu interlocutor a resposta será diferente.

Para o empresário com propósito, o caminho para mudar o mundo ganhando dinheiro.

Para o empresário sem propósito, uma forma de ganhar dinheiro mudando o mundo (ou não).

Existe um grupo que diz que é um mal necessário, outro que ama o que faz, que é vocacional, e para a imensa maioria das pessoas, uma forma de subsistência, o ganha-pão.

Mas existe um denominador comum entre todos eles, consciente ou inconscientemente, todos sentem realizados ao ver o resultado de seu trabalho e esforço.

Não importa se a motivação é a necessidade ou a paixão, todos, sem exceção, ao realizar um bom trabalho se sentem bem consigo mesmo.

Conheço pessoas que maldizem o domingo a noite, e reclamam a cada manhã de seu trabalho, de seu chefe, de seus colegas, porém quando o perdem… é um drama.

O trabalho tem um papel fundamental, tanto socialmente como em nossa estrutura mental, não somente pelo fator econômico, mas pela dignidade que outorga a quem o realiza.

Do outro lado da mesa, o lado do empregador, a palavra de ordem nas organizações é otimizar recursos e automatizar, pensando em redução de custos.

Há alguns meses, eu recebi em vários grupos de WhatsApp que participo um vídeo de uma fábrica cervejeira totalmente automatizada.

Em um extremo os apaixonados por tecnologia exaltando as maravilhas da robótica e dizendo que este é o futuro, no outro, sindicalistas abominando a eliminação de mão de obra.

Desde o ponto de vista da Tecno-Humanização, consideramos que nenhuma empresa, hoje em dia, sobreviveria sem tecnologia, porém, nenhuma sociedade existiria sem pessoas.

As empresas devem ser conscientes disso, pensar somente na redução de custos é uma visão míope, de curto prazo e chega a ser irresponsável.

Vamos extrapolar o exemplo desta fábrica a todas as empresas que buscam a tão sonhada otimização de recursos (levada ao extremo).

Pessoas sem trabalho não consomem!

Se automatizarmos todas as fábricas, teremos as empresas mais otimizadas do cemitério.

A empresa quebra porque não tem clientes.

E as pessoas morrem de inanição porque não tem trabalho.

Me desculpem a inocência, talvez eu tenha uma visão romântica (e utópica) do mundo, mas alguém pode me explicar como este modelo socioeconômico, criado por executivos “inteligentes”, se sustenta além do fechamento do ano fiscal?

Sinceramente, foge à minha compreensão que estes executivos não enxerguem como este modelo é autodestrutivo. Gera um desequilíbrio que simplesmente nos levaria ao caos.

Mas quem se importa com o próximo ano se o único que interessa é o fechamento deste ano fiscal? Melhor dizendo, o bônus se bater as metas este ano.

No seriado Designated Survivor (S2 Ep4), o presidente dos EUA pede a um grande empresário para reduzir o ritmo da automatização de suas fábricas. O motivo? Frear o desemprego.

O empresário diz, “isso vai me custar uma fortuna” e pergunta “e por quê eu faria isso?”

Mas o que mais me chamou a atenção foi a forma que utiliza para se autoconvencer que “isso é assim”.

“Sr. presidente, o futuro está chegando você querendo ou não, você pode tentar conter essa corrente, mas um dia a represa vai acabar rompendo”.

 

 

As vezes assumimos que as coisas vão acontecer independentemente de nossas ações, por geração espontânea, como forma de nos sentirmos melhores por fazer coisas das quais não nos orgulhamos.

É como dizer que, isso vai acontecer de qualquer forma, portanto, se eu não fizer outro fará, então faço eu.

Me desculpem de novo, mas a destruição massiva de postos de trabalho, e o caos derivado da mesma, só vai acontecer se quisermos e fizermos com que aconteça. O que acontecerá no futuro é absolutamente consequência das decisões que tomemos hoje, e a responsabilidade é total e exclusivamente nossa.

A preocupação do presidente na serie é justa e também ocorre na vida real. Existem grupos de discussões, tanto na Europa como nos EUA, buscando alternativas para que o desemprego massivo que teremos não gere um caos social.

É muito comum que me peçam, em minhas palestras e treinamentos, minha visão sobre se as empresas devem automatizar as fábricas ou aplicar tecnologia para automatizar processos.

Automatização, sim!

Automatização total, não!

Até onde as empresas devem ir?

Onde está o limite?

Não existe receita pronta, cada empresa é uma empresa, cada ciclo produtivo é diferente assim como a cultura organizacional de cada organização.

Conheço empresas, como por exemplo a Sarah Oliver Handbags, que produzia bolsas de crochês com anciãos de casas de repouso americanas. Se levassem a produção à China ou a automatizassem conseguiriam reduzir o custo em mais de 60%, porém preferiam causar impacto positivo nos idosos locais, dando-lhes um trabalho e dignidade. Seus clientes reconheciam isso e compravam as bolsas mesmo sendo mais caros.

A Tecno-Humanização eleva o nível de consciência e humanização da empresa para que ela seja capaz de decidir onde coloca a sua barra.

De qualquer forma, isso ajuda, mas não evita o desemprego.

O segundo ponto é saber como tratar os casos de desligamento, inevitáveis do processo de transformação digital.

Existem muitas coisas que podem ser feitas.

Criar ecossistemas produtivos para estas pessoas.

Dar orientações, treinamentos e formação de diferentes tipos, mostrar que o mundo mudou (e muito), debater sobre o futuro das profissões, orientações sobre empreendedorismo, e principalmente alertar que, daqui pra frente, muita gente não vai viver de um emprego e sim de seu talento conectado em rede.

Eu comecei este artigo perguntando o que o trabalho representa pra você?

Sou consciente da importância do trabalho e também das consequências pela falta dele.

Mas eu não me preocupo pelo emprego, e sim com o ser humano que está por trás dele.

E você?

 

Imagens:  Pixabay