Liderança: Faça o que eu mando, não faça o que eu faço

 

 

ALEX (CEO): José, vamos comer alguma coisa rapidinho aqui perto porque temos pouco tempo.

JOSÉ: Tudo bem, Seu Alex.

Enquanto esperam por uma mesa no restaurante, Alex observa como todo mundo está usando o celular.

 

Ao sentar-se, Alex pergunta:

ALEX (CEO): José, além do LinkedIn que eu te pedi, você tem outras redes sociais?

JOSÉ: Tenho não, Seu Alex.

ALEX (CEO): Olha, eu tenho, mas não uso.

Você reparou que está todo mundo com o celular nas mãos? Todo mundo fotografando o prato e ninguém se conversa!

Eu não gosto de redes sociais porque é tudo falso.

É um mundo paralelo, onde as pessoas postam o que gostariam de ser ou ter, não o que são. Só mostram a parte mais bonita de suas vidas, e quando não há parte uma bonita, elas inventam para parecer que tem uma vida interessante…

Bem, a nossa comida chegou.

No caminho de volta a empresa…

ALEX (CEO): José, como estão indo os cursos online?

JOSÉ: Eu fazendo tudinho como o senhor mandou Seu Alex.

Amanhã vou começar aquele de mindi-não-seiquê.

Risos…

ALEX (CEO): Mindfulness José. Significa atenção plena, isso é muito bom. Eu pedi pra colocarem este curso para o pessoal porque eu li na Harvard Business Review que isso aumenta a produtividade.

É muito bom meditar José, deixar a mente em branco…

JOSÉ: Eita! Que coisa esquisita essa de deixar a mente em branco. E se eu esquecer tudo o que eu aprendi?

ALEX (CEO): Muito pelo contrário, vai te ajudar a melhorar a memória e o raciocínio.

JOSÉ: E o senhor? Faz esse tal de mindfulness?

ALEX (CEO): Eu não faço, mas faço outro tipo de meditação.

Um tempo atrás, depois que o Steve Jobs e outros líderes famosos foram para a Índia, virou moda e eu fui também e aprendi a meditar lá. Só que ultimamente não tenho feito muito.

Mas, em uma semana, os funcionários vão começar a meditar toda manhã, antes de começarem a trabalhar.

Como somos uma empresa moderna e pensamos nas pessoas, vamos fazer um esforço e parar 15 minutos todos os dias para que todos possam meditar.

Precisamos render mais!

 

Saindo do elevador…

Espera, espera! – grita Alex.

Um funcionário que estava entrando na empresa segura a porta pra que ele e José possam entrar.

ALEX (CEO): José, enquanto eu faço uma ligação, pede para Susana me mandar o material daquele treinamento de Líder 4.0 por e-mail, por favor.

Vamos contratar mais um curso.

Como te falei investimos muito em educação corporativa.

JOSÉ: Ela falou que já mandou pelo sistema Seu Alex.

ALEX (CEO): Eu sei, mas é muito chato esse sistema, eu não sei usar direito, não lembro minha senha, enfim, melhor por e-mail mesmo.

 

No final da tarde Cláudio vem à sala de Alex.

CLAUDIO (CHRO): Alex, tem um minuto?

ALEX (CEO): Tenho sim. Diga.

CLAUDIO (CHRO): Lembra na reunião sobre diversidade que vimos que o nosso turnover estava alto e pensávamos que era pela diversidade?

Adotamos algumas medidas, melhorou, mas ainda não resolveu.

Vamos ver agora se com este curso de líder 4.0 a gente consegue melhorar isso.

ALEX (CEO): Com certeza sim! Enquanto isso, faz uma análise nas entrevistas demissionais para entender os motivos.

CLAUDIO (CHRO): Já fiz isso. Mas as pessoas mentem, é raro a pessoa que fala verdade na entrevista demissional. Se ela saiu da empresa queimada, ela não fala porque não quer que a empresa melhore. Se ela está saindo numa boa, ela também não fala porque tem medo de ficar mal com a empresa e quando pedirem referência dela a gente não falar bem.

Enfim, por aí a gente não consegue informação útil.

ALEX (CEO): José, fica de olho nisso também.

Você que conversa com o pessoal operacional, presta atenção porque mesmo a nós sendo tão bons, dando tanto treinamento para as pessoas, eles vão embora.

JOSÉ: Eu já sei, Seu Alex.

CLAUDIO (CHRO): Como assim?!!! Você sabe o que está acontecendo para que a gente não consiga engajar talento?

JOSÉ: É simpres. Ocêis contrataram um curso pras pessoas pensarem e deixar a cabeça em branco (mindfulness), mas vocês mesmo não fazem.

ALEX (CEO): Eu já te falei, nós não temos tempo pra isso, e vários executivos fazem o seu tipo de meditação.

JOSÉ: Pois é. Ocêis perguntaram pras pessoa se elas também não tem o jeito delas de se concentra? Ou se elas queria fazer esse trem aí?

CLAUDIO (CHRO): Mas isso é bom pra elas e custa caro. Estamos fazendo isso pensando nelas, e na produtividade é claro. Todo mundo ganha.

JOSÉ: Qué vê otra coisa?

A semana passada eu fiz o curso de segurança, e lá diz que cada pessoa deve entrar na empresa com o seu crachá. Hoje o Seu Alex pediu pra segurarem a porta pra ele entrá.

ALEX (CEO): Espera um momento, eu sou o dono da empresa. Será que vou ter que pedir permissão para entrar na minha própria empresa?

CLAUDIO (CHRO): José, essa regra se aplica aos funcionários, como diretores temos alguns privilégios.

Além do mais, essa norma é difícil de ser cumprida.

Quando o pessoal vai almoçar juntos, é comum segurarem a porta para os colegas entrarem, por cortesia.

JOSÉ: Mas por que tem isso no curso?

CLAUDIO (CHRO): Porque segue as melhores práticas do mercado. E, entre mim e você, como quase ninguém cumpre, se quisermos podemos utilizar como argumento em caso de demissões complicadas.

JOSÉ: Tem mais, o Seu Alex falou na reunião que gastou um dinheirão no sistema de workflow, mas hoje pediu pra Susana um documento por fora do sistema.

ALEX (CEO): Você está me controlando agora? Eu fiz isso porque não tenho tempo e eu vi que a HSM publicou que uma das principais características de um líder 4.0 é a gestão de tempo.

JOSÉ: Não é isso, Seu Alex, mas se vocês falam uma coisa e fazem outra… fica difícil das pessoa acreditá nus cêis.

Lá na roça o pai armoçava com os peão, tava junto, e o que ele pedia pra todo mundo ele também fazia.

Se eu fosse ocêis, eu num gastava dinhero com esse novo curso.

Depois cêis vão fazê tudo diferente mesmo.

Há muito tempo já num funciona essa conversa de “Faça o que eu mando e não faça o que eu faço”.

 

 

Imagens: BE&SK

Qual a responsabilidade do consumidor no caos corporativo?

Este artigo foi publicado no dia 19/10/2020 na minha coluna no R7 e inova360

 

Toda história tem dois lados e pode ser contada de diferentes formas. Consumidor consciente cria empresas conscientes, consumidor irresponsável…

Em mais de 70 artigos tenho falado sobre a responsabilidade das empresas na construção social.

Tenho apontado os pontos que considero importantes para as empresas elevarem seu nível de consciência e humanização para melhorarem seus resultados e construírem um mundo melhor.

Em muitas situações tenho denunciado, segundo minha visão, os despropósitos, hipocrisias, irresponsabilidades, sejam propositais ou por falta de conhecimento.

Mas será que o consumidor não tem nenhuma parcela de culpa em tudo isso?

Uma empresa obedece a dois vetores de força, um deles é a ambição de seus acionistas e o segundo é o comportamento de seus clientes.

Quanto maior a ambição maior a probabilidade de se tornar ganância.

E seguindo a brilhante frase de Eliyahu M. Goldratt:

“Diga-me como me medes e eu te direi como me comportarei”

A ambição desmedida de crescimento, só focada em resultados financeiros, aumenta consideravelmente o risco de cometer deslizes éticos em nome de um bem maior.

Normalmente as justificativas são gerar empregos e arrecadar mais impostos, mas a realidade é que esse bem maior normalmente é o bem próprio.

O segundo vetor de força é o comportamento do consumidor.

Pode ser consciente, buscando produtos e empresas conscientes e pagando um preço justo, ou pode ser como tem sido…

Exigindo menores preços, comprando em sites com produtos de procedência duvidosas ou diretamente de uma produção que provoca injustiça social.

Quantas vezes, em bate-papo com amigos vemos as pessoas reclamando que a qualidade dos produtos tem baixado, os comércios locais estão fechando, o desemprego aumentando, o governo não faz nada, e dez minutos depois conta que comprou um produto em um site chinês.

O produto comprado pode ser mais barato por vários motivos. Primeiro por economia de escala, por ter menor tributação, menor custo produtivo, mas também pode ser porque não respeita as condições mínimas de trabalho, não paga um salário justo, e assim por diante.

Mas não importa, como é mais barato eu fecho os olhos e compro.

Se a pessoa que produziu vive em condições de miséria não é nosso problema, está longe mesmo…

Se eu contribuo para destruir empregos e empresas locais, não me importa.

O único que importa é comprar mais barato!

Veja bem, não quero insinuar um comportamento protecionista e me fechar para o mundo, talvez é importante sempre avaliar com uma perspectiva mais ampla que o preço do produto.

O consumidor também deve elevar seu nível de consciência e considerar o impacto de seu comportamento.

Não seria justo considerar que todos os problemas que temos na sociedade são responsabilidade das empresas.

O consumidor tem o poder de mudar as empresas, mas não o exerce, é mais fácil reclamar, porém fazer o mesmo.

E não me refiro somente a produtos, também a serviços e conteúdos.

Conheço pessoas que passaram anos reclamando que a programação da TV caiu a qualidade, mas consome.

Reclama que não se fazem música como antigamente, mas consome a atual.

Então do que estamos falando?

Se eu considero que a qualidade não é boa, eu não devo consumir. Esta é a minha forma de exigir um aumento de qualidade.

Se a TV aberta é ruim em sua opinião e você não pode pagar por um conteúdo de maior qualidade, vá a biblioteca pública de sua cidade e pegue um livro e não dê sua audiência a quem não a merece.

Não é uma questão de dinheiro e sim de consciência.

Consumidor exigente motiva a empresas serem melhores e oferecem produtos de maior qualidade a preços mais competitivos.

Consumidor consciente exerce um vetor de força em mesma direção, porém sentido contrário à ganância corporativa, reduzindo seu impacto negativo.

Consumidor medíocre e irresponsável contribuem para que empresas sejam inconscientes, exercendo uma força na mesma direção e sentido de sua ganância, potencializando e incentivando seu comportamento nocivo.

Que tipo de consumidor é você?

Melhor ainda.

Que tipo de consumidor você quer (e vai) ser?

 

Imagem: Freepik