Transformando com consciência corporativa

Este artigo foi publicado no dia 20/07/2020 na minha coluna no R7 e inova360

 

É possível transformar uma atividade ou toda uma indústria com consciência?

Qual o limite da responsabilidade social e meio ambiental de uma empresa?

Se pensarmos que está nas certificações (ISO, GPTW, Six Sigma, etc.) e guias de boas práticas (governança, responsabilidade social corporativa), estamos perdidos.

Se deixarmos em mãos da lei, piorou.

Não quero criticar as certificações ou a governança, elas são extremamente importantes e necessárias para um negócio, recomendo e incentivo a todos meus clientes a ter forte governança e compliance, porém, elas não têm nada que ver com consciência corporativa.

Boas práticas e conscientização, são conceitos necessários e complementares, porém, muito diferentes.

Vou tentar mostrar a diferença entre uma empresa correta de uma empresa consciente.

Imaginem uma empresa que vende material escolar licenciado.

Por exemplo, borrachas de apagar de personagens de desenhos animados ou super-heróis.

Este tipo de produto é extremamente atrativo para as crianças e rentáveis para a empresa.

Porém, essa empresa passa por um processo de conscientização e humanização, e decide revisar seu portfólio.

Buscando realmente ser coerente com sua nova visão, conversa com as escolas, e pergunta, o que a nossa empresa ajuda ou prejudica na educação das crianças?

A empresa recebe o feedback de que seus produtos licenciados viram brinquedo e sonho de consumo para as crianças.

O primeiro, impacta a parte pedagógica, criança deve brincar com brinquedos, o material escolar deve servir de apoio para aprender.

O segundo, é o bullying, produtos licenciados são mais caros e nem toda criança tem acesso.

Eu, como pai, acrescento outros pontos, que provavelmente também tenham sidos avaliados pela empresa.

Quantas vezes vemos crianças, “perdendo” propositalmente ou destruindo uma borracha para que os pais comprem o novo modelo?

Qual o impacto que terá na formação das novas gerações forjar um comportamento consumista tão cedo?

Qual o impacto no meio-ambiente por acelerar a extração da borracha para atender o aumento da demanda artificial, devido ao sucesso da campanha de marketing?

A empresa fazia, obviamente, o contrato de licenciamento dentro da lei, produzia a borracha seguindo todas as boas práticas do mercado, respeitando a legislação meio ambiental e tendo todos os selos de garantia de qualidade do mercado.

Porém, decidir se querem seguir ganhando dinheiro impactando negativamente às crianças, não é uma questão de certificações ou de boas práticas, é de conscientização.

Abrir mão de faturamento e alta rentabilidade para construir um mundo melhor, é um preço alto, que muitas vezes os executivos, empurram para o próximo.

E enquanto decidem onde vão viajar este ano com seu bônus, se convencem de que som bons e fazem o correto construindo um mundo hipócrita. Os pensamentos de autoconvencimento neste caso poderiam ser:  “se eu não vender a borracha de princesa, outros vão vender”, “se eu abrir mão deste negócio terei que despedir  pessoas e eu gero emprego, não os destruo” ou ainda “eu ganhando dinheiro com isso, dedico uma parte da margem à nossos projetos sociais, já somos uma empresa consciente”.

Pois é, este caso é real, a Mercur, empresa brasileira, que segundo Jorge Hoelzel, CEO da empresa, demorou 3 anos para decidir-se e preparar-se, e ao final preferiram perder 10% do faturamento em um produto de alta rentabilidade, porém, ser fiel a seu propósito, de construir “o mundo de um jeito bom pra todo mundo”.

Portanto, temos que trabalhar para aumentar a conscientização das empresas, ampliar seu campo de visão e atuação para construírem um mundo melhor.

O ideal é que este movimento fosse genuíno, realmente porque a empresa considera que é certo a fazer.

Mas se não for assim, recomendo fortemente que as empresas elevem seu grau de conscientização e humanização, mesmo sem acreditar que devem fazê-lo.

Por quê?

Com os millennials surgiu uma mentalidade mais consciente, preocupados com impacto social e meioambiental corporativo.

Os centennials estavam consolidando esta mentalidade e transformando em hábito de consumo, até que chegou à pandemia do COVID-19, que está acelerando e multiplicando por N a conscientização e humanização das pessoas.

Ao longo da história da humanidade, após todas as pandemias, houve um aumento de conscientização e de humanização.

Os eventos de forte impacto emocional nos levam à reflexão e volta aos valores básicos.

Por isso, as empresas precisarão humanizar-se e as que já o são, ampliar seu campo de humanização, para estar alinhado com seus clientes.

Esta semana, quarta-feira 22/07, no quadro Visão Tecno-Humanista do programa Inova360, exibido pela Record News às 8:00hs, estaremos com o Rafael Ugo, diretor de marketing e inteligência de mercado da Volvo Cars para a América Latina, e vamos falar de como a responsabilidade de uma empresa que se propõe a transformar sua indústria vai muito além de entregar um produto, de vender, enfim, é preocupar-se e ocupar-se do impacto de sua atividade.

O debate continuará em nossa Live com o Rafael e com os parceiros do programa, em nosso canal de Youtube, às 19h.

E ao final da jornada do programa Visão Tecno-Humanista, possamos responder à Volvo Cars e a vocês, se é possível e como transformar sua indústria com consciência corporativa.

 

Imagem: Freepik

A tecnologia matou a padronização

Este artigo foi publicado: no dia 24/09/2019 na minha coluna no R7 e nos portais Inova360 e ITForum365 .

 

A tecnologia nos permite unir dois conceitos, aparentemente, antagônicos, personalizar em grande escala

Extra! Extra! A padronização morreu!

Essa seria a grande manchete gritada pelos meninos nas esquinas para vender seus jornais.

Ao longo da história, muitos movimentos costumam ser pendulares. Na idade média os artesãos eram valorizados por dois motivos, por serem especialistas e por serem capazes de personalizar seus produtos, até o ponto de que cada reino ou feudo tinha seu próprio artesão.

Em tempos atuais, na segunda metade do século passado os produtos feitos à mão eram sinônimo de qualidade e personalização.

Os melhores ternos, os melhores sapatos, as melhores comidas, tudo era feito à mão.

Morei na Europa por 15 anos e era comum ver altos executivos com camisas feitas à mão com suas iniciais bordadas.

O problema disso é que não é possível conseguir escala, a limitação da capacidade produtiva eram as horas do dia do alfaiate, do sapateiro ou da cozinheira.

Então, com a revolução industrial, Taylor, Fayol, entre outros, iniciou-se um processo de industrialização que foi extremamente importante para o crescimento da humanidade.

Com o processo de industrialização e otimização de processo, chegou à padronização. (perfeitamente compreensível e razoável).

Sou de uma época onde o McDonald’s não aceitava mudar nada no lanche para não atrapalhar sua “linha de produção”.

Este conceito foi levado a todos os tipos de negócio e teve um enorme sucesso. Funcionou muito bem durante muitos anos, porém…

Pouco a pouco, as pessoas começaram a sentir a necessidade de customizar, desenvolveram o desejo de ter produtos e serviços customizados, mas nem sempre era possível tecnicamente.

O grande desafio da indústria era como conjugar produção em massa de forma customizada.

Então, chegaram os millennials (Y) e converteram os desejos da geração anterior em exigências, não aceitam produtos padrões.

Esta é uma característica geracional que se acentuou na próxima, os centennials (Z)

Como resolver este dilema? Com tecnologia e metodologias ágeis.

A tecnologia, se, aliada às metodologias ágeis, são capazes de viabilizar o conceito de customização em massa.

Iniciou-se uma corrida frenética para cumprir estas exigências, atender e/ou superar as expectativas dos clientes. Tudo para melhorar a experiência do cliente.

Este movimento iniciou-se fortemente no setor da moda, empresas de roupas e calçados, como Vans, Converse, Adidas, permitem você customizar seu tênis no site.

Embora tenha sido um grande passo ainda era insuficiente, então surgiu a nova geração de customização, a feita a medida literalmente.

A Feetz, startup americana que foi comprada recentemente por um grande grupo de calçado global, dono de muitas marcas, criou um app que permitia você criar o seu sapato à medida.

O funcionamento é simples, tira-se 3 fotos do pé (em diferentes ângulos guiados pelo próprio aplicativo), envia-se, e a Feetz imprimia, usando impressoras 3D o SEU sapato.

No app não era necessário informar o seu número de calçado.

Sabe por quê? Porque não somos simétricos!

Quem nunca sofreu com a seguinte situação:

Compramos um sapato, um pé fica ótimo o outro fica um pouco apertado ou um pouco folgado…

Ao usar o algoritmo da Feetz isso não acontece, o sapato é SEU.

Agora este conceito saiu do mundo da moda e chegou a outros setores. No podcast BE&SK #1, o CEO da Gaia Eletric Motors, Ivan Gorski, nos contou que será possível um cliente solicitar modificações em seu Gaia (obviamente não estruturais) e em 2 ou 3 semanas receber seu veículo customizado.

Até aqui fantástico, desde o ponto de vista da Tecno-Humanização. Aplicar tecnologia para oferecer ao cliente o melhor produto ou serviço possível, de preferência com materiais e conceitos que causem impacto positivos, tanto ambientais como sociais.

Porém… (sempre tem um porém…)

Isso também chegou aos conteúdos, todas as plataformas de streaming e redes sociais, mostram em função dos seus estilos, gostos e histórico de acesso, conteúdos similares.

Para a Tecno-Humanização, aqui começa o perigo.

É perfeito quando o cliente decide o que quer customizar, ele pode receber sugestões, mas sempre é a pessoa que decide.

Quando alguém decide pelo cliente, mostra o que quer escondendo-se atrás de “ofereço o que o cliente quer”, “eu filtro para facilitar para o cliente”, é perigoso.

Quando um corretor de imóveis oferece e diz que um determinado imóvel é ideal pra você, ele está realmente oferecendo o melhor pra você ou o melhor pra ele? O imóvel que mais demora pra vender, o que paga mais comissão…

Quando o gerente do banco te oferece um investimento, ele oferece o melhor pra você ou o melhor pra ele? O investimento que da mais comissão pra ele, o investimento que ele precisa bater a meta de vendas…

No mundo digital provavelmente seja bem pior!

Se alguém me mostra o conteúdo que eu devo consumir, a roupa que eu devo comprar, o que devo comer, está me mostrando o melhor pra mim, baseado em meu perfil, ou o melhor pra ele?

Serve como reflexão e ponto de atenção.

Voltando à customização em massa positiva e sem manipulação, as empresas realmente devem se prepararem para atender os seus clientes de forma customizada e ágil, porque…

A tecnologia matou a padronização.

Imagem: Pixabay