Orçamento, me engana que eu gosto

 

ALEX (CEO): Pessoal, agora vamos iniciar a reunião mais importante do ano!

Agora, com os acionistas, tive que voltar aos meus tempos de negociação de metas.

Há dois meses comecei a campanha e já fechei nossos objetivos …

FELIPE (CMO): Que campanha?!!! Eu não estou sabendo de nada…

Risos…

FÁBIO (CFO): Fica tranquilo que não é de marketing rsrsrsrs

É a técnica que o Alex usava para negociar a meta quando a gente trabalhava juntos na PWM, antes de criar a empresa dele. Uns dois meses antes da negociação da meta, ele começa a mandar notícias econômicas e tendências de mercado. Ele procura as notícias negativas ou pega as notícias normais e as interpreta de forma pessimista. Assim, ia criando no subconsciente do chefe dele uma imagem negativa ou de pouco crescimento para o próximo ano.

FELIPE (CMO): Isso é genial. Vou usar também. rsrsrsrs

ALEX (CEO): Nada disso, comigo não cola. E aqui, nós só enganamos os outros, não vale fazer isso entre a gente.

Eu já fechei a meta com eles.

Depois da campanha, eu fiz as 3i e consegui reduzir o crescimento que pediam.

FELIPE (CMO): 3i?

ALEX (CEO): É, primeiro eu mando uma meta baixa, uns 30%-40% mais baixo do que eu realmente acho que vou conseguir fazer, amparando-me nas projeções negativas que fui plantando. E digo que se aprovado esta meta vou precisar ajustar para menos a estrutura.

Normalmente, eles me devolvem dizendo que é inaceitável, que veem um cenário melhor do que eu pinto e me pedem 30% – 40% do eu quero, ou seja, mais ou menos o que vou fazer.

Eu reviso e melhoro a minha previsão deixando em 15% – 20% abaixo do que vou fazer.

Eles sobem novamente, e eu fecho em 10% abaixo. O que significa que vou fazer 100, minha meta será de 90 e ao fazer os 100, conseguimos um over achievement e temos um bônus gordo.

FELIPE (CMO): Negociação clássica!

ALEX (CEO): Mais ou menos. Porque entre uma iteração ou outra tenho que ir dando as informações que me interessam, dando notícias positivas e negativas na ordem e no momento certo.

Negociar a meta é uma arte.

O momento mais importante do ano sem dúvida, e é preciso dedicar muito tempo a isso. Porque uma meta mal negociada é jogar fora o ano e/ou o cargo.

SANTOS (CSO): Boa notícia, Alex!

Então vamos ter um crescimento menor, eu já estava preocupado. Porque depois do push que eu dei nas previsões para viabilizar a venda, a meta subiu muito este ano, e, se tivéssemos que crescer muito o ano que vem, estaríamos mortos.

ALEX (CEO): Boa tentativa, Santos (CSO), mas, acabei de dizer que comigo não cola. Não tente enganar o mestre. Rsrsrsrs

Com o conselho eu negociei a meta como executivo, com vocês eu negocio como empresário, porque eu ainda sou dono desta empresa.

E vamos ter que crescer dois dígitos sim!

Santos manda uma mensagem no grupo paralelo e olha para alguns diretores e José percebe a troca de cumplicidade deste pequeno grupo que está se formando.

SANTOS (CSO): Não estava falando para negociar Alex. Estou falando sério. Sem contar que, enquanto você falava, eu fiz umas contas aqui e não bate o número da meta.

Você negociou um crescimento de 6% com o conselho e me passou um crescimento de 11%!

ALEX (CEO): Sim, preciso ter um colchão caso você não bata a meta. Eu não vou ficar sem meu bônus.

SANTOS (CSO): Depois de tantos anos você não confia em mim?!!!! Após dez anos batendo a meta e fazendo a sua empresa crescer, não confia em que eu vá fazer os números este ano?

ALEX (CEO): Não é isso, Santos. Mas antes o objetivo era definido em casa, entre a gente, e não tínhamos que prestar contas a ninguém. Se há um ano você não tivesse feito o 100% e tivesse feito 95% ou 93%, não aconteceria nada. Agora, com o conselho é diferente… Eu não posso falhar!

Antes eu decidia o bônus que eu cobrava e o bônus que eu pagava.

Ou você não se lembra o ano que você fez 91% e eu paguei 100%.

SANTOS (CSO): Mas aquele ano, na verdade, eu fiz 102%, mas o “Dr. Fabio (CFO)” inventou uma regra nova de reconhecimento de revenue no meio do caminho e me quebrou.

ALEX (CEO): Por isso mesmo, sabendo que não foi justo com você, eu te paguei 100%. Mas agora não posso fazer isso. Nem o conselho, nem a governança permitiriam.

Mas fica tranquilo, eu te autorizo a colocar uma gordura também de 4% para os seus diretores. Só cuida para eles não colocarem nada para os vendedores.

A gordura acaba em você.

Pessoal, as partes mais importantes eram fechar com o conselho e com vendas. A meta de vocês é mais simples e já fechei com quase todos também.

Outra coisa, também aprovei o orçamento e conseguimos os investimentos que queríamos para os projetos de vocês.

O Fábio (CIO) vai revisar e na próxima semana fechamos essa parte com vocês.

Agora vamos produzir porque temos que fechar o ano. Estamos longe da meta e com pouco tempo.

Conto com o apoio de vocês para executar o plano de emergência que traçamos para tentar, ao menos, não fazer tanto o ridículo.

 

Termina a reunião e todos saem

ALEX (CEO): José, espera um momento. Como foi a reunião com TI?

JOSÉ: Não vimos nada do que eles fazem lá porque a reunião foi só para falar da integração. Eles me falaram que vão me convidar para a próxima.

ALEX (CEO): Eu imaginei, o Edu me mandou um e-mail dizendo que em três semanas estará tudo integrado.

Aproveitando, o que achou da reunião?

Gostou de aprender como se negocia uma meta?

JOSÉ: Eu achei interessante, mas gostaria de ver como o outro lado está também.

ALEX (CEO): Que lado?

JOSÉ: Esse tal do conseio. Porque o senhor tem a técnica da campanha e dos 3i, mas eles também devem ter a deles, né?

Cêis são gozado, vive reclamando que não tem tempo para nada e dedicam um tempo enorme a brincar de negociar entre vocês.

Se ôceis são sócio, não entendo por que se enganam.

ALEX (CEO): José…

JOSE: Já sei o que o senhor vai falar: “É assim que funciona o mundo corporativo, José”.

Mas o senhor vai me desculpar, mas não me entra na cachola.

Quer outra coisa que eu não entendo?

O senhor vai ter que crescer 6%, o Santos 11% e os vendedores, 15%.

Para que o senhor e o Santos possam ganhar um bônus gordo, os vendedores têm que crescer mais que o dobro que o senhor para ganhar uma comissão 20 ou 30x menor.

Na minha cabeça isso não é justo, Seu Alex.

ALEX (CEO): O mundo não é justo, meu caro José.

Bem, como fechei a meta e o orçamento com o conselho e com os diretores, isso precisa ser comemorado.

Vamos jantar em um lugar legal.

 

Chegando ao restaurante, Alex se encontra com dois membros do conselho.

JOSE: É Seu Alex, pelo jeito o senhor não é o único que tem motivos para comemorar. Acho que o conseio também está comemorando esse orçamento me engana que eu gosto d’ôceis.

 

Imangens: BE&SK