O conhecimento move o mundo… a pergunta é para onde?

 

No episódio anterior, Alex perguntou a José de onde vem seu conhecimento sobre filosofia, sobre o mundo e sobre o ser humano…

JOSÉ: No sítio ao lado, vivia uma senhora que compra fruta, verdura, ovo, tudo da gente aqui. O Pai me pedia para levar tudo fresquinho para ela. Eu ia lá e me dava pena ver ela sozinha.

Ela sempre estava com um livro nas mão.

E um dia eu perguntei por que ela lia tão devagar. Aquele livro não acabava nunca. Rsrsrs

E ela me convidou a entrar na casa dela. Seu Alex, eu nunca tinha visto tanto livro na minha vida. A senhora morava numa biblioteca.

Com o tempo, ela ficou doente e já não conseguia segurar os livros por muito tempo, por causa disso foi ficando triste.

Foi aí que tudo começou.

Eu me ofereci para ler os livro para ela.

Eu combinei de levar as fruta no final da tarde, depois que eu terminava de trabalhar com o Pai, e ficava lá, lendo para ela.

Ela me pedia para ler uns livro antigo, dizia que os clássicos refletem a cultura de um povo ou de um período da história da humanidade. Que neles estavam contidos a maior parte do conhecimento humano.

No começo, eu não entendia nada.

Mas, depois de ler o livro para ela, ela me explicava o que eu não havia entendido e me emprestava o livro para ler de novo, para eu aprender com a minha cabeça.

Então, eu lia no mínimo duas vezes cada livro.

E assim fui aprendendo e me apaixonando pela leitura da filosofia, das artes, das ciências. Ela tinha de tudo.

A gente tinha começado ler alguns autores de negócio, mas ela faleceu e eu nunca mais voltei no sítio dela.

ALEX (CEO): Agora eu entendo tudo!

E quem era essa senhora? Como se chamava? O que ela fazia antes de vir pro sítio? Enfim, me conta mais dessa história.

JOSÉ: Ela não falava da vida dela. Ela se chamava Temis.

Bem, na verdade, esse era seu pseudônimo. Depois eu entendi por quê. Temis vem de Temistocleia, que foi uma filósofa, matemática e uma alta profetisa de Delfos, que viveu no século VI a.C. e foi, segundo o filósofo Aristoxenos, a grande mestra de Pitágoras, introduzindo-o aos princípios da ética. Depois de Pitágoras criar o termo filosofia, Temistocleia teria sido a primeira mulher filósofa do Ocidente.

ALEX (CEO): E ela tinha dinheiro?

JOSÉ: Não sei Seu Alex, mas acho que sim.

Ela mantinha o sítio impecável sem produzir nem vender nada. Tinha alguns empregados lá e sempre pagou tudo direitinho. E olha que o sítio dela era grande.

ALEX (CEO): Que história fascinante, José.

Um matuto filósofo.

JOSÉ De jeito nenhum, Seu Alex.

Eu leio filosofia, mas não sou filósofo não.

Mas eu também leio poesia, história, negócios e clássicos da literatura. De tudo um pouco.

A Dona Temis dizia que era importante ter uma visão ampla do mundo e o livro era a nossa cápsula, pois, com eles, a gente viajava no tempo.

Ela dizia que tudo está interconectado e não ter uma visão holística do mundo nos converte em presa fácil.

Quando ela me falou isso, eu num sabia o que era holística e tive que procurar no dicionário. Isso foi outra coisa que ela me ensinou, pesquisar o que não se sabe.

ALEX (CEO): Adoraria ter conhecido esta senhora. Eu estou encantado e por mim, ficaria conversando com você aqui por horas e horas, mas os pernilongos começaram a me comer vivo e já está escurecendo.

Vamos voltar?

JOSÉ: O senhor é que manda ué.

ALEX (CEO): Não Zé. Aqui eu não sou o “Seu Alex” chefe. Você se converteu em um amigo e em um grande apoio. Obrigado.

JOSE: Seu Alex, pra mim, é uma honra. 

 

Depois de uma semana…

ALEX (CEO): José, daqui a 3 dias eu volto pra casa.

Já carreguei a bateria.

Contadores a zero e temos que começar o novo ano fiscal.

Ontem, eu estava lendo um estudo do Gallup que diz que apenas 35% dos funcionários estão de fato engajados com suas empresas e atividades, enquanto 12% são ativamente desengajados e susceptíveis a espalhar negatividade a respeito de sua organização entre colegas de trabalho. 

Eu já tinha visto que, segundo a Society for Human Resource Management, em uma pesquisa sobre engajamento e satisfação, foi descoberto que 88% das pessoas que responderam que estavam satisfeitas declararam estar moderadamente engajadas. 

Eu preciso retomar o controle da minha empresa porque as coisas se perderam um pouco.

Preciso também que você troque o responsável pelo sítio porque, depois que o seu pai morreu, as coisas pioraram muito por aqui. O sítio está pior cuidado, a colheita diminuiu, demos até prejuízo este ano. 

Eu não quero um lucro enorme do sítio, mas pelo menos que não me custe dinheiro. 

Organize-se aí porque no domingo a gente volta pra casa.

JOSÉ: Então Seu Alex, sobre isso eu queria falar com o senhor.

Eu vou ficar por aqui.

ALEX (CEO): Como assim, José?!

Eu falei que você se converteu em um amigo, mas não exagera.

Nós nem conversamos sobre isso.

Eu não posso te obrigar a ir para a cidade, você é maior de idade, mas eu posso decidir se você fica no meu sítio ou não.

JOSÉ: Não Seu Alex, não me refiro ficar no sítio do senhor.

Quando eu cheguei aqui, tinha umas cartas para mim. Eu abri faz uns dias e era do advogado da Dona Temis. 

Parece que ela tinha muito dinheiro, deixou uma parte para umas obras de caridade, outra para uma fundação que ela tinha e, para mim, ela deixou o sítio e toda a biblioteca que ela tinha, além de um pouco de dinheiro para eu começar a tocar a sítio.

Eu tenho que preparar a casa  porque vão chegar mais livros. Parece que o que ela tinha aqui era só uma pequena parte.

ALEX (CEO): Não sei o que dizer. Não sei se fico feliz por você ou triste por mim.

Então vamos fazer uma coisa.

Já que você vai ficar, toca o sítio para mim. 

Tenho certeza de que você vai cuidar disso aqui como o seu pai fazia. 

Ele cuidava disso aqui como se fosse dele.

E o sítio voltará a estar bem cuidado e dar lucro.

JOSÉ: Não sei não, Seu Alex. Eu vou ter muito trabalho lá no meu, porque lá, eu terei que começar do zero. 

ALEX (CEO): José, eu preciso de você.

Você sabe como estão as coisas na empresa, não posso ter nenhuma preocupação com isto.

JOSÉ: Tá bão! Eu aceito o convite de assumir o sítio, mas com uma condição.

Eu vou administrar este sítio exatamente como eu administrar o meu. 

Vou aplicar aqui tudo o que eu fizer lá.

O senhor aceita?

ALEX (CEO): Você quer carta-branca para fazer o que quiser?

JOSÉ: Sim! Ou faço à minha maneira, ou, não tem trato.

Aqui não tem conseio, não tem relatório, nem nada. 

Eu assumo e toco isso para frente do meu jeito.

ALEX (CEO): Aprendeu rápido hein. Rsrsrsrs

JOSÉ: Tenho ou não tenho liberdade total?

ALEX (CEO): Mas por que isso é tão importante pra você?

JOSÉ: O senhor falou que ficou encantado com o meu conhecimento. 

O conhecimento move o mundo e a pergunta que devemos nos fazer é: Para onde?

Eu quero ter a possibilidade de mover o meu mundo na direção que eu acho correta.

ALEX (CEO): OK, entendido. 

Você tem carta-branca!

 

Você quer saber como essa história continua? Então, em breve, não perca a 2ª temporada do Matuto corporativo!

 

Imagens: BE&SK

Fim do ano fiscal… Primeiro fechamento do José

 

ALEX (CEO): Chegamos!!!

Alex olha para o José e nota que está claramente emocionado.

Descem do carro e respiram fundo enquanto se estiram.

ALEX (CEO): Foi um pouco loucura vir direto, mas valeu a pena.

Vamos dormir aqui.

José dá alguns passos e olha à sua volta. Sem mencionar nenhuma palavra. Somente contempla a paisagem, olha cada detalhe recordando cada momento que viveu ali.

ALEX (CEO): Está feliz de voltar ao sítio?

JOSÉ: Feliz demais, Seu Alex.

Foi sair da rodovia e pegar a estrada de chão e entrou em mim uma felicidade que não cabia no peito.

ALEX (CEO): Vamos descansar que a viagem foi longa e amanhã damos um passeio por aí. Se quiser, pode dormir na casa principal comigo.

JOSÉ: De jeito nenhum. Brigado pelo convite, mas essa é a casa do senhor. Eu vou dormir na minha casa.

ALEX (CEO): Só falei porque talvez você não quisesse ficar na sua casa, pela lembrança do seu pai.

JOSÉ: Pelo contrário, Seu Alex. O meu pai está em mim, onde eu estiver. E aqui, neste lugar, eu me conecto mais a ele. Lá eu sinto a presença dele, mesmo na ausência.

ALEX (CEO): Alex se emociona.

Então, boa noite e bom descanso.

JOSÉ: Pro senhor também.

 

No dia seguinte, Alex se levanta tarde e José já está cuidando dos afazeres do sítio.

ALEX (CEO): Bom dia, Zé!

Aqui posso te chamar de Zé, como sempre fiz. Rsrsrsrs

JOSÉ: Bom dia, Seu Alex!

ALEX (CEO): Zé, vamos pescar?

JOSÉ: Vixi, Seu Alex, tenho bastante trabalho aqui.

ALEX (CEO): Zé, você não está aqui como funcionário do sítio. Você está de férias comigo, como funcionário da empresa.

E eu quero a sua companhia. Preciso conversar com você.

JOSÉ: Se é assim, então eu vou né?

Vou buscar as tralha e colocar na caminhonete enquanto o senhor toma café. A Jacinta já pôs a mesa pro senhor lá na varanda.

 

Já na beira do rio…

ALEX (CEO): Zé, me conta como foi a experiência deste ano lá na cidade? Como foi fazer o seu primeiro fechamento de ano fiscal?

JOSÉ: Foi maravilhoso, Seu Alex! Eu agradeço muito ao senhor por ter me dado essa oportunidade.

E agora eu entendo porque o senhor vinha todo ano aqui depois do fechamento.

 

Alex se surpreende

ALEX (CEO): Nossa! Não esperava por essa resposta. Eu achei que você não tinha gostado. Lá é muito diferente do mundo que você estava acostumado.

JOSÉ: Por isso mesmo, Seu Alex. A experiência foi maravilhosa pra eu confirmar o que eu já sabia e sempre falava pro Pai. Esse é o meu lugar e aqui eu quero trabalhar e viver. O mundo d’ôceis é muito estranho.

Eu acho que não é bom viver como vocês vivem.

ALEX (CEO): Sabe Alex, talvez você tenha razão. Eu sou executivo há muitos anos, estou acostumado com este mundo, essa forma de fazer as coisas. Sempre convivi bem com a pressão, mas este último ano foi diferente.

Pela primeira vez na vida tive a sensação de estar perdendo o controle e isso me afetou bastante.

As suas cutucadas também me geraram muitas reflexões.

Parece que eu estou enxergando muita falsidade. Antes de comprar a empresa nova, não era assim.

JOSÉ: O senhor vai me desculpar, mas pelo o que eu vi, sempre foi assim. É tudo de enganação, tudo teatro.

ALEX (CEO): É, no mundo corporativo tem muita falsidade, mas eu não gosto disso e, por isso, na minha empresa não tinha.

JOSÉ: O senhor vai me desculpar de novo, mas na empresa do senhor tem sim, e ‘tu é’ o primeiro a fazer parte desse mundo irreal.

ALEX (CEO): Como assim?!!!

JOSÉ: É mentira o tempo todo, vocês enganam os outros e a si mesmos também.

Poderia dar um montão de exemplos.

ALEX (CEO): Fala um!

JOSÉ: O senhor já tinha me falado que não gostava de falsidade quando a gente foi almoçar e o senhor viu as pessoas fotografando o prato.

Mas quando o investidor veio à empresa, desde a arrumação até os números, tudo foi teatro!

A sua equipe mente com o senhor ou para o senhor:

O Santos mente no forecast, o Fábio nas previsões, o Cláudio sobre a pesquisa de clima, o Eduardo sobre a integração e, para completar, o senhor mente na negociação do orçamento.

Lá na empresa do senhor é um covil de gente falsa e…

 

Gente falsa não fala, insinua.

Não conversa, gera intriga.

Não elogia, adula.

Não deseja, cobiça.

Não colabora, interfere.

Não participa, se infiltra.

Não sorri, mostra os dentes.

Não caminha, rasteja pela vida sabotando a felicidade alheia e sobrevivendo dos seus restos.

 

 

Vocês passam a vida dando tapinha nas costas, dizendo que são um time unido, mas todo mundo só pensa no próprio umbigo.

É maluco ver como vocês criaram um mundo artificial e não percebem que ele é nocivo. Vocês acham normal…

Mas o que mais me surpreendeu foi que vocês, após fazerem tudo isso com os outros e entre vocês mesmos, querem ser levados a sério.

Vocês acreditam que estão construindo um mundo melhor quando não é certo. A maioria não faz por mal, são gente honesta, pensam realmente que estão fazendo o bem.

Mas não é possível construir um mundo melhor baseado na mentira, na enganação e na falácia.

Eu gosto muito de um quadro que se chama “A verdade saindo de um poço”,  uma pintura de 1896 e é de autoria de Jean Léon Gerom. O senhor conhece?

 

 

Alex arregala os olhos e olha assustado pro matuto, surpreso com sua erudição.

ALEX (CEO): Não.

JOSÉ: É um quadro muito bonito e está ligado à parábola da verdade. O senhor conhece?

ALEX (CEO): Também não.

 

 

Alex totalmente sem reação pergunta…

ALEX (CEO): Zé, os seus comentários sempre me chamaram a atenção. Mesmo com tão pouco estudo formal, você tem uma visão muito clara e correta das coisas. Um bom senso e um critério fora do normal.

Mas agora vejo que não se trata somente de sabedoria popular. Você tem conhecimentos que me fascinam.

De onde vem tanto conhecimento filosófico sobre a vida e sobre o ser humano?

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Pela primeira vez, José revelará de onde vem seu conhecimento e sabedoria.

A resposta dele vai te surpreender.

Não perca o próximo capítulo…

 

Imagens: BE&SK e reprodução digital "A verdade saindo de um poço”,  1896 - Jean Léon Gerom

Orçamento, me engana que eu gosto

 

ALEX (CEO): Pessoal, agora vamos iniciar a reunião mais importante do ano!

Agora, com os acionistas, tive que voltar aos meus tempos de negociação de metas.

Há dois meses comecei a campanha e já fechei nossos objetivos …

FELIPE (CMO): Que campanha?!!! Eu não estou sabendo de nada…

Risos…

FÁBIO (CFO): Fica tranquilo que não é de marketing rsrsrsrs

É a técnica que o Alex usava para negociar a meta quando a gente trabalhava juntos na PWM, antes de criar a empresa dele. Uns dois meses antes da negociação da meta, ele começa a mandar notícias econômicas e tendências de mercado. Ele procura as notícias negativas ou pega as notícias normais e as interpreta de forma pessimista. Assim, ia criando no subconsciente do chefe dele uma imagem negativa ou de pouco crescimento para o próximo ano.

FELIPE (CMO): Isso é genial. Vou usar também. rsrsrsrs

ALEX (CEO): Nada disso, comigo não cola. E aqui, nós só enganamos os outros, não vale fazer isso entre a gente.

Eu já fechei a meta com eles.

Depois da campanha, eu fiz as 3i e consegui reduzir o crescimento que pediam.

FELIPE (CMO): 3i?

ALEX (CEO): É, primeiro eu mando uma meta baixa, uns 30%-40% mais baixo do que eu realmente acho que vou conseguir fazer, amparando-me nas projeções negativas que fui plantando. E digo que se aprovado esta meta vou precisar ajustar para menos a estrutura.

Normalmente, eles me devolvem dizendo que é inaceitável, que veem um cenário melhor do que eu pinto e me pedem 30% – 40% do eu quero, ou seja, mais ou menos o que vou fazer.

Eu reviso e melhoro a minha previsão deixando em 15% – 20% abaixo do que vou fazer.

Eles sobem novamente, e eu fecho em 10% abaixo. O que significa que vou fazer 100, minha meta será de 90 e ao fazer os 100, conseguimos um over achievement e temos um bônus gordo.

FELIPE (CMO): Negociação clássica!

ALEX (CEO): Mais ou menos. Porque entre uma iteração ou outra tenho que ir dando as informações que me interessam, dando notícias positivas e negativas na ordem e no momento certo.

Negociar a meta é uma arte.

O momento mais importante do ano sem dúvida, e é preciso dedicar muito tempo a isso. Porque uma meta mal negociada é jogar fora o ano e/ou o cargo.

SANTOS (CSO): Boa notícia, Alex!

Então vamos ter um crescimento menor, eu já estava preocupado. Porque depois do push que eu dei nas previsões para viabilizar a venda, a meta subiu muito este ano, e, se tivéssemos que crescer muito o ano que vem, estaríamos mortos.

ALEX (CEO): Boa tentativa, Santos (CSO), mas, acabei de dizer que comigo não cola. Não tente enganar o mestre. Rsrsrsrs

Com o conselho eu negociei a meta como executivo, com vocês eu negocio como empresário, porque eu ainda sou dono desta empresa.

E vamos ter que crescer dois dígitos sim!

Santos manda uma mensagem no grupo paralelo e olha para alguns diretores e José percebe a troca de cumplicidade deste pequeno grupo que está se formando.

SANTOS (CSO): Não estava falando para negociar Alex. Estou falando sério. Sem contar que, enquanto você falava, eu fiz umas contas aqui e não bate o número da meta.

Você negociou um crescimento de 6% com o conselho e me passou um crescimento de 11%!

ALEX (CEO): Sim, preciso ter um colchão caso você não bata a meta. Eu não vou ficar sem meu bônus.

SANTOS (CSO): Depois de tantos anos você não confia em mim?!!!! Após dez anos batendo a meta e fazendo a sua empresa crescer, não confia em que eu vá fazer os números este ano?

ALEX (CEO): Não é isso, Santos. Mas antes o objetivo era definido em casa, entre a gente, e não tínhamos que prestar contas a ninguém. Se há um ano você não tivesse feito o 100% e tivesse feito 95% ou 93%, não aconteceria nada. Agora, com o conselho é diferente… Eu não posso falhar!

Antes eu decidia o bônus que eu cobrava e o bônus que eu pagava.

Ou você não se lembra o ano que você fez 91% e eu paguei 100%.

SANTOS (CSO): Mas aquele ano, na verdade, eu fiz 102%, mas o “Dr. Fabio (CFO)” inventou uma regra nova de reconhecimento de revenue no meio do caminho e me quebrou.

ALEX (CEO): Por isso mesmo, sabendo que não foi justo com você, eu te paguei 100%. Mas agora não posso fazer isso. Nem o conselho, nem a governança permitiriam.

Mas fica tranquilo, eu te autorizo a colocar uma gordura também de 4% para os seus diretores. Só cuida para eles não colocarem nada para os vendedores.

A gordura acaba em você.

Pessoal, as partes mais importantes eram fechar com o conselho e com vendas. A meta de vocês é mais simples e já fechei com quase todos também.

Outra coisa, também aprovei o orçamento e conseguimos os investimentos que queríamos para os projetos de vocês.

O Fábio (CIO) vai revisar e na próxima semana fechamos essa parte com vocês.

Agora vamos produzir porque temos que fechar o ano. Estamos longe da meta e com pouco tempo.

Conto com o apoio de vocês para executar o plano de emergência que traçamos para tentar, ao menos, não fazer tanto o ridículo.

 

Termina a reunião e todos saem

ALEX (CEO): José, espera um momento. Como foi a reunião com TI?

JOSÉ: Não vimos nada do que eles fazem lá porque a reunião foi só para falar da integração. Eles me falaram que vão me convidar para a próxima.

ALEX (CEO): Eu imaginei, o Edu me mandou um e-mail dizendo que em três semanas estará tudo integrado.

Aproveitando, o que achou da reunião?

Gostou de aprender como se negocia uma meta?

JOSÉ: Eu achei interessante, mas gostaria de ver como o outro lado está também.

ALEX (CEO): Que lado?

JOSÉ: Esse tal do conseio. Porque o senhor tem a técnica da campanha e dos 3i, mas eles também devem ter a deles, né?

Cêis são gozado, vive reclamando que não tem tempo para nada e dedicam um tempo enorme a brincar de negociar entre vocês.

Se ôceis são sócio, não entendo por que se enganam.

ALEX (CEO): José…

JOSE: Já sei o que o senhor vai falar: “É assim que funciona o mundo corporativo, José”.

Mas o senhor vai me desculpar, mas não me entra na cachola.

Quer outra coisa que eu não entendo?

O senhor vai ter que crescer 6%, o Santos 11% e os vendedores, 15%.

Para que o senhor e o Santos possam ganhar um bônus gordo, os vendedores têm que crescer mais que o dobro que o senhor para ganhar uma comissão 20 ou 30x menor.

Na minha cabeça isso não é justo, Seu Alex.

ALEX (CEO): O mundo não é justo, meu caro José.

Bem, como fechei a meta e o orçamento com o conselho e com os diretores, isso precisa ser comemorado.

Vamos jantar em um lugar legal.

 

Chegando ao restaurante, Alex se encontra com dois membros do conselho.

JOSE: É Seu Alex, pelo jeito o senhor não é o único que tem motivos para comemorar. Acho que o conseio também está comemorando esse orçamento me engana que eu gosto d’ôceis.

 

Imangens: BE&SK

Fazer o que precisa vs. fazer o que é certo

 

EDUARDO (CIO): Bom dia a todos!

Hoje temos um convidado especial em nossa reunião. O José, assistente pessoal do Alex.

Pessoal, hoje a reunião vai ser fácil.

Mensagem única e direta.

Quero a integração de sistemas já!

O pessoal lá de cima tá puto. O Alex quer isso para ontem porque o conselho está pressionando.

Já que as coisas não andaram sozinhas e vocês não fizeram direito o trabalho de vocês, eu quero revisar o cronograma, saber onde e por que está atrasado e o que vocês vão fazer para resolver o problema.

Vilela, me fale sobre a integração.

VILELA (PO): Nós estamos no cronograma.

EDUARDO (CIO): Como assim?

A compra foi feita há seis meses e ainda não estão todos os sistemas integrados. Mas, para todos os efeitos, estamos no cronograma!

Quem aprovou este cronograma?!!!

VILELA (PO): O Jorge (gerente de TI) aprovou com você.

EDUARDO (CIO): Comigo?

Eu não me lembro de ter aprovado um prazo tão longo assim.

Quando ele me mostrou as fases, me pareciam fazer bastante sentido.

VILELA (PO): Então deixa eu explicar quais são as fases, onde estamos e por que a integração foi desenhada desta maneira.

Na due dilligence, nós identificamos que eles utilizavam muitos sistemas diferentes ao nosso, alguns proprietários inclusive.

A primeira fase foi migrar os sistemas que eles tinham, que eram iguais ou piores que os nossos. Neste caso foi fácil porque a migração dos iguais é automática e a dos piores, nós mantivemos os nossos e tiramos os deles.

Agora estamos na fase mais complexa.

Para usar os sistemas deles, que eram melhores, precisamos aprender como funciona, mudar alguns processos internos para adaptar-nos ao sistema, enfim, tem uma curva de aprendizado longa.

No meio do caminho tivemos outro problema. O Fábio (CFO) pressionou para mandarmos embora a equipe que havia desenvolvido o melhor sistema que eles tinham, e você aceitou lembra?

EDUARDO (CIO): Mas tínhamos que mostrar eficiência na integração e era uma equipe caríssima, ganhavam mais que vocês. Eu fiz isso para protegê-los!

Se pago mais para eles, vocês se sentiriam mal e desmotivados.

Se igualo o salário de vocês ao deles, aumentaríamos muito o nosso custo e, com o tempo, cabeças  rolariam.

Então a solução foi dispensar a equipe deles. Aí agora você está dizendo que não temos ninguém em nossa equipe capaz de entender como funciona o sistema deles?

VILELA (PO): Não é isso, mas sim que vamos conseguir aprender e implantar o sistema aqui, só que vai demorar mais tempo.

EDUARDO (CIO): E a documentação do sistema?

VILELA (PO): Eu não sei se havia documentação, mas não encontramos os documentos que poderiam nos ajudar a acelerar este processo.

Mas fica tranquilo que vamos fazer.

EDUARDO (CIO): Vamos fazer para ontem?

VILELA (PO): Para ontem não. Trata-se de um sistema complexo, que é o core da empresa.

Criamos uma equipe multidisciplinar com operações, finanças e jurídico para revisar os processos, enfim é uma mudança profunda.

Porém, acreditamos que nos trará muitos benefícios a longo prazo.

EDUARDO (CIO): E se mantivermos o nosso sistema e trazermos somente os dados do deles?

VILELA (PO): Neste caso seria mais rápido. E se não der para trazer os dados, deixamos só para consulta de histórico, usamos o nosso e pronto. Em duas semanas está resolvido.

EDUARDO (CIO): Então é isso que vamos fazer.

VILELA (PO): Não é melhor falarmos com o Jorge (gerente de TI) antes? Ele está doente e não pôde vir hoje, mas semana que vem ele estará de volta.

EDUARDO (CIO): E perder mais uma semana?!!! Nem pensar.

Aqui as coisas mudaram, o bom para a empresa é o bom para o conselho, portanto, se tivermos que deixar de ter algumas funcionalidades que o sistema deles tinha, a gente deixa.

Outra coisa, implantaremos as vantagens que eles tinham no nosso sistema com tempo.

Mas a migração eu quero já! Além do mais, ao manter o nosso sistema, mandamos uma mensagem clara de quem manda aqui. Quem comprou e quem foi comprado!

Vou sair daqui e mandar um e-mail pro Alex dizendo que em duas semanas os sistemas estarão migrados.

Dá seus pulos, Vilela.

Se precisar de qualquer coisa, mas qualquer coisa mesmo, me fala.

Veja o que precisa para cumprir o prazo, mas cumpra!

Agora todo mundo vá fazer isso acontecer.

 

Todos saem da sala.

O José também está saindo e Eduardo lhe chama.

EDUARDO (CIO): José, pode ficar um momento por favor.

Como você está conhecendo todas as áreas da empresa, eu gostaria que você participasse de outra reunião da minha equipe. Essa reunião foi diferente, era muito tática, somente para tratar o tema da integração.

Não deu para você conhecer nada da nossa área.

JOSÉ: Engano do senhor. Deu para ver muita coisa.

EDUARDO (CIO): O que você quer dizer com isso?

JOSÉ: Quer que eu fale mesmo?

EDUARDO (CIO): Claro!

JOSÉ: Ôceis falaram um montão de vez, “o sistema deles”. A partir do momento que ôceis compraram a empresa não deveria ter mais “eles e nóis”, é uma coisa só, não é?

EDUARDO (CIO): Sim, mas veja bem. Eu me referia ao sistema, não à equipe. A equipe somos uma só.

JOSÉ: Ué, então não entendi. Se o senhor diz que somos todos a mesma empresa, por que o senhor disse que queria mandar a mensagem de quem manda aqui?

EDUARDO (CIO): Não, mas isso é diferente. É uma forma de falar. Às vezes, no mundo corporativo, é importante marcar território José. O CIO da empresa que compramos foi mandado embora, mas o segundo quis tentar abrir espaço e pegar o meu lugar, então é bom ele receber essa mensagem.

JOSÉ: Então tá né, se o senhor diz que é assim.

Agora, o que me deixou maluquinho de tudo foi que ôceis gostaram do sistema da outra empresa porque era melhor.

Mandaram as pessoa que conhecia o sistema embora para economizar, ficaram sem as pessoa e acabaram gastando mais dinheiro tentando aprender a fazer o sistema funcioná.

E agora que estavam perto de conseguir, jogam fora tudo isso,  não podem esperar porque num-sei-quem desse tal conseio quer que se faça tudo rápido.

Tá loco como céis gosta de jogar dinhero fora. Quem paga tudo isso?

Não seria melhor o senhor explicá para eles que é melhor esperar um pouco e fazer as coisa direito?

Seria o melhor para a empresa.

EDUARDO (CIO): É mais ou menos isso. Mas não é tão simples assim.

JOSÉ: Como não uai?

EDUARDO (CIO): Nossa equipe de executivos é muito experiente e domina todas as técnicas de gestão do mercado.

Tomando essa decisão hoje, talvez eu tenha prejudicado um pouco o investidor, mas reduzo a pressão.

Depois, antes do final do ano fiscal, eu faço alguns ajustes para compensar.

O acionista nunca perde.

É para isso que ele me paga.

JOSÉ: Então talvez o senhor tenha que cometer outro erro ou injustiça para corrigir essa.

Que bola de neve da gota.

Não adianta não Seu Eduardo, eu agradeço muito a tentativa do senhor, mas eu não consigo entender esse mundo d’ôceis.

EDUARDO (CIO): É José, você tem toda a razão do mundo.

Mas falar com o conselho sobre isso só seria possível em outro momento, estamos no início da relação e precisamos e ganhar a confiança deles e dos investidores mostrando que somos capazes de entregar os resultados combinados.

JOSÉ: Agora o senhor acabou de me matar.

Aqui na cidade ôceis ganham a confiança deixando de falar a verdade e fazendo o que é pior da empresa, só para não defender o que é certo?

Que jeito estranho de ganhar confiança e agradar uma pessoa.

Ôceis fazem o que precisa fazer para agradar o investidor, mesmo que não seja certo.

O que significa que para agradar ao investidor ôceis prejudica ele.

Acho que eu sou muito lerdo para entender essa lógica d’ôceis.

 

Imagens: BE&SK

Cada um é responsável por todos

 

 

CLÁUDIO (CHRO): Boa tarde a todos!

Tenho o resultado da pesquisa de clima que encomendamos.

Agradeço a todos por terem dado um “empurrãozinho” na equipe de vocês. A adesão foi de 97% dos colaboradores.

FÁBIO (CFO): No meu caso foi fácil. Durante a minha reunião de equipe eu disse: Pessoal, agora é o momento de preencher a pesquisa, me sentei na frente deles e esperei eles preencherem. Simples assim. Já até imagino de qual departamento são os 3% que não preencheram…

ALEX (CEO): Pessoal, sem dardos envenenados. Vamos nos concentrar no resultado da pesquisa.

CLÁUDIO (CHRO): Eu enviei o resultado completo a todos vocês para que leiam e possam, com um plano de ação por área, dar o feedback ao time de vocês.

É importante que cada um de vocês leia o relatório completo e elabore um plano para corrigir os desvios da área de vocês.

FÁBIO (CFO): Eu já dei uma olhada em diagonal e na minha área está tudo bem.

SANTOS (CSO): Claro! Quem vai falar mal da empresa e do chefe preenchendo uma pesquisa na frente dele? Você desvirtua a pesquisa, Fábio (CFO).

ROSA (CLO): Pra começar, eu acho que deveríamos voltar a fazer a pesquisa com a empresa anterior, que dava o resultado fechado de toda a empresa. Essa história de fazer por áreas é pouco efetiva. Temos o Fábio que manipula, o meu caso que, ao ter uma área com duas pessoas, elas não vão falar o que pensam de verdade nunca, porque seria fácil descobrir o que cada uma falou…

BRENO (COO): Cláudio, eu não vou conseguir ler até no final da próxima semana. Esse relatório é super grande e eu estou enrolado com dois projetos grandes, finais de semana incluídos.

CLÁUDIO (CHRO): Você deveria ser o primeiro a ler, não porque a sua pesquisa esteja ruim, mas sim, por ter a maior equipe.

BRENO (COO): Justamente por isso não consigo. Tenho a maior equipe, e muita coisa pra fazer.

ALEX (CEO): O que está acontecendo hoje com vocês? Não estamos aqui para julgar os critérios da pesquisa e sim o resultado dela. Podemos discutir o tipo de estudo na próxima vez, esta já está feita. Mas adianto que fui eu que escolhi este modelo de pesquisa, pois assim, posso ver também como vocês estão administrando as suas equipes.

ROSA (CLO): Mas isso não se vê na avaliação 360?

ALEX (CEO): Também, mas eu cruzo a informação das duas para avaliar o desempenho de vocês.

FÁBIO (CFO): Eu estou tranquilo. A minha avaliação de desempenho foi excelente e os meus resultados também. Só deve se preocupar quem não faz bem o seu trabalho.

 

Neste momento, Santos envia uma mensagem em um grupo paralelo de WhatsApp criado com alguns diretores mais próximos, no qual ele diz:

“O Alex nos avalia… mas quem avalia o Alex?”

 

E se cruzam o olhar com ar de aprovação ao questionamento de Santos.

ALEX (CEO): Pessoal, vamos voltar aqui.

Cláudio (CHRO) qual é o resumo geral?

CLÁUDIO (CHRO): Bem, o resultado não difere muito dos anteriores no que se refere aos parâmetros, porém houve um aumento muito grande dos fatores negativos.

Os fatores desfavoráveis são os mesmos que nos outros anos, no entanto, aumentou muito a porcentagem de cada um.

Antes tínhamos 8% de fatores desfavoráveis, 32% em mais ou menos e 60% em favorável.

Agora temos 58% em desfavoráveis!!!

Os fatores que mais chamaram a atenção foram:

  • Falta de integração empresa-funcionário;
  • Falta de credibilidade mútua empresa-funcionário;
  • Falta de envolvimento com o negócio;
  • Crescimento de doenças psicossomáticas.

Resumindo, não se sentem integrados nem comprometidos, não confiam em nós e estão ficando doentes, com depressão, transtorno de ansiedade e estresse.

ALEX (CEO): Tem algum ponto positivo?

CLÁUDIO (CHRO): Tem sim.

Temos uma alta dedicação e uma alta retenção de talentos. Nós estancamos a sangria das pessoas que estavam saindo.

FÁBIO (CFO): Claro que estancamos. Agimos para aumentar a massa salarial da empresa em 18%. Isso vai trazer consequências.

EDUARDO (CIO): Eu acho ilusório pensar que conseguimos frear a debandada de talentos só aumentando salário.

Quem ficou por dinheiro não foram os bons nem os comprometidos, ficaram os mercenários, os acomodados e os que são medianos. Os comprometidos e bons de verdade têm espaço no mercado.

FÁBIO (CFO): Gente, pera lá. Sério mesmo que estamos perdendo tempo com isso?

Eu entendo que tenhamos que fazer essas pesquisas para mostrar pro mercado que nos preocupamos com o clima interno da empresa, e agora também temos que mostrar serviço para os acionistas.

Mas a verdade é uma só: A maioria das pessoas mente nestas pesquisas.

Sem contar que tem muita gente mi-mi-mi, muita frescura para o meu gosto. Agora qualquer coisinha é motivo de depressão.

Isso é uma empresa e não um balneário.

O que interessa são os números!

Se querem trabalhar aqui, ótimo. Se não querem, tem quem queira.

São 14 milhões de desempregados no mercado, gente.

Temos onde escolher…

 

Alguns diretores balançam a cabeça em sinal de aprovação. Neste momento, entra na sala a secretária do Alex.

SUZANNA (PA): Sr. Alex, me desculpe interrompê-lo, mas o senhor Jorge retornou a ligação e o senhor pediu para avisá-lo.

ALEX (CEO): Ah! Ótimo. Pede 20 segundos e eu atendo sim. Preciso falar com ele urgente.

Pessoal, é preocupante esta situação.

As pessoas são o nosso maior ativo, sempre nos preocupamos por eles, e, de repente, as coisas pioraram.

Não sei o que aconteceu, só que precisamos entender o problema e resolvê-lo urgente.

Eu preciso atender essa ligação imediatamente, porque estou atrás deste cara há dois dias. É o presidente da empresa que estamos negociando a compra.

Revisem o relatório, tomem as medidas e nos falamos na próxima reunião.

 

Termina a reunião…

Durante o jantar, José pergunta:

JOSÉ: O senhor tá preocupado né?

ALEX (CEO): Estou sim. Nunca tivemos um resultado tão péssima na pesquisa de clima como na de hoje? Não entendo o que aconteceu. Sempre cuidamos das pessoas.

JOSE: O senhor não me perguntou, mas eu vou falar. Eu achei estranho uma coisa.

Vocês pagaram para uma empresa perguntar para os funcionários d’ôceis o que eles acham da empresa, do trabalho e d’ôceis? É isso?

ALEX (CEO): Sim.

JOSÉ: Por que vocês mesmo não conversam com as pessoa?

ALEX (CEO): Porque elas mentiriam. Elas ficariam com medo de falar o que pensam do chefe pro próprio chefe, e falar mal da empresa para o dono da empresa, e assim por diante.

JOSÉ: Então não entendi, porque ôceis falaram que as pessoa mente na pesquisa também.

E tudo que saiu bom é mérito d’ôceis e o que saiu ruim é porque as pessoa reclamam demais e sem motivo.

igual o filho do meu primo Jão que veio estudar na cidade.

Quando ele passava na prova, o mérito era dele. Mas quando ele tirava nota vermelha ou repetia de ano, a culpa era dos professores. Ele falava que os professores pegava no pé dele à toa.

Para mim, essa história de empurrá a culpa pro outro, não costuma acabar bem não, Seu Alex!

O senhor conhece Antoine de Saint-Exupéry? O escritor do pequeno príncipe.

Ele disse: “Cada um é responsável por todos. Cada um é o único responsável. Cada um é o único responsável por todos.”

Mais uma vez Alex fica sem reação ao ver a José citar Antoine de Saint-Exupéry e também pela mensagem…

 

 

Imangens: BE&SK

Crescimento inorgânico é para crescer a empresa ou o ego?

Não foi fornecido texto alternativo para esta imagem

 

 

ALEX (CEO): Bom dia, pessoal!

Tudo bem?

Eu marquei esta reunião para falar sobre a integração.

 

Santos (CSO) respira com alívio e Alex percebe.

ALEX (CEO): O que foi, Santos?

SANTOS (CSO): Pensei que falaríamos dos números novamente e não deu tempo ainda, desde a semana passada, de implantar as medidas sobre as quais conversamos.

ALEX (CEO): Nem me fale dos números. Nunca estivemos tão mal, tão abaixo da meta. O conselho está me pressionando muito.

SANTOS (CSO): Bem, estamos abaixo, mas todos aqui sabemos porquê…

 

Alex (CEO) respira com ar de cumplicidade e resignação.

ALEX (CEO): Voltando à pauta da reunião.

Temos um problema enorme com a integração.

Faz quase seis meses que compramos a empresa e a integração está crua.

Os únicos pontos do nosso planejamento que foram finalizados no prazo foram a reestruturação e a otimização de custos.

O Fábio cortou o orçamento rapidinho.

No resto estamos atrasados. É inaceitável!

Edu (CIO), por que ainda estamos usando dois sistemas?

EDUARDO (CIO): O sistema que eles usavam era proprietário e a empresa está pedindo uma fortuna pela migração.

ALEX (CEO): Mas isso não foi avaliado e acordado na due diligence?

EDUARDO (CIO): Isso foi identificado, nós pedimos para eles conversarem com o fornecedor e nos disseram que não haveria problema.

ALEX (CEO): Então se vira. O antigo CIO agora está na sua equipe, não está?

Resolva isso já!

Se acabou, no próximo fechamento de mês não quero dois sistemas.

Cláudio (CHRO), o que está acontecendo?

Eu tive que assinar um monte de rescisão.

Pensei que já tínhamos terminado com a limpeza.

Bom, pelo menos espero que estejam indo os ruins.

CLÁUDIO (CHRO): Pior que não, os ruins nós mandamos embora, agora estão indo alguns bons.

ALEX (CEO): E por quê?

CLAUDIO (CHRO): Alguns porque estavam muito conectados com os que nós mandamos embora, um me falou que não se adaptou à nossa cultura, e outros afirmaram que nós impusemos nossa forma de trabalhar sem perguntar se eles concordavam. Tiveram dois ou três que disseram que, em alguns casos, eles tinham processos ou ferramentas melhores, mas nós os obrigamos a usar as nossas, isto representou um downgrade.

FABIO (CFO): Pera lá! Tem essa agora?

Quem comprou a empresa? Nós!

Portanto, quem dita as regras somos nós.

Que frescura do caramba! Eles deveriam estar agradecidos por fazerem parte de uma organização como a nossa.

ALEX (CEO): Tenho que concordar com o Fábio.

Ele fez um excelente trabalho na parte financeira da integração.

FABIO (CFO): Cortar é comigo mesmo. E como estava combinado, aproveitei a integração para cortar alguma gordura que a gente tinha. Aí o sindicato não enche o saco e ninguém fala nada no Glassdoor.

Eu aproveitei para mandar embora uns caras com salário baixo e contratar outros baratos.

Tem muito desempregado disposto a trabalhar por um salário menor.

Outra coisa que temos que aproveitar é o pessoal que está chegando com a integração, que querem mostrar serviço, que são ambiciosos.

Vocês têm que aprender a política do meio-a-meio.

Principalmente você Breno (COO), que tem a área com o maior TLC*.

BRENO (COO): O que é a política meio-a-meio?

FÁBIO (CFO): Pagar a metade do salário por trabalhar meio-período, 12 horas. Rsrsrsrsrsrsrs

Algumas pessoas riram, mas a maioria se sentiu desconfortável com a piada sem graça.

ROSA (CLO): Fábio, você não deve fazer mais este tipo de piada por aí. Se algum funcionário te ouvir, podemos ter problemas.

ALEX (CEO): Eu não imaginei que estivesse tão ruim assim.

Cláudio (CHRO), contrata uma pesquisa de clima urgente e vamos ver o tamanho do problema, se é que ele existe.

Estou um pouco fora do dia-a-dia porque a negociação da compra da próxima empresa e o conselho estão me absorvendo.

As coisas estão difíceis e preciso de vocês, tanto para finalizar a integração, como para melhorar os resultados.

Agora vamos produzir!

Quero o plano de integração finalizado este mês, não me interessa como, e a pesquisa de clima para a próxima reunião.

 

No caminho de volta a casa, Alex estava pensativo e não conversou muito.

José, levantou-se às 2:30h para beber água e viu o Alex na varanda fumando.

JOSÉSeu Alex,  bem com o senhor?

O senhor tem dormido pouco e mal, não faz mais as caminhadas,  com olheira…

ALEX (CEO): As coisas não estão saindo como eu imaginei. A ideia era acelerar o nosso crescimento de forma inorgânica, mas a minha equipe não está respondendo à altura este novo desafio.

JOSÉSeu Alex, por que o senhor quer crescer? Por que quer comprar estas empresas?

ALEX (CEO): Porque precisamos crescer José. Uma empresa deve crescer todos os anos porque o mercado exige isso.

Precisamos comprar empresas e ficarmos grande o suficiente para não sermos comprados.

Ter um portfólio maior, chegar a novos mercados, conseguir economia de escala, sinergias, enfim…

JOSÉ: Entendi. E a equipe do senhor pensa assim também?

ALEX (CEO): O que você quer dizer com isso?

JOSÉ: Nada não senhor.

Eu vou voltar para cama, o senhor deveria descansar também.

Ao voltar para a cama, José conecta a frustração de Alex com a sua equipe, a falta de comprometimento de alguns diretores e as atitudes deles, de estarem mais preocupados em agradar os investidores que em realizar seu trabalho.

 

José volta para a varanda.

JOSÉSeu Alex, o senhor conhece a diferença entre ser ambicioso e ganancioso?

ALEX (CEO): Não!

JOSÉ: Quando uma pessoa ambiciosa vê o senhor com uma camiseta bonita, ela quer trabalhar para comprar uma igual, ou melhor. Uma pessoa gananciosa, além de comprar uma camiseta igual, ela acha injusto que o senhor tenha uma camiseta tão bonita. Por isso, ela quer tomar a sua camiseta porque acha que merece mais que o senhor.

ALEX (CEO): O que isso tem a ver com a empresa? Você sabe de alguma coisa?

JOSÉ: Talvez tenha gente na equipe que, ao invés de trabalhar com o senhor para comprar muitas camisetas, tá querendo tirar a do senhor. Arrancar do corpo mesmo, sabe?

Boa noite, Seu Alex.

Durma bem.

 

* TLC = Sigla para Total Labor Cost

 

Imagens: BE&SK

Sentido de urgência ou de pressa?

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JOSÉ: Bom dia, Seu Alex!

Só queria avisar o senhor que eu já recebi aquelas informação que o senhor pediu para os diretores. Só falta o Santos (CSO) pra entregar, mas ele me falou que manda agora de manhã. Ele não conseguiu mandar antes porque disse que tava vendendo e não tinha tempo.

Eu já vou começar a juntar tudo como o senhor pediu e, assim que receber a parte do senhor Santos, eu mando para o senhor. Só espero que ele me mande mesmo.

ALEX (CEO): Tranquilo José, ainda temos tempo. Me entrega quando terminar, sem pressa. Mas não conta para ninguém…

JOSÉ: Ué, não era urgente? O Seu Breno falou que fez na hora do almoço dele e a Dona Rosa fez ontem à noite.

ALEX (CEO): Relaxa, eles choram demais. E cá entre nós, o Breno precisa mesmo emagrecer.

Mas só para você saber, eu sempre peço com antecedência, aperto o pessoal, senão, não sai.

Sabe José, vou te ensinar uma coisa.

Tem um escritor americano que já escreveu mais de 20 livros e é professor emérito em Harvard, uma das universidades mais importantes do mundo e ele escreveu um livro que fala sobre o sentido de urgência.

A maioria das pessoas não tem o sentido de urgência, vão fazendo as coisas no ritmo que dá… e isso é coisa de medíocres e perdedores.

A mensagem que ficou para mim, a partir da leitura do livro, é que precisamos criar um sentido de urgência na empresa. Ou seja, tudo tem que ser “pra ontem” e fazer com que as pessoas desenvolvam isso, porque aqui somos vencedores e queremos estar alinhados com as técnicas de gestão mais modernas.

 

José fica pensativo…

JOSÉ: Mas se alguém perguntar sobre o relatório final e ele ainda não estiver pronto?

ALEX (CEO): Eu falo que estamos trabalhando nisso e logo desvio o assunto para outra coisa mais urgente e com maior prioridade.

Ninguém me fala nada.

Eu sou o CEO e dono da empresa.

JOSÉ: Então  né? Se o senhor tá dizendo que é assim…

ALEX (CEO): Bem, agora preciso que você corra atrás da assinatura dos NDA dos diretores para a reunião com o investidor.

Você já mandou para eles?

JOSÉ: Já sim, senhor! O senhor falou que era urgente, então mandei pelo sistema.

ALEX (CEO): Boa! Mas neste caso é urgente mesmo. Preciso que você vá de mesa em mesa pedindo que assinem, porque eu vou convocar uma vídeo urgente, para falar sobre a preparação da reunião com os investidores.

E se prepara que os gringos anteciparam a reunião para semana que vem e vamos ter que trabalhar no final de semana.

JOSÉ: Podexá

 

No caminho de volta para casa…

ALEX (CEO): José, dando continuidade aos seus ensinamentos e à conversa que tivemos hoje pela manhã sobre o sentido de urgência. É importante que você saiba que vivemos em um mundo exponencial, que tudo vai muito rápido, e, como eu sempre digo, precisamos estar alinhados com as melhores práticas do mercado.

Uma empresa moderna tem que ser ágil.

Lá no campo o ritmo é outro, vocês são lentos, muito devagar. Aqui precisamos de aceleração máxima, José!!! Rsrsrs

Entendeu?

JOSÉ: Ah! O sítio… Mas não se preocupe, eu entendi sim, senhor.

 

José suspira com um ar de nostalgia…

ALEX (CEO): Que foi? Deu saudade do sítio?

JOSÉ: Deu sim! Mas eu estava aqui pensando e fiquei com dó da Estrela e do Dourado. Ainda bem que eles vive lá.

ALEX (CEO): Quem são Estrela e Dorado? Imagino que sejam animais.

JOSÉ: São sim. A Estrela é a minha égua e o Dorado era o cavalo do pai. Todo mês a gente ia tomar banho de cachoeira. Era o nosso dia juntos. A cachoeira ficava meio longe, a gente pegava um dia de semana e passava o dia lá, ia de manhã e voltava à tardinha. Sábado e domingo não dava porque fervia de gente.

Tinha parte do caminho que a gente galopava, era plaino e a gente apostava corrida, era gostoso o vento no rosto. Mas tinha um lugar que a gente ia ao passo, atravessando o sítio do Seu Merivaldo. Oh homi caprichoso ! Na ida, a gente ficava olhando do lado direito da estrada, ele tem uns animal lustroso, uns cachaço que da gosto de . A mió panceta do mundo é a dele, eu o pai parava na volta e comprava panceta, lombinho e choriço pra gente assá uma carninha especial.

Na volta, a gente passava bem devagar pra olhar o outro lado da estrada, a muié do Seu Merivaldo tem umas flor bunita demais. Ela é bem caprichosa, que nem ele.

E a plantação ficava bem na direção do pôr do sol. As veiz, se tinha tempo, a gente parava só pra vê o pôr do sol daquele lugar, com a flor e as planta dela na frente. Parecia um cartão postal.

A mãe era amiga dela, e quando ela era viva, ela ia com a gente e parava lá e passava o dia com a Dona Cleide, cuidando das planta.

Depois, a gente apertava o passo e galopava de novo.

ALEX (CEO): Muito bonito isso José, ter esse costume de passar um tempo com seu pai e sua mãe. Mas não entendi, por que você falou que ficou com dó dos cavalos?

JOSE: Lá a gente aperta quando precisa apertar, galopa quando precisa galopá, mas trota ou vai ao passo quando pode ir.

Sabe Seu Alex, a cachoeira era bonita, mas o melhor do passeio era a viagem. Apostar corrida com o meu pai, ver as flores da Dona Cleide, ver o pôr do sol, passar pelos pinhero, sentir os cheiros, observar os passarinho, tudo isso faz parte do caminho.

Aqui, com esse tal sentido de urgência, cêis num presta atenção na viagem, só importa chegar antes no destino.

Se a Estrela e o Dorado trabalhassem aqui, iam ter que galopar o tempo todo, em pouco tempo eles se machucariam ou morreriam por esgotamento. Tudo bem, o senhor compraria outro cavalo pra substituir, mas isso é triste.

Na natureza, quando se acelera se perde a paisagem, e na vida, quando se acelera demais se perde detalhes que são o melhor da vida.

O que vocês perdem acelerando tanto?

Será que não estão perdendo alguma fase importante do desenvolvimento do produto ou do negócio?

As veiz as pessoa confunde ter urgência com ter pressa, ser ágil com atropelar tudo, e isso não é bão não.

 

“Não é por muito madrugar  que amanhece mais cedo”.

Provérbio popular

 

 

Tudo que puder ser feito mais rápido é melhor, mas tem coisa que tem que esperar o tempo certo.

Essa história do senhor pedir tudo urgente as pessoa num gosta não. Elas pode não falar nada pro senhor, mas que elas pensa… elas pensa.

Ninguém gosta de ficar sem almoço, trabalhar à noite ou no final de semana pra nada…

O senhor vai desmotivar o povo, ou vai deixar eles doente que nem o senhor deixaria a Estrela e o Dorado…

 

 

 

Imagens: BE&SK

Responsabilidade além dos muros da empresa

 

ALEX (CEO): Bom dia, pessoal!

Seguindo a nossa política de otimização na gestão e de seguir as best practices do mercado, muitos de vocês têm me apresentado projetos para melhorar as áreas de cada um.

Porém, em nossa última revisão de resultados recebemos uma lição do José por tratarmos as coisas de maneira segmentada. E, nesta mesma reunião, o Cláudio comentou que o nosso turnover é alto. Então, eu preciso urgente que vocês me mandem um documento com os seus projetos e planos e o impacto que isso terá em nossa gente.

 

José olha assustado para Alex.

JOSÉ: Que eu fiz o quê, Seu Alex?

ALEX (CEO): Nos deu uma lição José. E depois que você me falou sobre humildade intelectual.

Confesso que fiquei um pouco bravo com você naquele dia, mas depois percebi que você tinha razão e decidi ouvi-lo e vou analisar o impacto  que nossos investimentos terão nas pessoas.

JOSÉ: Desculpa se eu zanguei o senhor.

ALEX (CEO): Imagina, eu te agradeço.

Vamos lá, preciso desse documento até sexta.

FABIO (CFO): O famoso depois de amanhã…

ALEX (CEO): Isso mesmo, Fábio.

O objetivo desse trabalho é ver quantas pessoas vamos recortar o ano que vem.

Porque eu entendo que todos esses projetos que vocês estão trabalhando vão supor uma redução de pessoas, não?

SANTOS (CSO): Não necessariamente, Alex.

No meu caso, eu estou trabalhando com o Felipe (CMO) para melhorar nosso go-to-market*, mas, para conseguir o crescimento que você pediu, eu preciso de mais vendedores.

Vamos investir em sistemas de prospecção e inteligência de mercado e precisamos de braços depois para utilizar as informações e contatos gerados.

ALEX (CEO): O seu caso é diferente, pois dependemos de vendas para viver e, por isso, parte do “vamos recortar de outras áreas” podemos dedicar aqui.

Agora,  nos outros setores eu entendo que vai reduzir muito o número de pessoas.

Colocar tanta tecnologia é para melhorar a assertividade, disponibilidade, alcance e reduzir custos, principalmente o de pessoal.

Não se preocupem com o formato, porque nós vamos consolidar as informações.

Claudio (CHRO), assim que tivermos uma foto geral eu quero que você prepare um plano pensando em 3 coisas.

       1. Plano de demissões:

  • Preparar um PDV** com incentivos para que as pessoas possam ficar em casa com os filhos pequenos. Assisti a um documentário e vi que na Suécia o governo paga 16 meses de licença maternidade. Não vamos pagar as mães todo esse tempo, mas veja quanto tempo conseguimos ajudar.                                                                                                                                                                                                                                                                                  Vamos parecer uma empresa nórdica e moderna.                                                                                                                                                                                                                                                                                          Rosa (CLO), veja se tem como bloquear o recurso para elas não receberem o dinheiro e, no dia seguinte, irem para o nosso concorrente.
  • Quem não entrar no PDV, sem problemas. Vamos pagar todos os direitos, tudo o que corresponde sem fazer nenhuma engenharia…                                                                                                                                                              Nos preocupamos com as pessoas.

      2. Vocês devem passar a lista dos low performance que vamos “promover ao mercado”.

      3. Dos que ficam, quais vocês querem reciclar ou quais perfis teremos que contratar para utilizar as novas tecnologias que vão ser implantadas.

 

FABIO (CFO): Alex, muito bonito esse desejo de Bom Samaritano, mas você precisa parar de ver documentários noruegueses.

ALEX (CEO): Sueco.

FABIO (CFO): Dá na mesma. Isso funciona lá, aqui, se quisermos convencer os investidores o mês que vem, precisamos ter um resultado extraordinário. Só que se dermos dinheiro para o povo ficar em casa às nossas custas, não vamos conseguir.

Outro ponto, isso de reciclar, gastar dinheiro com curso é loucura.

Mandamos embora o pessoal mais antigo, nos livramos do passivo trabalhista e contratamos essa molecada que vem voando pela metade do preço. Como fizemos a vida toda…

Além do mais, agora chegou a minha hora de fazer o que fizeram comigo.

Tive um chefe que me falava: “Vou te pagar meio salário deste cargo porque você trabalha só meio período: 12 horas!!!” 

rsrsrsrsrs

 

Mais da metade deram risada da “piadinha”…

FELIPE (CMO): Nunca diga essa piada fora desta sala hein!

Se fizer isso em rede social, vai me custar dinheiro e trabalho para limpar a nossa imagem.

FABIO (CFO): Que exagero. O que tem hoje é muita frescura, ou melhor, mimimi!

BRENO (COO): Eu gosto da ideia de formar as pessoas, assim elas trabalham como eu quero, mas, com a pressão da velocidade de crescimento que temos, eu não tenho tempo para esperar a curva de aprendizagem das pessoas. 

Eu quero gente formada e pronta.

Aqui, já se vem formado de hard e soft skill. Tem muita gente desempregada, é o momento de aproveitarmos isso e contratar gente boa, barata. 

EDUARDO (CIO): E as pessoas que a gente mandar embora? Vamos dar algum tipo de capacitação?

ALEX (CEO): Como assim?!!!!

O mercado e o mundo estão mudando muito rápido, as pessoas precisam entender isso e se reinventarem, mas essa responsabilidade é de cada um, eu não posso assumir isso.

Aproveitando que você falou Eduardo (CIO), essa semana eu estava vendo uns vídeos antigos que recebi e nos quais mostravam algumas fábricas, inclusive no Brasil, que já são 100% automatizadas.

Que coisa linda…

Preciso que você trabalhe com cada líder para automatizar o máximo que pudermos de nossa operação: RPA***, IoT****, etc.

Bem pessoal!

Vamos produzir.

Até a semana que vem.

 

No caminho de volta para casa.

ALEX (CEO): José, eu notei a sua cara quando eu estava falando sobre automatizar o máximo e mandar gente embora. 

O que você acha disso?

JOSÉ: Sabe Seu Alex, o senhor me desculpe, mas essa história de falar que as pessoa tem que se reinventar é muito fácil.

O povo que ganha R$1.500 bruto por mês não sabe o que está vindo, o que fazer, onde fazer e o pior, quando descobre, não pode pagar.

Outro dia eu acompanhei o Seu Eduardo (CIO) numa reunião.

Eles tavam falando do RPA.

Não dá pra dizer que a auxiliar administrativa se converta em engenheira de RPA ou especialista em processos para não ser mandada embora. 

O senhor lembra quando, na minha primeira reunião, seis falaram que queriam ser uma empresa ESG?

Então…

Deveriam se preocupar com isso.

ALEX (CEO): Mas não vem não seu matuto. rsrsrs

Agora eu te peguei.

A automação e a robotização já chegaram no campo, tem muita máquina substituindo mão de obra.

A tecnologia resolve muita coisa, José.

JOSÉ: O senhor tem razão Seu Alex.

 

“Mas pensar que a tecnologia 

vai resolver todos os problemas 

das empresas e da humanidade 

é o nosso maior problema” (1)

 

E digo mais, o senhor falou que é lindo as empresa só com robô, não é?

ALEX (CEO): Sim! É maravilhoso não ter gente enchendo o saco. Pedindo aumento. Faltando. Ficando doente…

JOSÉ: Mas aí que eu não entendi.

Se todas as empresas automatizarem tudo…

 

Quem vai comprar os produtos dela, 

se todo mundo estará desempregado? (2)

 

(1) Frase do livro “Aprenda a criar riqueza sem gerar miséria com a Tecno-Humanização”

(2) Reflexão extraída do conceito de autofagia corporativa do livro “Aprenda a criar riqueza sem gerar miséria com a Tecno-Humanização”

 *Go-to-market: Isso se refere à forma como as empresas buscam inserir seus produtos no mercado, de forma que atinjam seu público-alvo e consigam receita.

** PDV: Ponto de venda

*** RPA: Em português, Automação de Processos Robóticos

**** IoT: Em português, Internet das coisa

 

Imagens: BE&SK

Senso de dono: Cada um no seu quadrado e o ser humano no de ninguém

 

ALEX (CEO): Bom dia, pessoal!

Após a revisão dos nossos resultados do último mês, estou super satisfeito! Parabéns a todos os líderes, estamos bem em todos os KPI’s.

Batemos todas as metas!

SANTOS (CRO): Eu gostaria de aproveitar para dizer que conseguimos bater a meta de vendas, mas não dá mais pra trabalhar desse jeito.

ALEX (CEO): Como assim Santos?

SANTOS (CRO): Este mês não sei se vamos conseguir chegar… 

ALEX (CEO): Não começa a chorar que estamos no início do ano e o target já está negociado Santos.

SANTOS (CRO): Não estou negociando nada, estou falando sério. Eu tive que parar toda a equipe de vendas durante 3 dias, porque o Fábio bloqueou os fornecedores. Eles não entregavam os produtos, os projetos pararam e os clientes não deixavam faturar… Tivemos que ficar cuidando disso ao invés de vender.

FABIO (CFO): Se quiséssemos cumprir com os KPI’s financeiros, tínhamos que cobrar dos clientes e não pagar os fornecedores por uns dias. Não é o fim do mundo, vai, todo mundo faz isso!

O Alex vive dizendo que temos que ter senso de dono, que cada um tem que cuidar de sua área como se fosse sua, não é?

Foi o que fiz, cuidei da minha.

SANTOS (CRO): Mas eu não posso queimar a relação com os clientes, pedindo para eles liberarem o pagamento sem ter o projeto terminado. No próximo projeto isso vai custar dinheiro.

FABIO (CFO): Aí o Breno aperta um pouco os fornecedores, reduz os custos do projeto e tudo resolvido. (tom de ironia, uso de brincadeiras para cutucar o colega).

BRENO (COO): Claro, como se tudo já não estivesse apertado… Aproveitando o gancho, se quiserem suspender os fornecedores grandes OK, mas, não suspendam os parceiros de serviços pequenos. Primeiro porque eles param de trabalhar e segundo porque nós os asfixiamos desse jeito. 

FABIO (CFO): Breno, a política é para todos, senão a auditoria nos levanta uma inconformidade. Se a empresa não tem fôlego, não entra na piscina. Se quiser trabalhar com a gente, tem que aceitar as nossas regras. Quem é o cliente aqui? Nós ou eles? Você vive os chamando de parceiros, mas eles não passam de fornecedores que deveriam agradecer por dar-lhes projetos.

BRENO (COO): Que fácil se vê o mundo detrás da calculadora, no conforto do ar-condicionado da sua sala… Mas quando a equipe está no cliente, final de semana às 2h da manhã e precisamos da ajuda de um desses “fornecedores” como você se chama. Eu ligo, sem PO*, sem contrato, e o cara vem salvar o projeto, pra você bater as suas tão sonhadas metas…

ROSA (CLO): Tem fornecedor atuando sem PO nos clientes? Nem me fale isso, eu prefiro não saber. Isso é totalmente non compliance.

BRENO (COO): Tranquilo! Antes acontecia bastante, mas agora não acontece. Quase nunca.

(Sussurrou Breno)

Mas pera lá, não temos que cuidar do negócio como se fosse nosso? E a regra não tem que ser a mesma para todos?

Eu tenho que me virar para fazer as coisas acontecerem. Porque, se eu não entregar, é a minha cabeça que rola.

Portanto, cuido do meu negócio como se fosse meu, respeitando a governança da empresa, mesmo que seja no limite.

ALEX (CEO): E eu que pensei que a reunião de hoje seria tranquila. Era para comemorar os bons resultados, todo mundo vai ganhar dinheiro.

Mas já que vocês entraram no tema, todas estas coisas são normais. Fazem parte do negócio. Afinal, se quisermos ser competitivos lá fora, temos que aprender a ser aqui dentro também.

Agora vamos mudar de assunto…

CLAUDIO (CHRO): Eu tenho um tema muito preocupante. Apesar de a empresa estar batendo as metas, ganhando dinheiro a rodo, enfim, tudo indo muito bem, o nosso turnover não para de aumentar no último ano.

ALEX (CEO): Mesmo depois da divulgação da GPTW**?

CLAUDIO (CHRO): Sim!

FABIO (CFO): Se as pessoas não querem trabalhar aqui… Melhor que não fiquem mesmo. E o melhor de tudo isso é que se eles saem espontaneamente, não temos que pagar nada.

ALEX (CEO): Cláudio, precisamos entender o que está acontecendo e buscar uma solução rápida.

 

Neste momento, Alex olhou pro José e percebeu que ele tinha algo a dizer.

ALEX (CEO): José? Algum comentário?

JOSÉ: Pra falar a verdade Seu Alex, eu já estou aqui há algumas semanas e tava estranhando que tudo fosse tão certinho. Todo mundo tão amiguinho, hoje deu pra ver um pouco de bate boca, que nem quando o pai ia lá no buteco, tomava umas cana e começava a falar de futebol.

ALEX (CEO): Tá, mas o que você achou da discussão de hoje? 

JOSÉ: Ôceis fala o tempo todo que o mais importante pra empresa são os clientes. Os funcionário também são importante porque eles são os que trabaiam, num é?

ALEX (CEO): Sim. E nossa empresa é totalmente customer centric. Os objetivos que colocamos para todas as áreas são pensando nele, que elas façam seu melhor para entregar a excelência ao cliente.

JOSÉ: Pelo jeito não tá dando certo não Seu Alex. Acho que os objetivo dos cêis ficou mais importante. O senhor começou a reunião falando que o cêis bateram as metas e que todo mundo ia ganhar dim-dim.

Falaram de um monti de coisas, e quando falaram das duas coisas mais importante foi pra dizer que tiveram que pedir favor pros cliente pra bater as meta interna, e que os povo está pegando a matula e indo embora. 

Todo mundo tem o seu objetivo, mas quem tem o objetivo de atender o cliente e cuidar das pessoas?

ALEX (CEO): Todos os que estamos nesta sala, José. 

JOSÉ: Pois é… cêis falam desse tal “senso de dono”. Lá na roça a gente sabe que cachorro com dois dono morre de fome.

Pelo jeito aqui todo mundo faz ou acha que faz a “sua” coisa certa, pro seu próprio interesse, mas ninguém faz o que deve ser feito.

Que nem aquela música, cada um no seu quadrado, mas as pessoa não estão no quadrado de ninguém. 

 

 

*PO = Purchase order, em português, Ordem de compra ou pedido de compra.

**GPTW = Great place to work, em português, melhores empresas para se trabalhar. Anualmente é divulgado um ranking com as organizações consideradas as melhores, no âmbito nacional, regional, setorial e temático.

 

 

Imagem: BE&SK