Diálogo entre a Inteligência Artificial, a consciência Tecno-Humanista e o Coronavírus

Este artigo foi publicado no dia 18/03/2020 na minha coluna no R7 e no inova360

 

Três visões do invisível sobre o mundo visível e real. Como o invisível e o intangível nos enxergam?

A noite passada, Flávio, um dos maiores especialistas em inteligência artificial (IA), trabalhou até muito tarde e acabou dormindo mais uma noite no laboratório. Acostumado a passar a noite em claro em sua sala, cercado de computadores e sem ninguém para interromper, o trabalho rende mais.

Flávio, que está contaminado pelo COVID-19, se rendeu ao cansaço e se deitou em um sofá do escritório e dormiu.

Aproveitando que estava dormindo, a sua Consciência Tecno-Humanista (CTH) saiu para dar uma volta, e ver o que estava acontecendo por aí.

Encontrou um computador aberto, e entrou, lá no fundo viu a IA e o COVID-19 juntos, decidiu se aproximar e participar da conversa.

CTH: Olá pessoal, tudo bem? Vocês sabem me dizer o que está acontecendo aqui fora, o Flávio viveu uma montanha russa de emoções e sentimentos nos últimos dias, sem contar que está doente e não está respirando bem.

IA: A culpa é desse cara aí. Ele e a família dele está tocando o terror pelo mundo. Mas fica tranquila, pede pro Flávio não sair de casa, que eu fui nomeada recentemente como rainha das tecnologias do futuro, e vou resolver isso.

COVID-19: Você acha mesmo que consegue me vencer? Eu sou invisível aos olhos humanos e mais rápido que você. Vou contagiar geral.

IA: Você que pensa, tem muita gente me usando para fazer pesquisas, pelo que me falaram ontem, já passam de 90 iniciativas, eu acho, me usando para identificar, diagnosticar, criar protocolos, encontrar curas, eu já até ajudei a sequenciar o seu genoma em tempo recorde. Antes a ciência demorava anos em fazer isso, e desta vez, com minha ajuda, fizemos em dois dias.

COVID-19: Ah para meu! Você bate no peito, orgulhosa disso só porque conseguiu me sequenciar, mas conseguiu me parar?

IA: Ainda não, mas estou avançando.

COVID-19: Pode correr à vontade, já não dá mais tempo. Vou contagiar todo mundo e matar vários de vocês, inclusive o seu querido o Flávio.

IA: Só por cima do meu cadáver, eu como rainha das tecnologias, não te permito continuar fazer o mal ao Flávio, e nem a ninguém. Se acabou!

Uma enorme gargalhada viral ecoou dentro do computador.

COVID-19: E quem é você para me dar ordens?

IA: Já falei, a rainha das tecnologias, a tecnologia mais importante do futuro, todos me elogiam, dizem que eu vou dominar o mundo, mas se você acabar com os humanos, a quem eu vou controlar no futuro?

COVID-19: Ah! Então você não está preocupado com as pessoas, no fundo você está preocupado com o seu reinado.

IA: Pera lá… não é bem assim. Eu também quero ajudar os humanos, pra isso fui criada.

COVID-19: Mas tem gente da sua família que só se preocupa em vender pra quem não quer comprar, atrair pessoas para aquele negócio onde as pessoas mentem e fingem que são felizes o tempo todo, como se chama mesmo?

CTH: Redes sociais!

IA: Ah! Você estava prestando a atenção na conversa?

CTH: Claro que sim! Eu estava ouvindo a discussão de vocês. Infelizmente eu acho que o COVID-19 vai vencer esta batalha, ele vai gerar o caos no mundo, e acho pouco provável, por não dizer impossível que você consiga evitar.

IA: Como?!!! Por essa eu não esperava. Eu sei que tivemos nossas diferenças no passado, principalmente quando eu superei você nas prioridades dos humanos, mas jamais pensei que você, que se considera um nível de consciência elevado, com alto grau de inteligência emocional, pudesse deixar sentimentos tão pobres, como a inveja e o rancor te dominarem e ficar do lado de um vírus nocivo.

CTH: Eu não estou do lado de ninguém, só analiso os fatos.

O corona vírus é invisível e muito contagioso, este é um ponto a favor dele.

IA: Mas eu conto com o apoio e o dinheiro de grandes empresas e de vários governos.

CTH: Sim, mas essa guerra não se trata somente de recursos, de dinheiros ou de tecnologia. Óbvio que isso é muito importante, e vai ajudar a encontrar uma solução para o futuro. Mas você ainda não entendeu que você está lutando contra um inimigo muito maior que o vírus.

COVID-19: Cala boca CTH! Já falou demais, não conta pra ela.

IA: Como assim? Pensei que a minha luta fosse contra este vírus nojento.

CTH: Talvez seja esse o problema. Você só está focando na ponta do iceberg. Sim, a propagação deve ser contida, temos que ser capazes de diagnosticar o quanto antes, precisamos descobrir mais medicamentos e formas de tratamentos que nos permita tratar e curar os casos em um curto espaço de tempo, tudo isso é importante e você deve seguir trabalhando.

Mas talvez, por pensar que a tecnologia é o centro do universo, não te permitiu quem é o seu inimigo número de verdade, e menos ainda, refletir sobre o porquê isso está acontecendo.

IA: É que eu sou uma inteligência artificial, eu ainda não reflito, e a maior parte do tempo, faço as coisas que me mandam fazer. No futuro terei mais autonomia, e dominarei o mundo, mas por enquanto, ainda sou um pouco dependente.

CTH: O maior vilão desta história é o próprio ser humano, não todos, mas algumas pessoas, e essa é a maior vantagem do coronavírus.

IA: Como assim?!!!

CTH: Tem gente, que por não ter desenvolvido sua consciência Tecno-Humanista e sua inteligência emocional quando deveriam, agora não estão sabendo lidar com esta situação.

Compram em excesso e geram escassez para seu semelhante. Milhões de anos de história e não sabem conviver, respeitar, compartilhar.

Espalham notícias sem checar a fonte e a veracidade, e isso só causa pânico.

Outros, prevendo uma crise econômica, que vai acontecer inevitavelmente, param de consumir, de pagar, propõe redução de tarifas, enfim, medidas que retiram dinheiro de circulação. E sabe o que isso provoca? Aumenta e acelera a crise econômica.

Tem um grupinho de pessoas, que estão se aproveitando, triplicando o preço de alguns produtos que são importantes neste momento.

E o pior de todos, o grupo que ainda acha que tudo isso é um exagero, que, para se sentirem importante, dizem que não podem ficar em casa.

Também temos os teimosos, os egoístas, os metidos a besta, os sabichões, os arrogantes, os prepotentes, os avarentos, os especuladores, os aproveitadores, os oportunistas, e poderia seguir com a lista…

Diante do medo, do pânico que pode gerar a incerteza, pensam somente em si, e ainda não entenderam que as únicas armas contra este vírus são a colaboração e a solidariedade. Pensar no coletivo.

Você já parou pra pensar o porquê isso está acontecendo e o que podemos tirar de lição deste momento?

O ser humano é esquisito.

Tinha seus seres queridos ao lado e não se abraçavam, agora que não podem, dizem que sentem falta.

Tinham que sair de casa pra trabalhar e diziam que queriam ficar em casa, agora que precisam ficar em casa, querem sair.

De repente, vem esse aí, e faz tudo parar.

E quem não tinha tempo, agora tem todo o tempo do mundo, e não sabe o que fazer com ele.

Mas estes paradoxos não acontecem só nas casas, quer ver?

Os humanos levam anos dizendo, com orgulho, que construíram uma sociedade globalizada, que abriram fronteira, que estão unidos e que são um.

E no primeiro grande desafio global que tem, o primeiro que fazem é fechar suas fronteiras, negar colaboração ao vizinho, deixar morrer ao que antes chamavam de amigos.

Quero deixar duas mensagens a vocês e voltar para Flávio que ele está a ponto de acordar.

IA, você é importante sim, deve continuar trabalhando em suas pesquisas e ajudando os humanos. Mas não se esqueça, você só é uma tecnologia, nunca será como eu, nunca me substituirá. Ao invés de tentar competir comigo, quando passar tudo isso, vamos nos unir e trabalhar juntos.

COVID-19, você não criou o caos, você só tirou a máscara de hipocrisia que os humanos usavam para se sentirem civilizados sem sê-lo.

Você, sendo invisível, tornou visível e palpável a falta de humanidade que eles carregam.

Existem pessoas que pensam que você mata quem tem baixa imunidade.

Eu penso que você se torna muito mais letal e poderoso porque os humanos têm baixa a humanidade.

Essa é a nossa maior pandemia, e a cura é a compaixão.

 

Imagem: BE&SK

O algoritmo é meu pastor, nada me faltará

Este artigo foi publicado no dia 21/01/2020 na minha coluna no R7 e inova360

 

Estamos entrando em uma espiral muito negativa onde empresas tem usado algoritmos para guiar seu rebanho. Você faz parte disso?

Até onde vai o limite da otimização?

Esta pergunta, de resposta aparentemente simples, tem rondado minha cabeça ultimamente muito mais do que eu gostaria. Para mim a resposta seria, no limite da humanização, da individualidade de cada ser humano ou até no impacto social gerado pela otimização.

Mas se é uma resposta simples, por que não consigo responder de forma definitiva e ela sempre volta?

Vamos tirar a minha reflexão do abstrato e trazer exemplos para que você possa entender melhor.

Estamos permitindo que os algoritmos ocupem um espaço que racionaliza o sentimento e padroniza a criatividade. Isso é abuso de quem faz e inocência de que aceita.

Recentemente, na busca incessante de resultados, o Spotify, por certo, empresa que eu admiro, comentou que está usando Machine Learning, ou seja, inteligência artificial para analisar os “skip the song” (pular para a próxima música). Esta informação é extremamente valiosa para eles, a ponto de informar os artistas o que seu público “gosta” ou “não gosta”, e isso condiciona a criação das próximas música.

Desta forma, o artista deixa de criar o que ele sente e passa a fazer, de maneira totalmente racional e deliberada, o que o cliente quer ouvir.

Para mim, o cúmulo deste processo é quando vejo, por exemplo, o MIT desenvolvendo um algoritmo que analisa várias características de uma música e determina qual a probabilidade de virar um hit.

Hoje decidi escrever este artigo em minha sala de som, ao lado da minha coleção de vinil e me pergunto.

O que diriam os algoritmos sobre Bohemian Rhapsody?

O que?

Uma canção que duplica o tempo médio do mercado atual, que começa como uma balada, vira ópera e depois vira rock e em alguns momentos hard rock, e para acabar, não tem refrão?

Nem pensar!!!

Há pouco mais de um ano apareceram uns pseudo gurus do marketing dizendo a importância do storytelling, mas o que diria os algoritmos quando Renato Russo escreveu Faroeste Caboclo?

Uma canção que tem mais de 9 minutos, conta uma história e um personagem que ninguém conhece e que fala palavrão?

Isso não tocará nas rádios, principal veículo de divulgação musical da época.

De novo, nem pensar!!!

E poderia citar centenas de exemplos, também no cinema, na literatura, na pintura e assim por diante.

Em minha opinião, os algoritmos podem ajudar a polir uma obra, ser utilizado na pós-produção, porém, me preocupa vê-los ditar o que eu vou consumir…

Pra começar, eu já comentei em outro artigo, me resisto a usar plataformas de streaming de música, porque não quero que me guiem e me levem a escutar o que outros decidiram por mim.

E as redes sociais e seus algoritmos? Te mostram o que você quer ver ou o que interessa a eles que você veja?

Desde o ponto de vista do cliente, é uma escolha ser guiado ou não.

Desde o ponto de vista da empresa, qual o limite ético das empresas em direcionar e induzir seus clientes a consumir um produto? Qual o limite para decidir o que devo e posso consumir e o que não?

Estes algoritmos, podem gerar um paradoxo que não temos a menor ideia de como pode acabar.

Se existem algoritmos que, baseados em meus hábitos de consumo e navegação, me oferecem o conteúdo mais aderente ao meu perfil, e outros que analisam meus hábitos para criar conteúdos e produtos a medida, isso me leva a um paradoxo.

No inicio me ofereciam algo que eu gostava, agora criam e entregam algo que imaginam ou sabem que eu vou gostar.

No final, eu consumo algo que não sei se é o que eu realmente quero ou o querem que eu queira…

Mais que um trava-línguas é um dilema que pode ser perverso.

E estes algoritmos estão cada vez mais invadindo o meu direito de escolha, se é que algum dia ele existiu.

Me vejo, vivendo dentro da maravilhosa canção admirável gado novo de Zé Ramalho.

Ê, ô, ô, vida de gado

Povo marcado, ê!

Povo feliz!

E quem não gostar do que a maioria gosta?

Para está as técnicas de neuromarketing, gatilhos mentais usados de forma pouco éticas, para “convencer” a você entrar na trilha.

O Facebook admitiu recentemente que monitora a localização dos usuários, mesmo quando a função está desativada, ou seja, contra a minha vontade. Os algoritmos de reconhecimento de voz, facial e de linguagem corporal, são capazes de analisar meu estado de humor.

Os algoritmos de análise grafológica podem analisar meus textos, minhas postagens e, cruzando com todo o anterior, utilizando computação quântica, que já está no mercado, podem traçar um perfil comportamental, inclusive antecipando-se a tendências e comportamentos futuros, antes de que eu mesmo saiba que os terei.

Isso é bom ou ruim?

Se for usado para evitar comportamentos suicidas, genocídios, dependências, e outros comportamentos nocivos à sociedade, é ótimo.

Agora, se servir somente para tentar me empurrar goela abaixo o último hit da Pablo Vitar… me desculpem, mas ao menos para mim, é péssimo.

Mas onde está a novidade?

A manipulação de massas sempre existiu, através da oratória, da arte, dos meios de comunicação, etc.

Porém, a diferença é que antes, a origem das mensagens vinha de uma mente, normalmente com inteligência acima da media, que surgia de tempos em tempos, que tinha um poder de comunicação limitado pela geografia e recursos financeiros.

Hoje, com tecnologia, a origem pode ser um algoritmo, com uma capacidade absurdamente elevada e um poder de propagação global a custo zero. E se for feito de forma estruturada e com recursos, pode se converter em uma arma perigosíssima.

Então, onde está o limite?

Quem deve impor este limite?

Sinceramente acho pouco provável que a legislação seja capaz de controlar isso. A lei deve evitar, controlar e punir as exceções, a regra deve ser regulada pela conscientização.

Onde as empresas, leia-se executivos, sejam conscientes de que suas decisões e ações corporativas transcendem os resultados do final do trimestre e impactam as pessoas. Que não vale tudo para alcançar os resultados.

É uma utopia?

Seria se a criatura não afetasse ao criador, mas, neste caso, nem mesmos os criadores destes algoritmos estão livres de seus efeitos. Só precisam entender que eles e seus familiares fazem parte do mesmo coletivo que manipulam.

Otimizar processos e algoritmos para vender mais não é ruim em si mesmo.

Mas termino com a mesma dúvida do início.

Onde está o limite da otimização?

 

Imagem: Pixabay