Crescimento inorgânico é para crescer a empresa ou o ego?

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ALEX (CEO): Bom dia, pessoal!

Tudo bem?

Eu marquei esta reunião para falar sobre a integração.

 

Santos (CSO) respira com alívio e Alex percebe.

ALEX (CEO): O que foi, Santos?

SANTOS (CSO): Pensei que falaríamos dos números novamente e não deu tempo ainda, desde a semana passada, de implantar as medidas sobre as quais conversamos.

ALEX (CEO): Nem me fale dos números. Nunca estivemos tão mal, tão abaixo da meta. O conselho está me pressionando muito.

SANTOS (CSO): Bem, estamos abaixo, mas todos aqui sabemos porquê…

 

Alex (CEO) respira com ar de cumplicidade e resignação.

ALEX (CEO): Voltando à pauta da reunião.

Temos um problema enorme com a integração.

Faz quase seis meses que compramos a empresa e a integração está crua.

Os únicos pontos do nosso planejamento que foram finalizados no prazo foram a reestruturação e a otimização de custos.

O Fábio cortou o orçamento rapidinho.

No resto estamos atrasados. É inaceitável!

Edu (CIO), por que ainda estamos usando dois sistemas?

EDUARDO (CIO): O sistema que eles usavam era proprietário e a empresa está pedindo uma fortuna pela migração.

ALEX (CEO): Mas isso não foi avaliado e acordado na due diligence?

EDUARDO (CIO): Isso foi identificado, nós pedimos para eles conversarem com o fornecedor e nos disseram que não haveria problema.

ALEX (CEO): Então se vira. O antigo CIO agora está na sua equipe, não está?

Resolva isso já!

Se acabou, no próximo fechamento de mês não quero dois sistemas.

Cláudio (CHRO), o que está acontecendo?

Eu tive que assinar um monte de rescisão.

Pensei que já tínhamos terminado com a limpeza.

Bom, pelo menos espero que estejam indo os ruins.

CLÁUDIO (CHRO): Pior que não, os ruins nós mandamos embora, agora estão indo alguns bons.

ALEX (CEO): E por quê?

CLAUDIO (CHRO): Alguns porque estavam muito conectados com os que nós mandamos embora, um me falou que não se adaptou à nossa cultura, e outros afirmaram que nós impusemos nossa forma de trabalhar sem perguntar se eles concordavam. Tiveram dois ou três que disseram que, em alguns casos, eles tinham processos ou ferramentas melhores, mas nós os obrigamos a usar as nossas, isto representou um downgrade.

FABIO (CFO): Pera lá! Tem essa agora?

Quem comprou a empresa? Nós!

Portanto, quem dita as regras somos nós.

Que frescura do caramba! Eles deveriam estar agradecidos por fazerem parte de uma organização como a nossa.

ALEX (CEO): Tenho que concordar com o Fábio.

Ele fez um excelente trabalho na parte financeira da integração.

FABIO (CFO): Cortar é comigo mesmo. E como estava combinado, aproveitei a integração para cortar alguma gordura que a gente tinha. Aí o sindicato não enche o saco e ninguém fala nada no Glassdoor.

Eu aproveitei para mandar embora uns caras com salário baixo e contratar outros baratos.

Tem muito desempregado disposto a trabalhar por um salário menor.

Outra coisa que temos que aproveitar é o pessoal que está chegando com a integração, que querem mostrar serviço, que são ambiciosos.

Vocês têm que aprender a política do meio-a-meio.

Principalmente você Breno (COO), que tem a área com o maior TLC*.

BRENO (COO): O que é a política meio-a-meio?

FÁBIO (CFO): Pagar a metade do salário por trabalhar meio-período, 12 horas. Rsrsrsrsrsrsrs

Algumas pessoas riram, mas a maioria se sentiu desconfortável com a piada sem graça.

ROSA (CLO): Fábio, você não deve fazer mais este tipo de piada por aí. Se algum funcionário te ouvir, podemos ter problemas.

ALEX (CEO): Eu não imaginei que estivesse tão ruim assim.

Cláudio (CHRO), contrata uma pesquisa de clima urgente e vamos ver o tamanho do problema, se é que ele existe.

Estou um pouco fora do dia-a-dia porque a negociação da compra da próxima empresa e o conselho estão me absorvendo.

As coisas estão difíceis e preciso de vocês, tanto para finalizar a integração, como para melhorar os resultados.

Agora vamos produzir!

Quero o plano de integração finalizado este mês, não me interessa como, e a pesquisa de clima para a próxima reunião.

 

No caminho de volta a casa, Alex estava pensativo e não conversou muito.

José, levantou-se às 2:30h para beber água e viu o Alex na varanda fumando.

JOSÉSeu Alex,  bem com o senhor?

O senhor tem dormido pouco e mal, não faz mais as caminhadas,  com olheira…

ALEX (CEO): As coisas não estão saindo como eu imaginei. A ideia era acelerar o nosso crescimento de forma inorgânica, mas a minha equipe não está respondendo à altura este novo desafio.

JOSÉSeu Alex, por que o senhor quer crescer? Por que quer comprar estas empresas?

ALEX (CEO): Porque precisamos crescer José. Uma empresa deve crescer todos os anos porque o mercado exige isso.

Precisamos comprar empresas e ficarmos grande o suficiente para não sermos comprados.

Ter um portfólio maior, chegar a novos mercados, conseguir economia de escala, sinergias, enfim…

JOSÉ: Entendi. E a equipe do senhor pensa assim também?

ALEX (CEO): O que você quer dizer com isso?

JOSÉ: Nada não senhor.

Eu vou voltar para cama, o senhor deveria descansar também.

Ao voltar para a cama, José conecta a frustração de Alex com a sua equipe, a falta de comprometimento de alguns diretores e as atitudes deles, de estarem mais preocupados em agradar os investidores que em realizar seu trabalho.

 

José volta para a varanda.

JOSÉSeu Alex, o senhor conhece a diferença entre ser ambicioso e ganancioso?

ALEX (CEO): Não!

JOSÉ: Quando uma pessoa ambiciosa vê o senhor com uma camiseta bonita, ela quer trabalhar para comprar uma igual, ou melhor. Uma pessoa gananciosa, além de comprar uma camiseta igual, ela acha injusto que o senhor tenha uma camiseta tão bonita. Por isso, ela quer tomar a sua camiseta porque acha que merece mais que o senhor.

ALEX (CEO): O que isso tem a ver com a empresa? Você sabe de alguma coisa?

JOSÉ: Talvez tenha gente na equipe que, ao invés de trabalhar com o senhor para comprar muitas camisetas, tá querendo tirar a do senhor. Arrancar do corpo mesmo, sabe?

Boa noite, Seu Alex.

Durma bem.

 

* TLC = Sigla para Total Labor Cost

 

Imagens: BE&SK

Como é o profissional de um futuro singular?

Este artigo foi publicado no dia 13/08/2019 em minha coluna no portal portal R7 e no portal Inova360.

 

O executivo agressivo abre espaço para o executivo consciente

Eu já coloquei em meu Curriculum e em meu LinkedIn que eu era orientado a objetivos. Lembro-me quando o meu chefe direto, ao me promover a diretor, me deu os parabéns, disse que eu merecia aquele reconhecimento, porém aquilo era somente uma formalidade, que eu só seria considerado um bom executivo quando despedisse o meu melhor amigo, se necessário, porque isso mostraria meu comprometimento com os resultados e objetivos da empresa.

Nos últimos 30 anos aprendemos nos MBAs das melhores escolas de negócios que, além de competências técnicas, sociais e emocionais, uma característica extremamente valorizada nos executivos é a orientação a objetivos.

Quem trabalha em multinacional sabe a importância de ser assertivo em seus forecasts (previsão de resultados). Neste tipo de empresa se assina o forecast com sangue e, cumpri-los ou não, depende a continuidade no cargo.

No setor de tecnologia, falo com conhecimento de causa, os fabricantes, para cumprir seus compromissos de vendas aprovam descontos elevados nos fechamentos de trimestres e de ano fiscal. Batem suas metas, cumprem os compromissos com seus chefes e ganham seus bônus. A empresa apresenta os resultados de crescimentos que os analistas esperam, as ações sobem e os executivos são promovidos e reconhecidos.

A parte não tão bonita desta história é que tudo está baseado somente em crescimento (ler artigo Crescimento vs. Desenvolvimento), ao aprovar descontos agressivos a empresa sacrificou rentabilidade para crescer, e normalmente no primeiro dia útil do novo ano fiscal, seja necessário reduzir custos e recortar o número de headcount (número de colaboradores).

Ser orientado a objetivos não pode ser considerado algo ruim, muito pelo contrário, continua sendo importante e necessário. O problema vem da pressão excessiva pelo resultado, a qualquer custo, e isso leva algumas pessoas a fazerem qualquer coisa para alcançá-lo.

Neste momento, vários profissionais estarão lendo e se auto justificando dizendo “fiz o que tinha que fazer”, “é meu trabalho”, “eu nunca fiz nada fora da lei”, “eu tinha o respaldo do compliance da empresa”, e assim por diante.

Eu não condeno nem julgo ninguém, eu também já fui assim. A diferença é que eu entendi que não podia continuar fomentando uma economia de escassez, onde eu era pressionado e pressionava muito para alcançar os resultados, e isso levava a destruir postos de trabalho e negócios para alcançar os meus objetivos.

Eu achava péssimo a política do “fazer mais com menos”, eu achava terrível que amigos meus fossem mandados embora, e até eu mesmo já passei por isso.

Se você leu o artigo “Transtorno Dissociativo Corporativo: o gap entre a fala e a atitude” sabe que eu fazia isso e depois reclamava das consequências dos meus atos e não associava o desemprego aos meus atos.

E neste caso, é pior ainda, eu não só permitia, mas tinha um papel ativo neste processo.

Nos últimos anos, com a economia baseada em crescimento, aprendemos que esse comportamento é normal, que é assim que funciona e acabamos acreditando nisso.

Então devemos ser orientados a objetivos ou não? A resposta é fácil, claro sim! Quem não tem objetivos não avança. Quem não sabe para onde ir é arrastado pelas circunstâncias. Portanto ser orientado a objetivos é fundamental, tanto pessoal como profissionalmente.  O problema não está na orientação à objetivos e sim em sua definição.

Os objetivos quantitativos devem, sempre, estar acompanhados dos qualitativos. O marco de atuação não deve ser a lei e sim a ética. A lei é o mínimo e básico, devemos elevar a forma que atuamos para não ter o que reclamar.

Isso é muito mais fácil falar do que fazer, tem muita gente que dirá que tem que jogar o jogo porque tem conta para pagar, porque não tem escolha. Este ponto é delicado, sempre temos escolha, mesmo que elas não sejam fáceis.

Não reclame daquilo que você permite!

Veja como um executivo agressivo resolve os problemas  no canal observatório BE&SK.

Imagem: Pixabay