Os efeitos do excesso de tecnologia no ser humano e nas empresas

 

Este artigo foi publicado: no dia 01/10/2019 em minha coluna no portal R7 e no portal Inova360.

 

Todo excesso causa patologia! E o excesso de tecnologia está provocando doenças nas pessoas e problemas nas empresas

Pela primeira vez na história a quantidade de tecnologia disponível supera a nossa capacidade de assimilação e compreensão.

Esta é uma afirmação dura, porém verdadeira.

Vou tratar este tema em duas partes, primeiro falando sobre o impacto nas pessoas e depois nas empresas.

Você já teve a sensação de que foi superado pela quantidade de tecnologia e que não entende mais tudo o que está acontecendo à sua volta?

A cada bate-papo com amigos aprendemos a usar uma função nova que ainda não conhecíamos em nossos aplicativos ou instalamos algo novo que ainda não tínhamos.

Após mais de 6 milhões de anos de evolução e haver superado tantas dificuldades, o ser humano tem a falsa sensação de que controla tudo.

De repente, a quantidade de tecnologia desbordou esta sensação de controle.

E agora?

Todo excesso é prejudicial, sem exceção.

Nos inícios dos anos 90, o psicólogo britânico David Lewis, publicou um artigo “Dying for information” (Morrendo pela informação), e propôs o termo, Síndrome de Fatiga de Informação (IFS – Information Fatigue Syndromme). Com este artigo se iniciou um estudo que finalmente, em 1999, culminou em um livro “Information Overload”.

Após duas décadas, a quantidade de informação se multiplicou de forma exponencial, aumentaram os canais e a velocidade que ela circula e agravou este distúrbio.

Embora isso continue sendo um problema, em algumas pessoas disparou-se um mecanismo de defesa a este excesso de informação que é o de passar a ignorar toda a informação.

O cérebro diz, se eu não posso assimilar e filtrar toda a informação, eu simplesmente bloqueio e ignoro. O extremo de tentar ler e entender tudo não é bom, o de ignorar também não…

Mas antes mesmo de resolvermos este problema já surgiu outro, que talvez devesse ser chamada de Incapacidade de Assimilação da Tecnologia, ou para manter o padrão do IFS, TAI (Technology Absorption Inability).

A falta de capacidade de entender o processo de transformação tecnológica é tão grande, a falta de visão e de respostas sobre o futuro das profissões e dos postos de trabalhos derivados do processo de transformação digital é tão exageradamente grande, que está contribuindo fortemente para o aumento do Transtorno de Ansiedade.

Como apontado, o segundo motivo para humanizar as empresas no artigo – Entenda porque humanizar as empresas é necessário, urgente e rentável – mostramos que o Brasil é o campeão mundial de Transtorno de ansiedade quase três vezes acima da média mundial.

Este problema impacta as organizações de duas maneiras, a primeira é pelo absenteísmo. A depressão e o transtorno de ansiedade, segundo dados do Ministério do Trabalho, é a segunda causa de adoecimento no trabalho e a primeira causa de afastamento. Se as empresas não quiserem olhar pelo lado humano (que deveriam), ao menos que o façam pelo impacto e interesse econômico.

Construímos empresas que nos adoecem e isso não é motivo de orgulho para nenhum de nós.

O segundo problema que as empresas se enfrentam é que, ao existir tanta tecnologia, dedicam uma quantidade enorme de tempo em escolher uma tecnologia, estudam como integrar com as tecnologias atuais, iniciam a implantação e, em muitas ocasiões, antes mesmo de terminar já surgiu outra tecnologia.

Se a empresa cair na armadilha de focar somente na tecnologia, sem entender que ela é somente um meio e não um fim em si mesma corre o risco de ficar presa em uma teia de aranha onde faz muito esforço, investe alta soma e não sai do lugar.

Para profissionais liberais ou pequenos empreendedores esta situação também gera muita angústia, porque eles normalmente não têm conhecimentos nem equipe técnica para ajuda-los neste processo.

Em um workshop recente, uma participante disse que havia decidido fazer o workshop porque a falta de conhecimento profundo sobre o impacto da tecnologia no negócio dela, e isso lhe gerava angústia.

A incerteza tem um poder destrutivo muito grande em nossas vidas e empresas, não nos podemos permitir o luxo deixar que se instale em nós.

Então como devemos atuar?

Proibir e limitar as tecnologias?

Só de escrever a palavra proibir me provocou rechaço. Isto, em minha opinião está fora de cogitação.

Seria a mesma bobagem que se discutiu quando surgiu o documentário Super Size Me, alguém consumiu, de forma voluntária, durante 30 dias comida processada do McDonald’s, engordou e teve vários distúrbios em sua saúde.

Devemos proibir o fast food?

Claro que não!

Cada um deve controlar o próprio consumo.

No máximo, podemos fazer como o documentário e questionar o marketing, o incentivo inconsciente deste tipo de alimentação, os gatilhos mentais e técnicas utilizadas para atrair crianças, enfim, tudo isso é melhorável, porém, jamais proibir.

Da mesma forma acontece com a tecnologia, não devemos demoniza-la, e sim, aprender a utiliza-la a nosso favor.

O melhor, e talvez único, caminho para as empresas não caírem na roda de rota, de onde provavelmente fiquem pressas, correndo sem sair do lugar, fazendo investimento de milhões em tecnologia e avançando muito pouco (ou nada) seria contratar um profissional especializado em transformação, que entenda de tecnologia porém que tenha como principal característica e linha de trabalho, um perfil humanista.

Que coloque as pessoas no centro do processo de inovação e transformação digital e entenda que a tecnologia está para nos servir e que é um meio e não um fim.

Imagens:  Pixabay

Concorrentes vêm de outras áreas e foco setorial o deixa vulnerável

Este artigo foi publicado no dia 02/07/2019 em minha coluna no portal R7 e no portal Inova360.

 

Na transformação tecnológica, pensar que o concorrente é outra empresa do mesmo setor pode matar seu negócio

Durante muito tempo o concorrente de uma empresa era outra empresa que fazia o mesmo que ela. Essa realidade começou a mudar quando os concorrentes saíram do bairro e passaram a ser empresas no mesmo estado, país e por fim, em qualquer parte do planeta. Porém, os novos concorrentes continuaram sendo empresas do mesmo setor e que vendiam produtos similares.

Com os concorrentes identificados e com o conhecimento do setor de atuação, a gestão se concentrava em controlar ou reduzir os custos, despesas e maximizar as receitas. Muitos setores da economia, para não dizer a maioria, também tinham a proteção de regulamentações específicas, associações, sindicatos e conselhos regionais, que protegiam as empresas e os profissionais liberais – não estou dizendo que seja bom ou ruim, somente constatando.

Agora, essas premissas, amplamente conhecidas, dominadas e ensinadas nas escolas de negócio, em que qualquer profissional de mais de 30 anos estudou, caíram por terra.

Há pouco mais de uma década, a tecnologia começou a trazer concorrentes de fora do setor, que não possuem a mesma estrutura de custo, nem seguem as mesmas regras.

Por exemplo, o concorrente de uma empresa aérea era outra empresa aérea. Quando subia o petróleo, impactava as duas. Quando subia o dólar, impactava as duas. Quando a ANAC mudava alguma regra, impacta as duas. Portanto, o desafio era controlar os custos e aumentar as receitas.

Há pouco mais de dez anos, esta realidade mudou. Além de outra empresa aérea, a tecnologia trouxe como novo concorrente das empresas aéreas a videoconferência. Quando sobe o petróleo, continua impactando a empresa aérea, mas a empresa de videoconferência? Nada. Por isso as companhias de aviação sofreram um impacto enorme e muitas tiveram que passar por fortes reestruturações ou realizar fusões para sobreviver.

Este tipo de situação traz um novo desafio às empresas. Como competir em um cenário onde o seu concorrente não tem as mesmas regras que você?

A realidade atual é que este tipo de situação está acontecendo e vai acontecer mais e mais rápido. Para não ficar somente em um exemplo antigo, temos a Apple que, há um mês, lançou um cartão de crédito, portanto temos uma empresa de tecnologia competindo com bancos (por certo, um setor regulado). Por outro lado, os bancos começam a competir com coworking. O coworking com as imobiliárias. E por aí vai.

Estas transformações estão acontecendo, independente de nossa vontade, e o maior perigo é não ser consciente ou não entender todo este processo. Frequentemente, me encontro com empresários que dizem que suas empresas passam por um momento de dificuldade pela crise econômica, pela política ou por culpa da tecnologia que está matando seu negócio. Provavelmente cada um destes fatores tenha sua parcela de responsabilidade, mas o processo de transformação é mais amplo.

Diante deste novo cenário, muito mais complexo e dinâmico, temos diferentes agentes que podem impactar a empresa de forma diferente. A transformação digital passiva, por exemplo, que vimos no artigo da semana anterior. Outro ponto são produtos, serviços ou modelos negócio, do mesmo setor da empresa ou não, que podem impactar a empresa.

Antes era menos complexo, bastava frequentar as feiras e congressos do setor em que a empresa atuava e pronto. Hoje continua sendo importante, porém já não é suficiente.

O timing na identificação deste tipo de situação é fundamental e pode significar uma grande oportunidade para a empresa crescer ou uma grande ameaça capaz de levá-la à falência.

Se aprender a ler este movimento de transformação e saber se posicionar é tão importante, a pergunta é, como fazê-lo? A imensa maioria das empresas não é consciente disso e as que são não têm uma metodologia formal para fazer este tipo de pesquisa.

Partindo desse desafio, criamos o conceito do observatório, que, primeiramente mostra que os concorrentes podem vir de fora do setor e, depois, treina o olhar da empresa para identificar essas tecnologias ou modelos de negócio que possam impactar a empresa. Após identificar as tecnologias ou modelos de negócio, é importante saber analisar o impacto da tecnologia para a sociedade, para a empresa e para os clientes.

Sabemos que os grandes riscos e as grandes oportunidades não estão na tecnologia em si, mas sim em seu impacto.

Por isso aplicamos o modelo de análise de impacto de tecnologia; tanto o observatório como o modelo de análise de impacto da tecnologia fazem parte da jornada de transformação tecnológica tecno-humanizada, uma metodologia que une tecnologia, negócios e mudança de mentalidade (mindset) para transformar empresas em organizações rentáveis e conscientes.

Assista o video do canal observatório BE&SK.

Imagem: Pixabay