Tecnologia: da escassez à abundância

Este artigo foi publicado: no dia 29/10/2019 na minha coluna no R7 e no portal Inova360 e no dia 08/11/2019 no IT Forum 365.

 

No último século a tecnologia salvou mais vidas que em toda a história da humanidade

A tecnologia, demonizada por alguns e idolatrada por muitos, foi um gatilho que mudou a história da humanidade.

Ela nos permitiu, nos últimos 50 anos, melhorar nossa qualidade de vida, ajudou a reduzir a fome e a miséria, erradicar ou curar doenças. Seja diretamente, seja apoiando novos protocolos ou ainda incentivando novas condutas.

A taxa de mortalidade infantil reduziu quase 60% no mundo e mais de 90% no Brasil, passando de 16,9% a 1,44%, entre 1960 e 2018. A Pobreza também reduziu drasticamente, passando de 42,1% da população em 1981 para 10% em 2015. Estes dados são publicados pelo Banco mundial.

Uma parte importante dos méritos desta melhoria, sem dúvida, se deve à tecnologia. Equipamentos e medicamentos que melhoraram (e salvaram) direta ou indiretamente muitas vidas.

Sem dúvida estes dados são importantes e nos deixa feliz, mas não podemos nos acomodar. A leitura dos dados em valor relativo pode ser enganosa, quando se trata de vidas.

Basta que uma pessoa morra por falta de acesso à tecnologia, alguém que poderia ter sido salva e não foi porque não fomos capazes de construir um modelo mais humanizado de sociedade, teremos falhado.

Temos muita tecnologia disponível. Daí a entrar no mérito se ela é acessível para todo mundo já é uma outra discussão, que será tema de um outro artigo em separado.

Fato é que, mesmo reduzindo a porcentagem, em valor absoluto, ainda temos muita gente sofrendo ou morrendo no mundo. A diferença é que antes se morria ou sofria por falta de tecnologia, hoje por falta de consciência ou por ganância.

Criamos empresas que adoecem pessoas ou, no mínimo, as faz sofrer e, o pior, ainda estamos longe de atuar de maneira profilática para evitar que sofram. Enfim, estamos melhor que no século 18?  Em termos relativos sim, em valores absolutos não, em termos tecnológicos sim, em termos humanos… bastante questionável…

Em outras palavras, evoluímos muito em termos tecnológicos, mas ainda estamos longe de resolver os reais problemas da humanidade.

O dado positivo é que nunca tivemos uma oportunidade tão grande de utilizarmos a tecnologia a nosso favor, com o propósito genuíno de construir uma sociedade. Portanto, não podemos desperdiça-la!

Vejamos alguns exemplos de como podemos mitigar os problemas das necessidades básicas do ser humano:

Alimentação: Não me refiro somente à melhoria de produtividade, no sentido maior produção por hectare, porque isso já fazemos com excelência. Obviamente isso ajuda a humanidade porque temos que alimentar a uma população cada vez maior. Temos projetos verdadeiramente disruptivos, como carnes de laboratório (já comentei alguns exemplos no canal observatório BE&SK), ovo sintético (pó e líquido), produção de arroz em água salgada e assim por diante.

Saúde: Muito além das curas de doenças, já temos óculos que fazem deficientes visuais enxergarem através de som, impressoras 3D que imprimem órgãos em testes avançados e iniciando os testes temos tratamentos com nanorobôs, que podem aplicar quimioterapia somente na célula cancerígena, por exemplo. Sem contar as tecnologias que permitem exames laboratoriais básicos em domicílio. A inovação, neste caso, se observa mais pelo modelo de negócio do que pela tecnologia em si. Outro exemplo, o marketplace de saúde webmd, que reúne médicos, laboratório, hospitais, recebeu mais visitas e teve mais consultas online, que todas as consultas presenciais feitas por todos os médicos americanos juntos.

Moradia: Conceitos de casas sustentáveis, utilizando materiais recicláveis e reutilizáveis, aplicando tecnologias como impressoras 3D ou nanotecnologia. Este tipo de projeto reduz o custo, o tempo de construção e o impacto meio-ambiental, não gerando resíduo da obra. Outros conceitos como motorhomes minimalistas para nômades digitais ou tecnologias como IoT para eficiência energética, e assim por diante.

Educação: Inteligência artificial, realidade virtual, realidade aumentada tem enriquecido o conceito de ensino a distância, não obstante, a maior revolução tem sido em relação à democratização do conhecimento através das MOOC (Massive Open Online Course). Atualmente existem milhares (ou milhões) de Cursos Abertos Online gratuitos disponíveis em vários idiomas. (Em breve faremos artigos específicos para educação e saúde)

 

Poderia citar uma lista de 20, 50 ou 100 tecnologias que estão à nossa disposição. Porém, as tecnologias por si só não resolverão os nossos problemas.

E sabem por quê?

Porque muitas delas vão de encontro aos interesses de empresários sem visão, de investidores ou de grandes grupos econômicos.

Para que possamos levar estas tecnologias e gerar abundância à sociedade, precisamos de dois aspectos adicionais à tecnologia.

Mudança de Mindset e novos modelos de negócio, mais conscientes e humanizados.

Para abordar estes três pontos, tecnologia, modelos de negócios rentáveis e conscientes e mentalidade, é necessária uma metodologia. Seria muito difícil ter sucesso se não os abordamos de forma integrada e sistêmica.

A maioria das startups já estão nascendo com esta visão, porém, o que acontece com as empresas atuais?

As estatísticas de vida útil das empresas mostram que haverá uma renovação muito maior ao que já vimos ao longo da história, porém, não é realista pensar que devemos matar todas as empresas atuais e substituir por startups, temos que buscar a forma de ajudar as empresas existentes.

O principal objetivo da Tecno-Humanização é unir tecnologia e pessoas, para transformar empresas tradicionais em organizações rentáveis, conscientes e humanizadas, através de seus 3 pilares:

Tecnology, Business & Mindset Transformation.

Porque este é o caminho que encontramos para aplicar tecnologia para levar-nos de um modelo de escassez para um modelo de prosperidade e abundância acessível a todos.

 

Fonte dos dados:

Dados do Banco Mundial sobre taxa de mortalidade infantil no Brasil

Dados do Banco Mundial sobre pobreza

 

Imagens:  Pixabay

Crescimento vs. Desenvolvimento: digitalizar o jogo acelera o colapso

Este artigo foi publicado no dia 30/07/2019 em minha coluna no portal portal R7 e no portal Inova360.

 

A transformação digital é nociva não pela tecnologia em si, mas porque parte de uma premissa equivocada e perversa

O que me motivou a escrever este texto foi o artigo da semana passada, no qual dei a minha visão sobre as prioridades dos CEOs a respeito da inovação. O fato de que a principal prioridade seja o crescimento ficou martelando em minha cabeça.

Basta olhar à nossa volta e ver como é nociva a busca pelo crescimento ilimitado. Para sermos capazes de analisar este cenário, é importante entendermos as diferenças entre crescimento e desenvolvimento.

Enquanto o crescimento está relacionado a indicadores quantitativos, o desenvolvimento é muito mais amplo e qualitativo. Ele representa a aplicação da riqueza gerada pelo crescimento, a forma que é transformada em educação, saúde, cultura e qualidade de vida.

No caso do setor público, o crescimento de um país é medido pelo PIB (Produto Interno Bruto), ou seja, representa a soma, em valores monetários, de todos os bens e serviços finais produzidos pelo país.

Vamos analisar somente o ponto de vista de crescimento, tomando a China como exemplo. Se ela continuar crescendo como cresceu na última década, teríamos duas Chinas antes de 2030. O problema é que não cabem duas Chinas no planeta, não haveria clientes para duas produções chinesas.

Sem contar que, para a produção chinesa crescer a este ritmo seria necessário canibalizar e transferir a produção de outro país para a China, o que gera desemprego local, e todas as consequências negativas associadas.

Óbvio que não podemos manter as produções locais por imposição, temos que buscar melhorar a competitividade do país, mas isso é assunto para outro artigo.

No caso das empresas, os indicadores de crescimento são faturamento e lucro, e qual o caminho que as empresas encontraram para crescer?

A transformação digital!

Aplicar tecnologia para reduzir custos, otimizar processos, melhorar experiência do cliente, aumentar o alcance geográfico e as vendas.

Essa transformação digital só acelera o colapso econômico e social e não pela tecnologia por si só, mas porque parte de uma premissa equivocada e perversa.

É nossa obrigação buscar desenvolvimento, criar organizações Tecno-Humanizadas, que aplicam tecnologia para transformar seus produtos, serviços e modelos de negócios em operações rentáveis e humanizadas.

Claro que as empresas devem crescer, vender mais, otimizar custos e recursos, negociar com seus fornecedores, competir, e ganhar dinheiro.

Isso se chama boa gestão e a sobrevivência da empresa depende disso. A questão é que não podemos buscar o crescimento a qualquer custo.

Ao trocar crescimento por desenvolvimento, inevitavelmente a empresa promove o desenvolvimento de tudo e todos à sua volta de forma harmônica e sustentável ao longo do tempo.

Para que isso não seja apenas uma declaração de boas intenções, vamos mostrar a diferença entre um modelo de negócio de uma empresa de sapatos que busca crescimento e outra desenvolvimento.

Uma empresa de sapatos, para crescer da forma tradicional, busca reduzir o custo da matéria prima, de mão de obra, de produção, e aumentar as vendas.

Para reduzir os custos de matéria prima, é comum não se preocupar com a origem ou seu processo produtivo. Para reduzir o custo de produção e mão de obra há dois caminhos, ou automatizar a produção o máximo que puder ou levar a produção para China (exemplo que ilustra o que comentei sobre canibalização e transferência de produção).

Utiliza-se de tecnologias de IoT, Big Data, Analytics e IA para mapear os hábitos de consumo dos clientes e criar campanhas de marketing para gerar demanda. Aplica-se gatilhos mentais para induzir o consumismo e compras por impulso, mesmo sabendo que talvez os clientes não precisem do produto naquele momento. Isso é transformação digital aplicada ao crescimento.

Porém, se a empresa utiliza materiais reciclados ou sustentáveis, tanto no sapato como na embalagem, ela se preocupa pela origem da matéria prima e que o processo produtivo seja sustentável, humanizado e justo.

Se a empresa trabalha com conceito de co-criação (inovação colaborativa) para criar novas estampas, parte da produção é feita por uma fábrica nacional, outra parte é feita por células produtivas formadas por mulheres em situação de vulnerabilidade, que participam de um ONG e receberam maquinaria e treinamento para trabalhar.

A empresa não se aproveita da situação laboral desfavorável destas mulheres, muito pelo contrário, paga salários justos acima da média do mercado. Não se trata de assistencialismo, a empresa oferece dignidade através do trabalho.

Parece um modelo de negócio dos sonhos?

Pois é, ele existe, a empresa é brasileira e se chama Linking DOTZ.

Esse modelo também precisa das mesmas ferramentas e tecnologias que o anterior, ou seja, Big Data, Analytics, IA, marketing digital, etc. A diferença é que quando essa empresa cresce todos crescem à sua volta e isso é desenvolvimento.

Veja o case no canal observatório BE&SK.

Imagem: Pixabay