Tendências e desejos pós-corona vírus

Este artigo foi publicado no dia 18/03/2020 na minha coluna no R7 e no inova360

 

O que aprendemos com a pandemia e o que podemos utilizar para reconstruir nossa sociedade

Eu só quero que as coisas voltem ao normal!

Esse era um pedido recorrente nas conversas virtuais e nos grupos de WhatsApp.

Estava há dias lendo mensagens de amigos e familiares dizendo que não aguentavam mais ficar em casa, que queriam sair e encontrar os amigos.

Tem o grupo de pessoas que apoia o governo, tem o grupo de pessoas que critica o governo, tem um terceiro que acha que ambos lados estão certos, como se este momento devesse ou pudesse existir lados…

Eu estou produzindo como um louco, lancei um espetáculo teatral, o converti em digital pelo momento que estamos vivendo destinando parte da arrecadação para uma casa de assistência a idosos, uma plataforma de cursos online, um livro, e estou trabalhando em um programa de TV.

Tudo isso enquanto as atividades presenciais não podem ser retomadas.

Portanto não entendia muito bem como as pessoas tinham tempo para reclamar do confinamento, quando eu estava tendo uma reunião, virtual, atrás da outra.

Sentia uma certa frustração ao ver que, os mesmos que estão preocupados com o futuro da economia e da crise avassaladora que virá, inevitavelmente, são os mesmos que não produzem nenhum novo projeto e não colaboram com os projetos alheios.

Frustrado com aqueles que criticam as medidas adotadas, sejam elas quais forem, mas não propõe medidas melhores.

Frustrado com aqueles que pedem que tudo volte ao normal, mas não fazem nada que isso aconteça.

E eu estava cansado, física e mentalmente, e precisava dormir um pouco. Com todos os projetos em andamento, subi pro meu quarto, tomei um bom banho e dormi.

Não sei quanto tempo passou, mas hoje eu acordei e me disseram que era o 1º dia pós-corona vírus.

Que a humanidade havia vencido a pandemia e que o desejo dos que pediam a volta à normalidade, se faria realidade.

Os jornais e a internet anunciavam a todo momento, que a partir de hoje, tudo volta ao normal.

Me sentei na cama, e antes mesmo de pôr os pés no chão, me vieram duas perguntas à cabeça:

A primeira, mais metafísica.

“O que significa “voltar ao normal?”

E a segunda muito mais pessoal e terrenal é:

“Será que eu quero que as coisas voltem a ser como antes?”

Banho, café e decidi sair para ver como estava o mundo pós-corona vírus.

Pra começar, quando abri a porta de casa, o meu vizinho da frente, atravessou a rua e veio me cumprimentar, com um bom aperto de mãos e um abraço.

Eu o via cada manhã e o saudava de longe com um leve aceno.

Fui para o trabalho em transporte público, e vi as pessoas se protegendo ao tossir e espirrar, tomando medidas de higiene e normas de convivência, ao chegar no escritório as pessoas estavam sorridentes, felizes em se ver e em voltar ao trabalho.

Ué, aqui pelas manhãs sempre havia um clima fúnebre e muitas reclamações e hoje as pessoas estão falando de futuro, do que pode ser feito.

Dois torcedores fanáticos de times rivais, que não podiam conversar sobre futebol sem acabar discutindo, combinando para ir assistir juntos o jogo entre seus times.

Outro grupo dizendo que decidiram manter a ação social que criaram durante o período de confinamento, porque se apegaram e tinham carinho pela causa que ajudaram.

Recebi uma mensagem no celular de um amigo que nunca gostou de estudar: “Marcio, estamos criando um grupo de estudos virtual com diversos especialistas e gostaríamos de te convidar a participar”

Eu olhava a minha volta e via um mundo diferente, e o melhor de tudo, eu gostava muito do que estava vendo.

De repente me dizem, vamos, temos reunião.

Eu nem sabia do que se tratava a reunião, passei muito tempo dormindo e havia perdido o fio da meada…

Quando já estávamos todos sentados, ligaram a TV e apareceu uma pessoa, que eu havia visto nunca, e diz:

“Vocês gostaram do que estão vendo?”

O ser humano entendeu a necessidade de cuidarem de sua saúde mental.

De cuidar da saúde física, da higiene e de respeitar o espaço de cada um.

Que para vencer uma situação adversa é necessário união.

Para criar prosperidade é preciso colaboração.

Que único não significa ser individualista.

Que o coletivo sempre tem prioridade sobre o individual.

A solidariedade não é uma opção e sim uma escolha.

Não se iludam, isso vai passar.

É só uma reação provocada pelo período difícil que vocês viveram.

Se nada for feito, realmente as coisas vão voltar a ser como antes.

O individualismo será mais importante que a individualidade.

O fim justificará os meios.

O resultado prima sobre o esforço.

O destino será mais importante que a jornada.

A quantidade terá mais peso que a qualidade.

Vocês voltarão a ter a ilusão de que o amor se mede pelo ter e não pelo ser.

Que a relevância se mede por número de seguidores.

Que é mais importante falar do que ouvir, impor do que entender, ganhar do que ser feliz.

Por certo, como vocês pediram que tudo voltasse como antes, em breve a felicidade se medirá por likes novamente.

Em breve saberei se vocês aprenderam alguma coisa, se o sofrimento foi suficiente ou se eu precisarei voltar.

Neste momento, meu celular tocou.

São cinco da manhã, e eu me levantei correndo, desci para o escritório, abri o notebook e vi que o número de mortes continua aumentando e que o término da pandemia havia sido um sonho.

Por 5 segundo, senti uma tristeza enorme, mas de repente me veio uma força enorme e a resposta da segunda pergunta veio à minha cabeça claramente.

“Será que eu quero que as coisas voltem a ser como antes?”

Não, não quero!

Precisamos construir um mundo melhor ao que tínhamos antes do COVID-19.

 

Imagens: Pixabay

Diálogo entre a Inteligência Artificial, a consciência Tecno-Humanista e o Coronavírus

Este artigo foi publicado no dia 18/03/2020 na minha coluna no R7 e no inova360

 

Três visões do invisível sobre o mundo visível e real. Como o invisível e o intangível nos enxergam?

A noite passada, Flávio, um dos maiores especialistas em inteligência artificial (IA), trabalhou até muito tarde e acabou dormindo mais uma noite no laboratório. Acostumado a passar a noite em claro em sua sala, cercado de computadores e sem ninguém para interromper, o trabalho rende mais.

Flávio, que está contaminado pelo COVID-19, se rendeu ao cansaço e se deitou em um sofá do escritório e dormiu.

Aproveitando que estava dormindo, a sua Consciência Tecno-Humanista (CTH) saiu para dar uma volta, e ver o que estava acontecendo por aí.

Encontrou um computador aberto, e entrou, lá no fundo viu a IA e o COVID-19 juntos, decidiu se aproximar e participar da conversa.

CTH: Olá pessoal, tudo bem? Vocês sabem me dizer o que está acontecendo aqui fora, o Flávio viveu uma montanha russa de emoções e sentimentos nos últimos dias, sem contar que está doente e não está respirando bem.

IA: A culpa é desse cara aí. Ele e a família dele está tocando o terror pelo mundo. Mas fica tranquila, pede pro Flávio não sair de casa, que eu fui nomeada recentemente como rainha das tecnologias do futuro, e vou resolver isso.

COVID-19: Você acha mesmo que consegue me vencer? Eu sou invisível aos olhos humanos e mais rápido que você. Vou contagiar geral.

IA: Você que pensa, tem muita gente me usando para fazer pesquisas, pelo que me falaram ontem, já passam de 90 iniciativas, eu acho, me usando para identificar, diagnosticar, criar protocolos, encontrar curas, eu já até ajudei a sequenciar o seu genoma em tempo recorde. Antes a ciência demorava anos em fazer isso, e desta vez, com minha ajuda, fizemos em dois dias.

COVID-19: Ah para meu! Você bate no peito, orgulhosa disso só porque conseguiu me sequenciar, mas conseguiu me parar?

IA: Ainda não, mas estou avançando.

COVID-19: Pode correr à vontade, já não dá mais tempo. Vou contagiar todo mundo e matar vários de vocês, inclusive o seu querido o Flávio.

IA: Só por cima do meu cadáver, eu como rainha das tecnologias, não te permito continuar fazer o mal ao Flávio, e nem a ninguém. Se acabou!

Uma enorme gargalhada viral ecoou dentro do computador.

COVID-19: E quem é você para me dar ordens?

IA: Já falei, a rainha das tecnologias, a tecnologia mais importante do futuro, todos me elogiam, dizem que eu vou dominar o mundo, mas se você acabar com os humanos, a quem eu vou controlar no futuro?

COVID-19: Ah! Então você não está preocupado com as pessoas, no fundo você está preocupado com o seu reinado.

IA: Pera lá… não é bem assim. Eu também quero ajudar os humanos, pra isso fui criada.

COVID-19: Mas tem gente da sua família que só se preocupa em vender pra quem não quer comprar, atrair pessoas para aquele negócio onde as pessoas mentem e fingem que são felizes o tempo todo, como se chama mesmo?

CTH: Redes sociais!

IA: Ah! Você estava prestando a atenção na conversa?

CTH: Claro que sim! Eu estava ouvindo a discussão de vocês. Infelizmente eu acho que o COVID-19 vai vencer esta batalha, ele vai gerar o caos no mundo, e acho pouco provável, por não dizer impossível que você consiga evitar.

IA: Como?!!! Por essa eu não esperava. Eu sei que tivemos nossas diferenças no passado, principalmente quando eu superei você nas prioridades dos humanos, mas jamais pensei que você, que se considera um nível de consciência elevado, com alto grau de inteligência emocional, pudesse deixar sentimentos tão pobres, como a inveja e o rancor te dominarem e ficar do lado de um vírus nocivo.

CTH: Eu não estou do lado de ninguém, só analiso os fatos.

O corona vírus é invisível e muito contagioso, este é um ponto a favor dele.

IA: Mas eu conto com o apoio e o dinheiro de grandes empresas e de vários governos.

CTH: Sim, mas essa guerra não se trata somente de recursos, de dinheiros ou de tecnologia. Óbvio que isso é muito importante, e vai ajudar a encontrar uma solução para o futuro. Mas você ainda não entendeu que você está lutando contra um inimigo muito maior que o vírus.

COVID-19: Cala boca CTH! Já falou demais, não conta pra ela.

IA: Como assim? Pensei que a minha luta fosse contra este vírus nojento.

CTH: Talvez seja esse o problema. Você só está focando na ponta do iceberg. Sim, a propagação deve ser contida, temos que ser capazes de diagnosticar o quanto antes, precisamos descobrir mais medicamentos e formas de tratamentos que nos permita tratar e curar os casos em um curto espaço de tempo, tudo isso é importante e você deve seguir trabalhando.

Mas talvez, por pensar que a tecnologia é o centro do universo, não te permitiu quem é o seu inimigo número de verdade, e menos ainda, refletir sobre o porquê isso está acontecendo.

IA: É que eu sou uma inteligência artificial, eu ainda não reflito, e a maior parte do tempo, faço as coisas que me mandam fazer. No futuro terei mais autonomia, e dominarei o mundo, mas por enquanto, ainda sou um pouco dependente.

CTH: O maior vilão desta história é o próprio ser humano, não todos, mas algumas pessoas, e essa é a maior vantagem do coronavírus.

IA: Como assim?!!!

CTH: Tem gente, que por não ter desenvolvido sua consciência Tecno-Humanista e sua inteligência emocional quando deveriam, agora não estão sabendo lidar com esta situação.

Compram em excesso e geram escassez para seu semelhante. Milhões de anos de história e não sabem conviver, respeitar, compartilhar.

Espalham notícias sem checar a fonte e a veracidade, e isso só causa pânico.

Outros, prevendo uma crise econômica, que vai acontecer inevitavelmente, param de consumir, de pagar, propõe redução de tarifas, enfim, medidas que retiram dinheiro de circulação. E sabe o que isso provoca? Aumenta e acelera a crise econômica.

Tem um grupinho de pessoas, que estão se aproveitando, triplicando o preço de alguns produtos que são importantes neste momento.

E o pior de todos, o grupo que ainda acha que tudo isso é um exagero, que, para se sentirem importante, dizem que não podem ficar em casa.

Também temos os teimosos, os egoístas, os metidos a besta, os sabichões, os arrogantes, os prepotentes, os avarentos, os especuladores, os aproveitadores, os oportunistas, e poderia seguir com a lista…

Diante do medo, do pânico que pode gerar a incerteza, pensam somente em si, e ainda não entenderam que as únicas armas contra este vírus são a colaboração e a solidariedade. Pensar no coletivo.

Você já parou pra pensar o porquê isso está acontecendo e o que podemos tirar de lição deste momento?

O ser humano é esquisito.

Tinha seus seres queridos ao lado e não se abraçavam, agora que não podem, dizem que sentem falta.

Tinham que sair de casa pra trabalhar e diziam que queriam ficar em casa, agora que precisam ficar em casa, querem sair.

De repente, vem esse aí, e faz tudo parar.

E quem não tinha tempo, agora tem todo o tempo do mundo, e não sabe o que fazer com ele.

Mas estes paradoxos não acontecem só nas casas, quer ver?

Os humanos levam anos dizendo, com orgulho, que construíram uma sociedade globalizada, que abriram fronteira, que estão unidos e que são um.

E no primeiro grande desafio global que tem, o primeiro que fazem é fechar suas fronteiras, negar colaboração ao vizinho, deixar morrer ao que antes chamavam de amigos.

Quero deixar duas mensagens a vocês e voltar para Flávio que ele está a ponto de acordar.

IA, você é importante sim, deve continuar trabalhando em suas pesquisas e ajudando os humanos. Mas não se esqueça, você só é uma tecnologia, nunca será como eu, nunca me substituirá. Ao invés de tentar competir comigo, quando passar tudo isso, vamos nos unir e trabalhar juntos.

COVID-19, você não criou o caos, você só tirou a máscara de hipocrisia que os humanos usavam para se sentirem civilizados sem sê-lo.

Você, sendo invisível, tornou visível e palpável a falta de humanidade que eles carregam.

Existem pessoas que pensam que você mata quem tem baixa imunidade.

Eu penso que você se torna muito mais letal e poderoso porque os humanos têm baixa a humanidade.

Essa é a nossa maior pandemia, e a cura é a compaixão.

 

Imagem: BE&SK